Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 8 de 64

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Mito e psicanálise 19

— e filiação, isto é, linhagem, história, é fundamental a ela. Em um pequeno ensaio de 1910, “O sentido antitético das palavras primitivas”, encontramos, de forma concisa e cui-dadosa, a questão da lógica dos contrários. A “via régia do inconsciente”, qual seja, a linguagem do sonho, caracteriza-se por ignorar as oposições, por empreender uma combina-ção dos contrários em torno de um único elemento (hoje diríamos significante, com Lacan) ou por representá-los como uma mesma coisa.

A fim de comprovar essa idéia, já amplamente traba-

lhada dez anos antes na Interpretação dos sonhos, Freud busca suporte no trabalho do filólogo alemão Karl Abel para mostrar como o trabalho do sonho estrutura-se de maneira idêntica às linguagens mais arcaicas. Em egípcio antigo, mostra Abel, mais do que a coalescência de sentidos antité-ticos em um mesmo vocábulo, tem-se palavras compostas por dois termos antitéticos que comportam somente um dos sentidos deles.

Algumas das descobertas de Abel foram questionadas

por filólogos posteriores, conforme nos apontam os edito-res da Standard Edition das obras de Freud. No entanto, é importante sublinhar que o interesse do psicanalista não recaía sobre os dados filológicos, mas sobre a estrutura da linguagem que há anos ele vinha deslindando em suas elaborações sobre o funcionamento do aparelho psíquico, notadamente do inconsciente. (Note-se a esse respeito que Freud não teve acesso aos revolucionários estudos lingüís-ticos de Saussure.) Foi devida a essa solidariedade estrutu-ral, antecipada por Freud, que Lacan pôde afirmar que “o