Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 55
quer visão monolítica “do corpo”, ao mesmo tempo em que pomos em relevo sua dimensão subjetiva. Não há corpo sem subjetividade, não há corpo desencarnado, como nos ensina o trágico percurso de Édipo a partir de sua resposta à Esfinge. Voltemos a esta.
Sua monstruosidade pode ser vista à luz de uma outra
figura, possivelmente mais aterrorizante, da mitologia gre-ga: Medusa. Alguns helenistas contemporâneos sublinham um traço importante de figuras míticas femininas — por exemplo, Balbo, além da própria Medusa —, qual seja, a confluência entre o rosto e o sexo. No deslocamento do sexo para o rosto temos a revelação de algo que deveria ter permanecido velado, o sexo feminino, e que, por essa di-mensão de estranheza (do Unheimliche freudiano), é tribu-tário do grotesco e do aterrorizante. Em sua leitura da facialidade de Medusa, desenvolvida no ensaio “A cabeça de Medusa”, escrito em 1922 e publicado em 1940, Freud acres-centa uma dimensão importante para pensarmos o mons-truoso, especialmente o da Esfinge.
O horror que Medusa provoca é a imagem do efeito
que suscita a cara do sexo feminino, e o feminino de cara. Dito de outra forma, Medusa é moldada como encarnação do horror frente ao sexo feminino, de sua dimensão ina-preensível, fugidia, misteriosa. A tal remontagem imaginá-ria também se presta a Esfinge, não somente na peça de Sófocles, mas no imaginário ocidental grosso modo, como encarnação do horror frente ao mistério, ao indecifrável do sexo.