Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 37 de 64

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Mito e Psicanálise

48 Ana Vicentini de Azevedo

a tradução de Oidipous Tyrannos. Há na língua grega dois substantivos para rei: basileús e tyrannos. O primeiro diz respeito a quem é rei pela linhagem; o segundo, a quem o é por indicação, por mérito, ou por usurpação. Édipo é um basileús que se acredita tyrannos. Quando o basileús se sabe basileús, ele se torna o mais infeliz dos homens, a encarnação da mácula, que ele tão ferrenhamente tentou purificar. Sob essa ótica, podemos traçar o desenvolvimento da peça no sentido de deslindar esse enigma, de desfazer esse jogo de equívocos montado pela linguagem.

Ainda no título, outro jogo de palavras. Vimos que o

nome de Édipo contém, como prefixo, uma forma verbal (oîda) que se traduz por saber, conhecer. Resta o substantivo pous, que se refere a pés, e que vincula intrinsecamente Édipo à Esfinge. Seu enigma, em grego, traz o nome e a linhagem do herói: “Qual é o ser que ao mesmo tempo é dípous, trípous, tétrapous?”. Ecoando o significante pous, Édipo conflui os prefixos di, tri e tetra no ánthropos, como demonstrei, de maneira detalhada, no artigo “Entre tyche e autômaton: o próprio nome de Édipo”. Ou seja, nessa res-posta aparentemente rápida e certeira, Édipo erra tragica-mente, acertando. Ele erra ao não se reconhecer na própria palavra que pronuncia, ao não se reconhecer no âmago do ánthropos. Ou ainda, ele decifra o enigma, em um plano de leitura e, paradoxalmente, coloca-se ele próprio nesse lugar. Trata-se, como já dissemos, de posições discursivas, de enunciação, e não somente de enunciado. Mais do que decifrar as tramas da linguagem, Édipo Rei nos mostra como o ánthropos é cifrado por ela. De fato, essa peça ensina, e