Mito e Psicanálise
38 Ana Vicentini de Azevedo
à do provérbio na medida em que o deus também traz um discurso que vem do outro. A fim de revelar a si e aos outros, ele irrompe na Tebas civilizada e racional, arrebatando-a de sua “mesmice” com sua estranheza, com as várias peças que prega e encena, em um jogo delirante entre ficção e realidade.
Essa divindade que encarna a figura do Outro no pan-
teão grego, conforme demonstra J.-P. Vernant em A morte nos olhos, traz sua paradoxal potência também para a psica-nálise. Proponho que tomemos Dioniso, especificamente uma de suas manifestações — a tragédia — em seu matiz proverbial, ou seja, como um discurso do Outro no que concerne às elaborações de Freud e de seus seguidores. Nesse sentido, é importante frisar que o discurso do Outro é justamente uma das mais contundentes definições de Lacan acerca do que constitui o cerne da disciplina freudia-na: o inconsciente.
Para pensarmos “o que Dioniso tem a ver com a psica-
nálise”, vamos focalizar uma das manifestações dionisíacas que tanto atraiu e tem atraído os psicanalistas: Édipo Rei, de Sófocles, apresentada no festival em louvor a Dioniso (As Grandes Dionisíacas), por volta de 430 a.C. Desde já subli-nhamos que Freud encontra em Édipo Rei uma rica fonte para a elaboração da teoria psicanalítica, fonte que vai além do complexo de Édipo e diz respeito à própria fundação do discurso analítico, como veremos a seguir.
A presença desse mito na psicanálise, especialmente
Édipo Rei, mas também Édipo em Colono, deve ser vista sob a ótica de uma via de mão dupla, como uma contaminação