Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 5 de 64

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Mito e Psicanálise

16 Ana Vicentini de Azevedo

sujeito no mundo, da (sua) história. Disso se ocupam os mitos e a psicanálise enquanto prática clínica. É significativo lembrar, nesse sentido, que clínica vem do verbo grego klíno, deitar, reclinar — posição privilegiada para o nascimento, a doença, o sexo, a morte, o sonho e o devaneio, experiên-cias que encontram no divã psicanalítico seu signo emble-mático.

Deitar-se para relembrar, para rememorar o que não

pode ser esquecido. Mais uma vez, o antigo grego traz novas luzes, olhares: ao que não se esquece, dá-se o nome de alétheia, também traduzido por “verdade”. É dessa verdade que se ocupam o mito e a psicanálise. Retendo nossa atenção ao primeiro, vamos seguir a trilha que esboçamos acima (a de que o mito é uma linguagem) e prestar atenção à língua que constrói esse corpus complexo que denominamos mi-tologia grega.

Antes disso, uma ressalva de percurso, de método:

método, etimologicamente, diz respeito a caminho. Esta-mos aqui circunscrevendo ainda mais nosso foco de discus-são: na relação mito e psicanálise, estamos privilegiando a mitologia grega, ainda que esta seja, como sustentam vários especialistas, mais pobre, se comparada, por exemplo, a tradições míticas da Ásia, da África e das Américas. Ao contrário destas, da Grécia temos apenas parcos fragmentos e comentários tardios, o que sempre haverá de nos deixar, enquanto leitores e intérpretes, em posição tateante.

A eleição da Grécia recai, primeiramente, por sua força

de atração sobre Freud em sua construção da psicanálise (alguns dos elementos desse campo de força é o que trata-mos aqui de apontar). Em segundo lugar, e também em