Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 43
“Isso existe!” Um Édipo que sabe e outro que não, Édipo e seu duplo, vivendo juntos, enigmaticamente ao mesmo tempo, dramatizam uma outra questão que Freud irá mais tarde teorizar. Em sua carta ao escritor Romain Rolland, em homenagem a seu aniversário de 70 anos, publicada com o nome de “Um distúrbio de memória na Acrópole”, em 1936, Freud analisa uma experiência perturbadora que viveu muito antes, em 1904, durante uma visita a Atenas com seu irmão mais novo. Além do entrelaçamento de memória e verdade, temos nesse ensaio traços do fenômeno do duplo e de sua ligação com conteúdos edípicos inconscientes. Vamos, por enquanto, nos deter no primeiro.
O agudo sentido analítico de Freud faz com que ele se
reconheça vendo a Acrópole pela primeira vez e surpreen-dendo-se com sua reação: “Então, isso de fato existe, como aprendi na escola!”. Trinta e dois anos mais tarde, justamen-te nessa correspondência celebratória, ele pôde dar-se conta da estranha experiência. Tal como em Édipo, há dois regis-tros de saber em questão: um conhece muito bem o que foi a Antigüidade clássica, Atenas e a Acrópole, sendo um co-nhecimento da ordem do racional, do intelectual. O outro irrompe inesperadamente, a despeito de sua vontade e de-liberação, mostrando que a realidade do que era tão conhe-cido estava ela mesma posta em questão. Um se surpreende com o outro, confessa Freud, e dessa experiência com o fenômeno do duplo, uma noção cara às elaborações freu-dianas, ele identifica traços fundantes do psiquismo: “Isso de fato existe” dá notícia da existência de um saber que não se sabe, de um saber inconsciente que irrompe na consciên-