Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 29 de 64

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Mito e Psicanálise

40 Ana Vicentini de Azevedo

Diferentemente de Dioniso, que buscava o reconheci-

mento de Tebas, acredito que, no diálogo da psicanálise com essa manifestação dionisíaca chamada tragédia, estejamos além do reconhecimento, da pura especularidade e da cap-tura imagética e imaginária da lógica do semelhante, que dilui a opacidade do Outro na reiteração do mesmo. Mesmo que a busca de espelhamento seja inevitável, é provocador termos no horizonte o episódio do primeiro Dioniso e o espelho: enquanto maravilhava-se com sua imagem em um espelho, o deus foi capturado e despedaçado pelos Titãs... São estilhaços, traços, restos que irão informar nossa leitura sobre algumas formas do mito na psicanálise, leitura essa fundada no princípio anunciado pelo provérbio: o isso (o id) tem tudo a ver com Dioniso. Tanto o isso quanto a divindade são forças desconhecidas que nos habitam e nos arrebatam, conforme nos apontou Freud a respeito do isso em “O ego (eu) e o id (isso)”, de 1923.

Traços em Freud. Ernest Jones, psicanalista inglês e biógrafo de Freud, nos conta que, por ocasião do cinqüentenário do mestre vienense, foi-lhe mandado cunhar uma medalha contendo, de um lado, seu retrato em baixo-relevo e, do outro, um desenho grego de Édipo e a Esfinge, contornado pelos versos finais do coro em Édipo Rei: “Aquele que deci-frou o famoso enigma e foi um homem muito poderoso.” Muito comovido, Freud mais tarde confessou a Jones que, na juventude, acalentava o sonho de ter um busto seu na Universidade de Viena, trazendo como inscrição os mesmos versos de Sófocles.