Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 1 de 64

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Mito e Psicanálise

12 Ana Vicentini de Azevedo

palavras, para algumas vertentes interpretativas, o mito res-tringe-se ao domínio do significado, que permanece inalte-rável, fixo e independente do significante. Medusa vai sem-pre significar isso ou aquilo, seja ela representada em um vaso ou em um poema de Hesíodo. A fim de matizar essa primazia do significado, façamos mais outra inversão — e são de versões que tratamos aqui —, pondo em relevo o próprio significante.

Em sua Poética, Aristóteles nos faz ver a ambigüidade em que está imerso o significante mythos na língua grega. Ao mesmo tempo em que o termo se refere a uma fabulação, a um relato, a uma estória, ele também concerne ao arranjo desses fatos fabulosos. Ou seja, o mito, segundo esse filósofo, não é algo somente da ordem do significado, do conteúdo, mas igualmente diz respeito a como esse significado se cons-trói, a uma lógica que preside à articulação significante. Nesse sentido, mythos diz respeito tanto a “fábulas fabulo-sas”, mais ou menos carregadas de sentido, quanto a um tipo de linguagem, a uma razão discursiva, ou logos — como, aliás, têm sustentado muitos especialistas, dentre os quais Paul Ricoeur, Jean-Pierre Vernant e Marcel Detienne. Sob essa ótica, podemos desfazer a antinomia “mythos x logos”, ou “fantasia (aí compreendidas a ficção e, até mesmo, a mentira) x razão”, e olharmos o mito como uma “mito-ló-gica”, na expressão de Ricoeur, isto é, como um discurso cujo sentido só poderá advir do exame desse logos, da lógica de sua linguagem.

Como vimos, o mito é um termo múltiplo, ambíguo,

desde sua própria origem na língua grega, prestando-se a