O Castelo de Vidro
Tão logo mamãe começou
Lori entendia mamãe melhor que qualquer um. Não se incomodava que, no momento em que a srta.
Beat y aparecia para observar a turma de mamãe, ela começasse a gritar com Lori para provar à srta. Beat y que era capaz de disciplinar os alunos. Uma vez mamãe chegou a ponto de chamar Lori para a frente, onde a puniu com uma palmatória.
— Você estava fazendo bagunça? — perguntei a Lori quando soube da surra.
— Não — respondeu ela.
— E por que mamãe lhe bateu com a palmatória?
— Ela tinha de punir alguém e não queria perturbar os outros garotos — respondeu Lori.
TÃO LOGO MAMÃE COMEÇOU a dar aulas, achei que poderíamos conseguir comprar roupas novas, almoçar no refeitório ou mesmo ter extras legais, como as fotos de turma que a escola tirava todos os anos. Mamãe e papai nunca haviam podido comprar as fotos de turma para nós, embora uma vez mamãe tivesse em segredo tirado uma foto do pacote antes de devolver. Apesar do salário de mamãe, não compramos as fotos de turma naquele ano — tampouco as roubamos —, mas isso provavelmente foi bom. Mamãe havia lido em algum lugar que maionese era bom para os cabelos e, na manhã em que o fotógrafo iria à escola, colocou algumas colheradas no meu. Não se deu conta, entretanto, de que deveria lavar a maionese, e na fotografia daquele ano eu olhava por debaixo dos cabelos, que mais pareciam uma telha rígida.
Mesmo assim as coisas melhoraram. Embora papai tivesse sido demitido da mina de barita, conseguimos continuar a morar no depósito pagando o aluguel à mineradora, já que não havia muitas famílias de olho no lugar. Agora tínhamos comida na geladeira, pelo menos até chegar o final do mês, quando normalmente ficávamos sem dinheiro, porque nem mamãe, nem papai dominavam a arte do orçamento.
O salário de mamãe, porém, criou um novo conjunto de problemas. Embora papai gostasse de mamãe levar um cheque para casa, ele se considerava o chefe de família e insistia que o dinheiro lhe fosse entregue. Era sua responsabilidade, dizia, cuidar das finanças da família. E ele precisava de dinheiro para financiar sua pesquisa de lixiviação de ouro.
— A única pesquisa que você está fazendo é sobre a capacidade do fígado de absorver álcool —
disse mamãe.
Ainda assim, ela achava difícil desafiar papai abertamente. Por alguma razão, não sabia dizer “não” a ele. Se tentasse, ele argumentava, bajulava, se ressentia, atormentava e simplesmente a vencia pelo cansaço.
E ela apelava para táticas evasivas. Dizia a papai que ainda não trocara o cheque, ou fingia tê-lo deixado na escola e o escondia até conseguir ir ao banco. Depois fingia ter perdido todo o dinheiro.
Logo papai passou a aparecer na escola no dia do pagamento, esperando no carro do lado de fora e nos levando direto a Winnemucca, onde ficava o banco, para que mamãe pudesse sacar o cheque imediatamente. Papai insistia em acompanhar mamãe até o banco. Mamãe fazia com que fôssemos junto para que pudesse tentar nos passar parte do dinheiro. De volta ao carro, papai revirava a bolsa de mamãe e pegava o dinheiro.
Em uma viagem, mamãe foi sozinha ao banco porque papai não conseguiu encontrar uma vaga para estacionar. Quando saiu, estava sem uma das meias.
— Jeannet e, vou lhe dar uma meia e quero que a guarde em um lugar seguro — disse assim que entrou no carro. Piscou para mim enquanto enfiava a mão no sutiã e tirava a outra meia, amarrada no meio e cheia nos dedos. — Esconda onde ninguém possa pegar, porque você sabe como as meias podem sumir em nossa casa.
— Que diabos, Rose Mary! — cortou papai. — Você acha que eu sou um maldito idiota?
— O quê? — perguntou mamãe, lançando os braços no ar. — Não posso dar uma meia à minha filha?Ela piscou novamente para mim, só para o caso de eu não ter entendido.
De volta a Bat le Mountain, papai insistiu que fôssemos ao clube da Coruja celebrar o pagamento e pediu filés para todos. O gosto era tão bom que esquecemos estar comendo uma semana de compras.
— Ei, Cabra-Montesa — disse papai ao final do jantar, enquanto mamãe colocava na bolsa as migalhas da mesa. — Por que não me empresta aquela meia um segundo?
Olhei ao redor da mesa. Ninguém me olhou nos olhos além de papai, que sorria como um crocodilo. Entreguei a meia. Mamãe deu um sorriso dramático de derrota e baixou a cabeça em direção à mesa. Para mostrar quem estava no comando, papai deixou uma gorjeta de dez dólares para a garçonete, mas ao sair mamãe a enfiou na bolsa.
