Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 25
século IV a.C., no Fedro, de Platão, onde Sócrates censura a escrita como nociva à memória.
O relato, a palavra mito-poética, somente pode dar-se
em presença no aqui e agora. Se, por um lado, Memória é pura presença, e exige a presença de alguém que fale/cante e de alguém que ouça, por outro, seu olhar se volta para o passado, para o que foi, na visada do que será. “Pelas Musas comecemos, elas a Zeus pai / hineando alegram o grande espírito no Olimpo / dizendo o presente, o futuro e o passado...”, dizem os versos 36-38 da Teogonia.
Temos aqui um alargamento do espectro do cantar das
Musas e, em última instância, da Memória. Além de falar de presente e passado, elas também têm acesso ao invisível, ao devir, atributo marcante de outro desdobramento impor-tante de Verdade, de revelação: a vidência. A palavra mito-poética constrói-se, então, no diapasão “do ser e do tempo”, ou melhor, do ser no tempo, do que é, do que foi e do vir-a-ser. Na tensão entre o silêncio da morte, do esqueci-mento e a fulgurante presença da revelação, orienta-se a palavra das Musas em torno do ser e de seus contornos.
Na visão de Hesíodo, além de reiterar a confluência da
atividade poética — orientada para o passado — com a do adivinho, cujo olhar revelador lança-se para o futuro, im-porta-nos aqui pôr em relevo a imbricação dos três tempos promovida pelas filhas de Memória. Sob sua égide, o passa-do pode transitar pelo presente, tornar-se presente; o futuro pode atualizar-se e reconfigurar o passado; e o presente projeta-se tanto no incognoscível devir quanto no passado cambiante.