Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 31 de 64

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Mito e Psicanálise

42 Ana Vicentini de Azevedo

pergunta que parece gravitar a exploração freudiana, e é também essa pergunta que nos servirá de báscula para trilharmos algumas das vias de entrada do mito (de Édipo) na psicanálise.

Saberes. Édipo Rei, reconhecidamente, põe em cena uma das mais vigorosas — e trágicas — discussões acerca da questão do saber, como antecipa o próprio nome de Édipo: Oidípous tem, como prefixo, o verbo oîda, que significa saber, conhe-cer. Este renomado conhecedor de segredos tão obscuros como o da Esfinge, o que conhece o humano em suas diferentes temporalidades, paradoxalmente desconhece sua arché, sua origem, seu fundamento. Ou melhor, Édipo co-nhece sua origem de maneira equivocada, dado que ele se crê filho de Pólibo e Mérope. Não se trata, portanto, sim-plesmente de conhecer e desconhecer, mas de méconnaître, de conhecer tortuosamente, como diz o verbo francês. Édi-po encarna essa dialética de saberes, que o sábio Tirésias, por exemplo, sublinha quando censura Édipo por este lhe fazer acusações sobre seu caráter, e ele desconhece a si próprio: “[acusas], sem ter visto o que é teu e vive contigo.”

Édipo desconhece, méconnaît, sua história, ao mesmo tempo em que a põe em cena. Essa é uma vertente impor-tante da questão do saber inconsciente para a psicanálise: é justamente essa dimensão de uma história censurada, es-quecida, recalcada, excluída da consciência do sujeito, mas que, todavia, é determinante de seus atos que dá contornos característicos ao que chamamos de inconsciente.