Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 56 de 64

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Mito e psicanálise 67

Jocasta, antes de Freud, já indicava. Assim, a peça põe em cena, para a psicanálise, dispositivos de funcionamento des-se discurso do Outro e da posição do sujeito face a esse discurso, assujeitado a ele no exato momento em que se crê negando-o.

O mito de Édipo é uma lupa, e cai como uma luva para

Freud no sentido de revelar a estrutura que perfaz esse ánthropos. Este, tal como Oidípous, é tecido pela linguagem, é ser de linguagem. Nas tramas dela, ele tem que ser mascu-lino ou feminino, ou seja, castrado, incompleto, assujeitado à lei maior dessa gramática simbólica: a do tabu do incesto, lei também fundante da cultura, o que torna possível con-fluir, na visada lacaniana, linguagem e cultura.

Ponto cego. O mito de Édipo permite a Freud interrogar, perscrutar esse ponto cego que é a passagem da natureza para a cultura, essa fronteira que Lévi-Strauss nomeou como um “entre o cru e o cozido”, essa origem da qual só se pode falar através do mito. Um mito que se constrói sobre outro mito, montando um mítico círculo vicioso, sem dú-vida. Mas, novamente Guimarães Rosa nos ensina: o mito é esta malha tecida para capturar o indizível.

Talvez seja por essa imbricação mítica que Lacan nos

tenha advertido de que o complexo de Édipo é o sonho de Freud, o qual nos cabe interpretar, isto é, desfazer a circula-ridade, buscar outras formas discursivas para fazer avançar o conceito, a teoria. Esse foi o intento de Lacan ao lapidar o conceito de metáfora paterna, e o que tem sido feito por seus seguidores, de maneira mais modesta, dando testemunho