O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 13 de 71

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O Castelo de Vidro

Alguns meses depois de

— Achei que não devíamos ter preconceitos — falei.

— Isso não é preconceito — retrucou mamãe. — É uma questão de precisão na classificação.

Ela nos contou que nossas duas avós sentiam raiva porque nem Lori, nem eu havíamos recebido o nome delas, e decidiu chamar o bebê de Lil y Ruth Maureen. Lil y era o nome da mãe de mamãe, e Erma Ruth era o nome da mãe de papai. No entanto, iríamos chamar o bebê de Maureen, um nome de que mamãe gostava por ser diminutivo de Mary, e estaria dando ao bebê o seu nome, mas ninguém saberia.

Isso, papai nos disse, deixaria todos felizes, menos a mãe dele, que odiava o nome Ruth e queria que o bebê se chamasse Erma, e a mãe de mamãe, que odiaria partilhar seu nome com o da mãe de papai.

ALGUNS MESES DEPOIS DE Maureen nascer, um carro de polícia tentou nos parar porque as luzes de freio do Vagão Verde não funcionavam. Papai fugiu. Disse que se os policiais nos parassem, descobririam que não tínhamos registro nem seguro, que a placa fora tirada de outro carro e nos prenderiam. Depois de descer a rodovia correndo, deu meia-volta cantando pneus, com nós, crianças, achando que o carro iria tombar de lado, mas o carro de polícia fez a mesma manobra. Papai passou por Blythe a cento e sessenta por hora, ultrapassou um sinal fechado, seguiu pela contramão em uma rua de mão única, os outros carros buzinando e encostando. Fez mais algumas curvas, depois desceu um beco e encontrou uma garagem vazia na qual se esconder.

Ouvimos o som da sirene a dois quarteirões, depois ela morreu. Papai disse que, como a gestapo ficaria de olho no Vagão Verde, teríamos de deixá-lo na garagem e ir para casa andando.

No dia seguinte, ele anunciou que Blythe havia ficado um tanto quente demais e que cairíamos na estrada novamente. Dessa vez sabia para onde íamos. Papai havia pesquisado um pouco e se decidido por uma cidade no norte de Nevada, chamada Bat le Mountain. Havia ouro em Bat le Mountain, disse papai, e ele pretendia ir atrás dele com o Prospector. Finalmente ficaríamos ricos.

Mamãe e papai alugaram um grande caminhão de mudanças U-Haul. Mamãe explicou que, como apenas ela e papai cabiam na frente do U-Haul, Lori, Brian, Maureen e eu ganharíamos algo: viajaríamos na caçamba. Seria divertido, disse ela, uma verdadeira aventura, porém não haveria nenhuma luz, e teríamos de usar todos os nossos recursos para nos divertir. Ademais, não poderíamos falar. Como era ilegal viajar na caçamba, se alguém nos ouvisse poderia chamar a polícia. Mamãe nos disse que a viagem levaria umas catorze horas se fôssemos pela rodovia, mas deveríamos gastar mais duas, já que deveríamos fazer desvios para ficar longe da vista.

Embalamos toda a mobília que tínhamos. Não era muito, basicamente peças do Prospector, duas cadeiras, pinturas a óleo e materiais de mamãe. Quando estávamos prontos para partir, mamãe enrolou Maureen em um cobertor lavanda e a passou para mim, e entramos na caçamba do U-Haul. Papai fechou as portas. Lá dentro estava escuro, e o ar tinha cheiro de mofo e poeira. Ficamos sentados no chão de tiras de madeira, sobre cobertores sujos esfarrapados usados para envolver móveis, procurando um ao outro com as mãos.

— Hora da aventura! — sussurrei.

— Shhh! — pediu Lori.

O U-Haul foi ligado e avançou. Maureen deu um grito agudo. Eu fiz shhh, a embalei e dei tapinhas nela, mas ela continuou a chorar. Passei-a para Lori, que cantarolou em seu ouvido e contou piadas. Isso também não funcionou, aí imploramos a Maureen que parasse de chorar. Depois simplesmente cobrimos os ouvidos com as mãos. Após um tempo ficou frio e desconfortável na caçamba do caminhão escuro. O motor fazia o piso vibrar, e saíamos rolando sempre que passávamos sobre uma lombada. Várias horas se passaram. Depois estávamos todos querendo fazer xixi e pensando se papai iria parar para um descanso. De repente, com uma barulheira, caímos em um buraco enorme, e as portas de trás do U-Haul se abriram. O vento assobiou no compartimento. Estávamos com medo de ser sugados para fora, e todos nos encolhemos junto ao Prospector. Havia luar. Podíamos ver o brilho das luzes traseiras do U-Haul e a estrada por onde seguíamos se estendendo pelo deserto prateado. As portas abertas balançavam para a frente e para trás com batidas altas.

Como os móveis estavam colocados entre nós e a cabine, não podíamos bater na parede para chamar a atenção de mamãe e papai. Batemos na lateral do caminhão e berramos o mais alto possível, porém o

motor era barulhento demais, e não nos ouviam.

Brian engatinhou até os fundos da caçamba. Quando uma das portas se aproximou, ele a agarrou, mas ela se abriu de novo, puxando-o para a frente. Pensei que a porta iria jogar Brian para fora, mas ele pulou para trás a tempo e se arrastou sobre o piso de madeira em nossa direção.

Brian e Lori se agarraram ao Prospector, que papai prendera firmemente com cordas. Eu segurava Maureen, que por alguma estranha razão parara de chorar. Fui para um canto. Parecia que teríamos de suportar aquilo.

Dois faróis surgiram a distância atrás de nós. Observamos enquanto o carro se aproximava lentamente do U-Haul. Depois de alguns minutos, ele ficou logo atrás, e os faróis pousaram em nós na caçamba. O carro começou a buzinar e piscar faróis. Depois desviou e nos ultrapassou. O motorista devia ter feito um sinal para mamãe e papai, porque o U-Haul desacelerou e parou, e papai apareceu correndo com uma lanterna.