Mito e Psicanálise
Páginas iniciais
8 Ana Vicentini de Azevedo
A oposição do mito à verdade, ao conhecimento cien-
tífico, à episteme, não é privilégio, ou equívoco, somente desse jornal. É comum ouvirmos a expressão: “Ah, isso é um mito”, quando o ouvinte quer pôr em questão a autentici-dade de um fato que lhe é relatado.
Essa oposição, seja na mídia ou no senso comum,
tampouco é característica de nossos dias ou de nossa cultu-ra. No filosófico século IV a.C., na Grécia, temos Platão reprovando as fábulas (mythoi, em grego), os relatos fanta-siosos de Homero, de Hesíodo e de outros poetas na defesa do discurso racional, filosófico e, portanto, mais verdadeiro que estava em construção. Nessa construção, o mythos dos poetas é investido de características como falso (psêudos), ruim ou nocivo (kakós), em oposição à desejável verdade (alethê). Em face desses atributos e, justamente, com o intuito de corrigi-los, se erguerá o discurso filosófico.
Diferentemente dessa oposição dicotômica, presente
tanto na filosofia clássica quanto no senso comum de hoje, a psicanálise, desde seus primórdios, sempre trabalhou no sentido de pôr tal oposição em questão. Já na obra fundante do método psicanalítico, A interpretação dos sonhos (1900), o mito figura como uma fonte ímpar de reflexão e inspira-ção para Sigmund Freud elaborar suas teorias acerca do funcionamento psíquico. O que há nesse tipo de linguagem que chamamos “mito”, que a torna objeto de polêmica, por exemplo, na República de Platão e, por outro lado, é objeto de fascínio para a psicanálise?
Neste trabalho vamos procurar percorrer algumas vias
que possibilitem ao leitor elaborar suas próprias respostas