Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 47
o enigma sobre o assassino torna-se um símbolo, um sinto-ma de um outro enigma que se apresenta para Édipo: ele próprio, sua linhagem, origem. Tal método de trabalho teve particular ressonância no desenvolvimento do método psi-canalítico, como o próprio Freud indica na Interpretação dos sonhos ao assumir — e este é um verbo importante em psicanálise — que o processo de revelação, dramatizado em Édipo Rei, é semelhante ao trabalho de uma análise.
No ensaio “O Moisés de Michelangelo”, de 1914, Freud
faz referência à técnica desenvolvida por um médico italiano do século XIX, Morelli, utilizada para o estabelecimento da autoria de quadros. De acordo com a síntese de Freud, a técnica de Morelli consistia em pôr em relevo as minúcias, os detalhes (tais como unhas dos dedos, o lóbulo da orelha), em vez de voltar a atenção para as características e impres-sões gerais das obras. O próprio Freud faz uma analogia com o método psicanalítico que também se marca pela atenção aos detalhes, deslizes de linguagem, jogos de palavras, atos falhos, a “trivialidades” como sonhos e fantasias, a isso que Lacan designou como “formações do inconsciente”. Os ca-minhos de Édipo e os da psicanálise se encontram nos tecidos da linguagem e, especialmente, na atenção dada por ambos a essa tessitura.
Tramas da linguagem. A linguagem e seus enigmas, no cen-tro da qual está o ánthropos, talvez seja o principal caminho aberto por Édipo para a fundação da psicanálise, conforme nos conta Sófocles. Como exemplificação das artimanhas da linguagem, basta tomarmos o título da peça: Édipo Rei é