Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 37
tam que esse dito significava uma intensa desaprovação pelo que era apresentado à platéia; outros sugerem aí uma aguda ironia contra as mudanças levadas a efeito nas representa-ções teatrais, vistas como se afastando, em muito, dos mitos sobre o deus Dioniso.
Podemos ecoar o provérbio ateniense, retirando-lhe
seu caráter de crítica ou censura, e perguntar, primeiramen-te: “O que isso tem a ver com Dioniso?”. Divindade comple-xa, múltipla, contraditória, Dioniso recebe, em Atenas, manifestações díspares como a tragédia, o drama satírico e a comédia, além dos cantos de ditirambo, isto é, cantos corais em seu louvor. Teatral por excelência, essa divindade encarna um jogo dialético que nos interessa de perto: ele é grego e estrangeiro, arcaico e novo, civilizado e selvagem, masculino e feminino, introduzindo o extático na previsi-bilidade cotidiana, como nos mostra Eurípides em As Ba-cantes (c. 405 a.C.), sua última tragédia. Em suma, na más-cara teatral que vela e desvela, Dioniso pode ser visto como a figuração de uma tensão que está no cerne do pensamento grego e que é basal à psicanálise — a relação entre o mesmo e o outro, entre o estranho e o familiar, entre o que é recalcado e o que se mostra.
Em face desses atributos, podemos voltar ao provérbio
ateniense e, atentando para o movimento quiásmico que temos seguido aqui, inverter os termos da pergunta “O que tem Dioniso a ver com isso?”, ou seja, com a psicanálise? Os provérbios, tanto na ótica da psicanálise quanto da etimo-logia, dizem respeito a uma palavra, a um discurso que vem de outro. Podemos situar Dioniso em uma posição análoga