O Castelo de Vidro
— Você gosta sempre
— Deus sabe o que está fazendo. Ele me deu algumas crianças perfeitas e também me deu uma que não era tão perfeita, então Ele disse: “Opa, melhor pegar esta de volta”.
Papai, porém, não falava sobre Mary Charlene. Se o nome dela surgia, seu rosto se enrijecia e ele saía da sala. Fora ele quem encontrara o corpo no berço, e mamãe não conseguia acreditar em como aquilo o abalara.
— Quando ele a encontrou, ficou parado ali como se estivesse em choque ou algo assim, embalando seu corpinho rígido nos braços, e depois berrou como um animal ferido — ela nos contou. — Eu nunca ouvi um som tão horrível.
Mamãe disse que papai nunca mais foi o mesmo depois que Mary Charlene morreu. Começou a ficar soturno, permanecendo fora até tarde, vindo para casa bêbado e perdendo empregos. Um dia, logo depois de Brian ter nascido, estávamos sem dinheiro, então papai empenhou a grande aliança de diamante de mamãe, que a mãe dela havia comprado, e isso aborreceu mamãe. Depois disso, sempre que mamãe e papai tinham uma briga, mamãe falava da aliança, e papai lhe pedia que parasse de resmungar. Ele dizia que iria dar a ela uma aliança ainda mais bonita que aquela que empenhara. Por isso, tinha de encontrar ouro. Para dar a mamãe uma aliança nova. Por isso e para podermos construir o Castelo de Vidro.
— VOCÊ GOSTA DE ESTAR SEMPRE se mudando? — Lori me perguntou.
— Claro que sim! — respondi. — Você, não?
— Claro — falou.
Era final de tarde, e estávamos estacionados diante de um bar no deserto de Nevada. Chamava-se Bar de Ninguém. Eu tinha quatro anos, e Lori, sete. Estávamos a caminho de Las Vegas. Papai decidira que seria mais fácil, como disse, acumular o capital necessário para financiar o Prospector se fosse aos cassinos por algum tempo. Estávamos dirigindo havia horas quando ele viu o Bar de Ninguém, estacionou o Vagão Verde — o Ganso Azul morrera, e tínhamos outro carro, uma perua que papai batizara de Vagão Verde — e anunciou que ia entrar e beber alguma coisa. Mamãe passou batom vermelho e se juntou a ele, embora não bebesse nada mais forte que chá. Estavam lá dentro havia horas.
O sol estava alto no céu, e não havia o menor sinal de brisa. Nada se movia além de uns abutres ao lado da estrada, bicando uma carcaça irreconhecível. Brian lia uma revista em quadrinhos amassada.
— Em quantos lugares nós já moramos? — perguntei a Lori.
— Isso depende do que você quer dizer com “morar” — respondeu. — Se você passa uma noite em uma cidade, você morou nela? E quanto a duas noites? Ou uma semana inteira?
Eu pensei.
— Se você desembala todas as suas coisas — respondi.
Nós contamos onze lugares onde tínhamos morado, depois nos perdemos. Não conseguíamos lembrar os nomes de algumas das cidades ou como eram as casas onde havíamos morado. Eu me lembrava principalmente do interior dos carros.
— O que você acha que aconteceria se não estivéssemos sempre nos mudando? — perguntei.
— Seríamos apanhados — respondeu Lori.
QUANDO MAMÃE E PAPAI saíram do Bar de Ninguém trouxeram, para cada um de nós, um pedaço comprido de carne-seca e uma barra de chocolate. Eu comi primeiro a carne e, quando desembrulhei meu Mounds, ele derretera e se tornara uma gosma marrom grudenta, e decidi guardar para a noite, quando o frio do deserto o endureceria novamente.
Nesse momento, havíamos passado pela cidadezinha depois do Bar de Ninguém. Papai dirigia e fumava com uma das mãos e segurava uma garrafa marrom de cerveja com a outra. Lori estava no banco da frente entre ele e mamãe, e Brian, que estava atrás comigo, tentava trocar metade do seu chocolate 3
Musketeers por metade do meu Mounds. No momento em que fizemos uma curva fechada sobre trilhos de trem, a porta se abriu e eu caí do carro.
Rolei muitos metros pela elevação e, quando parei, estava chocada demais para chorar, sem fôlego e com terra e cascalho nos olhos e na boca. Levantei a cabeça a tempo de ver o Vagão Verde ficar cada vez menor e depois desaparecer em uma curva.
Sangue escorria pela minha testa e do meu nariz. Meus joelhos e cotovelos estavam esfolados e cobertos de areia. Eu ainda segurava a barra de Mounds, mas a esmagara na queda, rasgando o embrulho e espremendo para fora o recheio branco de coco, que também estava coberto de terra.
Assim que recuperei o fôlego, engatinhei pela elevação dos trilhos até a estrada e me sentei para esperar a volta de mamãe e papai. Meu corpo todo parecia doer. O sol, parecendo pequeno e branco, queimava. Começara um vento, e ele empurrava a poeira na estrada. Esperei pelo que pareceu um longo tempo antes de decidir que era possível que mamãe e papai não voltassem para me buscar. Poderiam não
perceber que eu sumira. Poderiam decidir que não valia a pena a viagem de volta para me resgatar; que, como o gato Quixote, eu era uma chateação e um fardo de que não precisavam.
A cidadezinha atrás de mim estava silenciosa, e não havia outros carros na estrada. Comecei a chorar, mas isso só me fez sentir mais dor. Levantei e comecei a caminhar de volta às casas, depois decidi que se mamãe e papai voltassem para me pegar não conseguiriam me encontrar, então voltei aos trilhos da estrada de ferro e me sentei novamente.