Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 15
ressa de perto: a repetição. Ao sublinhar o caráter contin-gencial do mito, o antropólogo acentua também a similari-dade das estórias ao redor do mundo e em tempos variados da história — há algo que se repete, que é similarmente insistente na linguagem mítica, em meio a suas particulari-dades históricas ou culturais. Tal repetição tem por efeito expor, desvelar um ponto nodal dessa linguagem: a atenção a contradições e à sua superação. Sob essa ótica, vemos que não é à toa, então, que sejam recorrentes nos mitos questões como vida e morte; o mesmo e o outro; a diferença sexual; o perene e o transitório; e assim por diante.
O magnetismo do mito. Tanto o mito como linguagem quan-to a questão da repetição de contradições constituem pon-tos notáveis da atração que o discurso mítico tem exercido sobre a psicanálise. O inconsciente, a espinha dorsal dessa descoberta freudiana chamada psicanálise, também estru-tura-se como uma linguagem, conforme insistiu Jacques Lacan, a partir de Freud. Uma linguagem que, sobretudo, se funda no paradoxo, na coabitação de opostos e na repetição, na tendência a retornar sempre ao mesmo ponto; em geral, ao ponto de encontro com uma satisfação originária e absoluta e, portanto, mortífera.
Por essas breves indicações, podemos já perceber que,
tanto na esfera do mito quanto na do inconsciente, estamos muito distantes de alguns atributos comumente a eles asso-ciados: as profundezas obscuras, o primitivo, “o lugar das divindades da noite”, como ironizou Lacan. Somos, sim, confrontados e, às vezes, afrontados por questões que gra-vitam em torno das origens, do sujeito, do mundo, do