O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 31 de 71

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O Castelo de Vidro

O dia seguinte era

— O que é isso? — perguntou Lori.

— Talvez as baratas aqui sejam maiores que em Phoenix — disse Brian.

Todos rimos, e ouvimos o tuc, tuc, tuc de novo. Mamãe subiu para investigar, depois voltou e explicou que Erma estava batendo no chão com o cabo de um esfregão para indicar que fazíamos barulho demais.

— Ela pediu que vocês não riam enquanto estiverem na casa dela — disse mamãe. — Isso faz mal aos nervos dela.

— Acho que Erma não gosta muito de nós — eu disse.

— Ela é apenas uma mulher velha que teve uma vida dura — disse mamãe.

— Eles todos são meio esquisitos — falou Lori.

— Vamos nos adaptar — disse mamãe.

Ou nos mudar, pensei.

O DIA SEGUINTE ERA um domingo. Quando levantamos, tio Stanley estava apoiado na geladeira, ouvindo rádio com atenção. Ele fazia barulhos estranhos; não estáticos, mas uma combinação de gritos e lamentos.

— Há línguas — disse ele — que só o Senhor consegue entender.

O pregador começou a falar em inglês, mais ou menos. Falava com um sotaque caipira tão denso que era quase tão difícil entender quanto as línguas. Pedia a todas as pessoas boas que estivessem ouvindo, e haviam sido ajudadas por essa canalização do espírito do Senhor, que enviassem contribuições. Papai entrou na cozinha e escutou.

— É o tipo de vodu destruidor da alma que me transformou em ateu — disse ele.

Mais tarde, entramos no Oldsmobile, e mamãe e papai nos levaram para conhecer a cidade. Welch era cercada de todos os lados por montanhas tão íngremes que senti como se estivesse olhando para elas do fundo de uma tigela. Papai disse que as montanhas ao redor de Welch eram íngremes demais para cultivar qualquer coisa. Não era possível criar um rebanho decente de ovelhas ou bois nem plantar nada, a não ser talvez para alimentar a família. Aquela parte do mundo foi basicamente deixada em paz até a virada do século, quando magnatas ladrões do norte chegaram à região e levaram mão de obra barata para cavar os enormes campos de carvão.

Paramos sob uma ponte de ferrovia e saltamos do carro para admirar o rio que corria pela cidade.

Ele se movia lentamente, quase sem marola. O nome do rio, disse papai, era Tug.

— Talvez no verão possamos pescar e nadar — falei.

Papai balançou a cabeça. Contou que o município não tinha rede de esgoto, quando as pessoas davam descarga, tudo ia diretamente para o Tug. Às vezes, o rio subia e a água chegava até o topo das árvores. Papai apontou para o papel higiênico no alto dos galhos ao longo das margens do rio. O Tug, contou, tinha o maior nível de coliformes fecais entre todos os rios da América do Norte.

— O que é fecal? — perguntei.

Papai olhou para o rio.

— Merda — respondeu.

Papai nos levou pela rua principal da cidade. Era estreita, com velhos prédios de alvenaria apertados dos dois lados. Lojas, sinais, calçadas, carros eram todos cobertos com uma camada de poeira negra de carvão, dando à cidade um tom quase monocromático, como uma velha fotografia colorida à mão. Welch era dilapidada e decadente, mas era possível dizer que um dia fora um lugar próspero. Em uma colina se erguia um grande tribunal de calcário com uma grande torre do relógio. Em frente a ele ficava um banco elegante com janelas em arco e uma porta de ferro forjado.

Também se podia dizer que as pessoas em Welch ainda tentavam sustentar algum orgulho pelo lugar. Uma placa perto do único sinal da cidade anunciava que Welch era a sede do município de McDowel e que por anos havia sido retirado mais carvão de McDowel que de qualquer outro lugar comparável no mundo. Ao lado dela, outra placa se vangloriava de que Welch tinha o maior estacionamento aberto municipal da América do Norte.

Os anúncios alegres pintados nas laterais de prédios, como o restaurante Tic Toc e o cinema Pocahontas, estavam, porém, desbotados e quase ilegíveis. Papai disse que os tempos ruins começaram nos anos 1950. Chegaram com força e ficaram. O presidente John F. Kennedy fora a Welch pouco depois de eleito e distribuíra pessoalmente os primeiros cupons de alimentação bem ali na rua McDowel para provar sua tese de que — embora o americano médio pudesse achar difícil acreditar — havia pobreza no nível de fome em seu próprio país.

Papai nos contou que a estrada que cortava Welch levava apenas mais para dentro das montanhas úmidas e inóspitas e a outras cidades carvoeiras moribundas. Poucos estrangeiros passavam por Welch naqueles dias, e quase todos os que o faziam era para infligir um tipo ou outro de infelicidade — demitir trabalhadores, fechar uma mina, tomar a casa de alguém, disputar uma rara vaga de emprego. As pessoas da cidade não tinham muito afeto por gente de fora.