LOGO FICAMOS NOVAMENTE sem dinheiro. Quando papai deixou Brian e eu na escola, percebeu que não levávamos sacos de merenda.
— Onde está sua merenda? — papai nos perguntou.
Olhamos um para o outro e demos de ombros.
— Não tem comida em casa — disse Brian.
Quando papai ouviu isso, reagiu ultrajado, como se soubesse pela primeira vez que os filhos passavam fome.
— Diabos, essa Rose Mary continua a gastar dinheiro em material de arte! — murmurou, fingindo falar sozinho. Depois declarou mais alto: — Nenhum filho meu vai passar fome!
Após nos deixar, chamou:
— Não se preocupem com nada, crianças.
Na hora do almoço, Brian e eu nos sentamos no refeitório. Eu fingia ajudá-lo com o dever de casa para que ninguém perguntasse por que não comíamos, quando papai apareceu à porta com um grande saco de compras. Eu o vi examinando o lugar, procurando por nós.
— Meus filhos se esqueceram de trazer a merenda para a escola hoje — anunciou à professora de plantão no refeitório enquanto seguia em nossa direção.
Ele colocou o saco na mesa diante de Brian e de mim e tirou um pão de fôrma, um pacote inteiro de mortadela, um pote de maionese, meio galão de suco de laranja, duas maçãs, um pote de picles e dois doces.— Já deixei vocês na mão? — perguntou a Brian e a mim antes de dar meia-volta e ir embora.
Em uma voz tão baixa que papai não o ouviu, Brian disse:
— Sim.
— PAPAI TEM DE começar a contribuir — disse Lori olhando para a geladeira vazia.
— Ele colabora! — eu disse. — Traz dinheiro de biscates.
— Ele gasta em álcool mais do que ganha — disse Brian. Ele estava lascando madeira, as raspas caindo no chão em frente à cozinha onde estávamos. Brian começara a andar com um canivete o tempo todo e, com frequência, tirava lascas de madeira descartada enquanto pensava em algo.
— Não é tudo em álcool! — protestei. — A maior parte é para pesquisa em lixiviação por cianeto.
— Papai não precisa pesquisar lixiviação — disse Brian. — Ele é um especialista.
Ele e Lori caíram na gargalhada. Olhei feio para eles. Eu sabia mais do que eles sobre a situação de papai, porque ele falava mais comigo que com qualquer outro na família. Nós ainda íamos caçar o Demônio juntos no deserto, pelos velhos tempos, já que eu tinha sete anos e estava crescida demais para acreditar em demônios. Papai me contou todos os seus planos e me mostrou páginas de gráficos, cálculos, mapas geológicos representando as camadas de sedimento onde o ouro estava enterrado.
Disse que eu era a filha preferida, mas me fez prometer não contar a Lori, Brian ou Maureen. Era
nosso segredo.
— Eu juro, querida, há momentos em que acho que você é a única que ainda confia em mim —
falou. — Não sei o que faria se um dia você perder isso.
Falei que nunca perderia a confiança nele. E prometi isso a mim mesma.
ALGUNS MESES DEPOIS de mamãe ter começado a trabalhar como professora, Brian e eu passamos pela Lanterna Verde. As nuvens acima do sol que se punha estavam tingidas de escarlate e roxo. A temperatura caía rapidamente, de um calor calcinante a frio em questão de minutos, como sempre acontecia no deserto no crepúsculo. Uma mulher com um xale de franjas sobre os ombros fumava um cigarro na varanda da frente de casa. Ela acenou para Brian, mas ele não respondeu.
— U-hu! Brian, sou eu, querido! Ginger! — gritou ela.
Brian a ignorou.
— Quem é essa? — perguntei.
— Uma amiga do papai — disse. — Ela é idiota.
— Por que idiota?
— Ela nem sequer conhece todas as palavras na revista em quadrinhos Sad Sack.
Ele me contou que papai o levara para passear no aniversário algum tempo antes. Na mercearia, papai deixou Brian escolher qualquer presente que quisesse, e Brian escolheu uma revista Sad Sack.
Depois, eles foram ao hotel Nevada, que ficava perto do clube da Coruja e tinha uma placa do lado de fora dizendo BAR GRILL, LIMPO E MODERNO. Eles jantaram lá com Ginger, que ficou rindo e falando bem alto e tocando papai e Brian. Os três subiram a escada para um dos quartos do hotel. Era uma suíte, com uma pequena sala na frente e um quarto. Papai e Ginger foram para o quarto enquanto Brian ficou na sala da frente lendo sua revista nova. Depois, quando papai e Ginger saíram, ela se sentou junto a Brian. Ele não ergueu os olhos. Continuou olhando para a revista, embora já tivesse lido tudo duas vezes. Ginger declarou que adorava Sad Sack. Papai fez Brian dar a revista a Ginger, dizendo que era algo cavalheiresco.
— Era minha! — disse Brian. — E ela ficou pedindo que eu lesse as palavras maiores. Ela é adulta e nem ao menos consegue ler uma revista em quadrinhos.