Mito e Psicanálise
14 Ana Vicentini de Azevedo
Mas daí surge uma interrogação: se há no mito uma
inscrição histórica tão marcante, o que tem levado inúme-ros pensadores, fora do âmbito dos estudos helenísticos, a se debruçar sobre o legado mítico da Grécia Antiga? Como pôde Freud, por exemplo, extrair, desse corpus mítico, bases para a fundação da psicanálise nos primórdios do século XX, em plena modernidade? Esse é um ponto polêmico na literatura sobre mito e psicanálise e objeto de crítica a esta última por parte de especialistas em estudos clássicos, an-tropologia, história e crítica literária.
No centro desse debate está a tensão entre o geral e o
particular, entre o coletivo e o individual, entre o universal-mente válido e a particularidade histórica e cultural. Em vez de insistir na dicotomia “universal x particular”, vamos, na esteira da Poética de Aristóteles, situar o mito na interseção entre o universal e o singular, entre a estrutura e sua atuali-zação. Temos em mente, também, o importante trabalho do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que, ciente da impossibilidade de se circunscrever o mito a um único plano discursivo, propõe que o pensemos tal como a lingüís-tica pensa a língua. De acordo com esses estudos, especial-mente os de Ferdinand de Saussure, a linguagem estrutura-se em torno de dois eixos: o da língua, que comporta a dimensão do que é invariável e, portanto, estrutural; e o da fala, domínio da contingência, da atualização pulsante e singular da língua.
Além de permitir superar a dicotomia “universal x
particular” e de situar o mito na confluência do contínuo e do descontínuo, o trabalho seminal de Lévi-Strauss põe em relevo um outro aspecto da linguagem mítica que nos inte-