O Castelo de Vidro
Certo dia, enquanto
— Temos de fazer alguma coisa sobre o caso da varanda — eu disse a mamãe. — Está ficando muito perigoso ir ao banheiro à noite.
Ademais, o banheiro sob a casa estava inutilizável. Ele transbordara, e era melhor cavar um buraco em algum ponto da colina.
— Você está certa — respondeu mamãe. — Algo tem de ser feito.
Ela comprou um balde. Era de plástico amarelo e o deixávamos no chão da cozinha, e era o que usávamos sempre que tínhamos de ir ao banheiro. Quando enchia, alguma alma corajosa o levava para fora, cavava um buraco e o esvaziava.
CERTO DIA, ENQUANTO Brian e eu vasculhávamos nos limites de nossa propriedade, ele levantou um pedaço de madeira podre, e entre tatuzinhos e minhocas havia um anel de diamante. A pedra era grande. A princípio, achamos que era puro lixo, mas o limpamos com cuspe e raspamos vidro com ele, como papai nos mostrara, e pareceu real. Imaginamos que devia ter pertencido à velha senhora que morara ali. Ela morrera antes de nos mudarmos. Todos diziam que era meio doida.
— Quanto acha que vale? — perguntei a Brian.
— Provavelmente mais que a casa.
Imaginei que poderíamos vender e comprar comida, quitar a casa — mamãe e papai estavam sempre se esquecendo dos pagamentos mensais e já se falava que iríamos ser despejados — e talvez ainda sobrasse o suficiente para algo especial, como um novo par de tênis para cada um de nós.
Levamos o anel para casa e o mostramos a mamãe. Ela o ergueu à luz e disse que precisávamos mandar avaliar. No dia seguinte, pegou o ônibus na rodoviária Trailways para Bluefield. Na volta, confirmou que era um legítimo diamante de dois quilates.
— E quanto vale? — perguntei.
— Isso não importa — disse mamãe.
— Como não?
— Porque não vamos vender.
Ela ia ficar com ele, explicou, para substituir a aliança que sua mãe lhe dera e papai empenhara pouco depois do casamento.
— Mas, mamãe, aquele anel podia garantir muita comida para nós — falei.
— É verdade, mas podia melhorar minha autoestima. E, em momentos como este, autoestima é ainda mais vital que comida.
A AUTOESTIMA DE MAMÃE precisava mesmo de algum apoio. Às vezes, as coisas acabavam com ela.
Ela se recolhia ao sofá-cama e permanecia ali dias seguidos, de vez em quando jogando coisas sobre nós.
Poderia ser uma artista famosa se não tivesse tido filhos, gritava, e nenhum de nós valorizava seu sacrifício. No dia seguinte, se o ataque tivesse passado, estava pintando e cantarolando como se nada tivesse acontecido.
Certa manhã de sábado, pouco tempo depois de mamãe ter começado a usar o novo anel de diamante, seu humor estava bom, e ela decidiu que iríamos limpar a casa. Achei uma ótima ideia. Disse a mamãe que devíamos esvaziar cada aposento, limpá-lo por inteiro e devolver apenas as coisas que fossem essenciais. A mim parecia que essa era a melhor maneira de se livrar do amontoado. Mas mamãe disse que minha ideia consumia tempo demais, então tudo o que acabamos fazendo foi arrumar as pilhas de papel e enfiar as roupas sujas no gaveteiro. Mamãe insistiu que recitássemos ave-marias enquanto trabalhávamos.
— É um modo de limpar nossa alma enquanto limpamos a casa. Estamos matando dois coelhos com uma cajadada só.
A razão de se tornar um pouco instável, disse mais tarde naquele dia, era não fazer exercício suficiente.
— Vou começar calistenia — anunciou. — Assim que sua circulação melhora, muda toda a sua postura de vida — disse, inclinando-se e tocando os dedos dos pés.
Quando levantou, disse que já estava se sentindo melhor, e se curvou para outro toque. Acompanhei tudo da escrivaninha com os braços cruzados sobre o peito. Eu sabia que o problema não era termos
circulação ruim. Não precisávamos começar a tocar os dedos dos pés. Precisávamos de medidas drásticas.
Eu tinha doze anos e estivera analisando nossas opções, fazendo pesquisas na biblioteca pública e coletando fragmentos de informação sobre como outras famílias da rua Lit le Hobart sobreviviam.
Concebera um plano e esperava uma oportunidade de apresentá-lo a mamãe. O momento parecia ser aquele.— Mamãe, não podemos continuar vivendo assim — falei.
— Não é tão ruim — falou. Entre cada toque nos dedos, ela se esticava para o alto.
— Não tivemos nada para comer a não ser pipoca em três dias — argumentei.
— Você é sempre tão negativa! Lembra a minha mãe: críticas, críticas, críticas.
— Não estou sendo negativa. Estou tentando ser realista.
— Estou fazendo o melhor que posso nessas circunstâncias — disse ela. — Como você nunca culpa seu pai por nada? Ele não é um santo, você sabe.
— Eu sei — respondi. Corri um dedo pela beirada da escrivaninha. Papai sempre colocara seus cigarros ali, e o lugar ficara marcado por queimaduras de cigarro enfileiradas, como uma borda decorativa. — Mamãe, você tem de deixar papai.
Ela parou de tocar os dedos do pé.
— Não posso acreditar que você tenha dito isso. Não posso acreditar que você, de todas as pessoas, ficaria contra seu pai — falou. Eu era a maior defensora de papai, ela continuou, a única que fingia acreditar em todas as suas desculpas e histórias e a ter fé em seus planos para o futuro. — Ele ama você demais. Como pode fazer isso com ele?
— Eu não culpo papai — disse. E era verdade. Mas papai parecia determinado a se destruir, e eu tinha medo de que levasse todos nós com ele. — Precisamos ir embora.
— Mas não posso deixar seu pai! — falou.
Contei a mamãe que se ela deixasse papai poderia receber ajuda do governo, o que não acontecia no momento por ter um marido capaz. Algumas pessoas na escola — para não falar em metade das pessoas da rua Lit le Hobart — viviam do bem-estar social, e não era tão ruim. Eu sabia que mamãe era contra qualquer tipo de ajuda, mas aqueles garotos recebiam cupons de comida e verba para roupas. O Estado comprava carvão para eles e pagava o almoço na escola.
Mamãe não quis sequer ouvir. Disse que a ajuda do governo causaria danos psicológicos irreparáveis em nós.
— Você pode sentir fome de vez em quando, mas assim que come sente-se bem. E pode sentir frio por algum tempo, mas sempre se aquece. Tão logo comece a receber ajuda do governo, isso mudará você.