O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 36 de 71

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O Castelo de Vidro

Ao constatarmos que Welch era

Mamãe construiu prateleiras nas janelas e colocou ali garrafas de cores brilhantes para receber luz.

— Agora, parece que temos um vitral — anunciou.

Parecia de verdade, mas a casa ainda era fria e úmida. Toda noite, nas primeiras semanas, deitada em meu colchão de papelão, escutando o som da chuva caindo na cozinha, eu sonhava com o deserto, o sol e a casa grande em Phoenix com a palmeira na frente e as laranjeiras e espirradeiras nos fundos. Nós éramos donos daquela casa. Ainda a tínhamos, eu pensava. Era nossa, a única casa de verdade que já tivéramos.

— Vamos voltar para casa um dia? — perguntei a papai certa vez.

— Casa?

— Phoenix.

— Aqui é a nossa casa.

AO CONSTATARMOS QUE WELCH ERA nossa nova casa, Brian e eu calculamos que seria melhor aproveitar ao máximo. Papai nos mostrara o lugar atrás da casa onde íamos fazer as fundações e o porão do Castelo de Vidro. Ele medira tudo e marcara com estacas e corda. Como papai raramente estava em casa — ficava na rua fazendo contatos e investigando o sindicato, dizia-nos —, e nunca aparecia para cavar o solo, Brian e eu decidimos ajudar. Encontramos pá e picareta em uma fazenda abandonada e passamos todos os minutos livres cavando um buraco. Sabíamos que tínhamos de fazê-lo grande e fundo.— Não há sentido em construir uma casa boa se não fizermos as fundações certas — papai sempre dizia.Era trabalho duro, mas depois de um mês tínhamos cavado um buraco grande o suficiente para que desaparecêssemos dentro. Embora não tivéssemos acertado as laterais nem alisado o piso, ainda estávamos muito orgulhosos de nós mesmos. Assim que papai tivesse feito as fundações, poderíamos ajudá-lo com a estrutura.

Entretanto, como não podíamos pagar a taxa de coleta de lixo da cidade, nosso lixo estava se acumulando. Certo dia, papai nos mandou jogá-lo no buraco.

— Mas o buraco é para o Castelo de Vidro! — argumentei.

— É um procedimento temporário — disse papai. Explicou que ia contratar um caminhão para levar o lixo para o depósito de uma vez só. Mas nunca fez isso, e, enquanto Brian e eu observávamos, o buraco para a fundação do Castelo de Vidro lentamente se encheu de lixo.

Mais ou menos nessa época, provavelmente por causa de todo o lixo, um grande rato do rio de aparência nojenta se instalou no 93 da rua Lit le Hobart. Eu o vi pela primeira vez no açucareiro. Aquela ratazana era grande demais para caber em um açucareiro comum, mas como mamãe era viciada em açúcar, colocando pelo menos oito colheres em uma xícara de chá, mantínhamos nosso açúcar em uma bacia de ponche na mesa da cozinha.

Aquela ratazana não estava somente comendo o açúcar. Banhava-se nele, rolava nele, decididamente se refestelava nele, o rabo agitado pendurado pela lateral da tigela, jogando açúcar na mesa. Quando eu a vi, congelei, depois recuei para fora da cozinha. Contei a Brian, e abrimos a porta cuidadosamente. O rato saíra da bacia de açúcar e pulara para o fogão. Podíamos ver as marcas de seus dentes na pilha de batatas, nosso jantar, em um prato no fogão. Brian jogou a frigideira de ferro fundido no rato. Acertou nele e o derrubou no chão, mas, em vez de fugir, o rato sibilou para nós, como se fôssemos os intrusos. Saímos correndo da cozinha, batemos a porta e enfiamos trapos na fenda abaixo dela.

Naquela noite, Maureen, que tinha cinco anos, estava aterrorizada demais para dormir. Continuava dizendo que o rato ia pegá-la. Ela podia ouvi-lo chegando mais perto. Pedi que deixasse de ser fresca.

— Eu realmente estou ouvindo o rato — disse. — Acho que está perto de mim.

Falei que ela estava se rendendo ao medo e, como era uma das poucas vezes em que tínhamos eletricidade, acendi a luz para provar. E ali, agachado no cobertor lavanda de Maureen, a poucos centímetros de seu rosto, estava o rato. Ela berrou e empurrou as cobertas, e o rato pulou para o chão.

Peguei um esfregão e tentei acertar o rato com o cabo, mas ele fugiu de mim. Brian agarrou um taco de beisebol, e nós o encurralamos em um canto, sibilando e batendo os dentes.

Nosso cachorro, Zumbido, um mestiço de jack russel terrier que um dia seguira Brian até em casa, pegou o rato com a boca e o bateu no chão até ele estar morto. Quando mamãe entrou correndo no quarto, Zumbido estava se exibindo, vaidoso como um matador de feras orgulhoso que era. Mamãe disse sentir um pouco de pena do rato.

— Ratos também precisam comer — destacou.

Embora estivesse morto, ele merecia um nome, continuou, então o batizou de Rufus. Brian, que lera que guerreiros primitivos colocavam partes do corpo de suas vítimas em estacas para assustar os inimigos, pendurou Rufus pelo rabo em um álamo na frente de casa na manhã seguinte. Naquela tarde, ouvimos barulho de tiros. O sr. Freeman, que morava ao lado, vira o rato pendurado de cabeça para baixo. Rufus era tão grande que o sr. Freeman pensou que se tratava de um gambá, por isso entrou, pegou o rifle de caça e o explodiu. Não restou nada de Rufus, além de um pedaço de rabo destroçado.

DEPOIS DO INCIDENTE com Rufus, eu dormia com um taco de beisebol na cama. Brian dormia com seu facão. Maureen mal dormia. Continuava a sonhar que era comida por ratos e usava todas as desculpas possíveis para passar a noite na casa de amigas. Mamãe e papai menosprezaram o incidente com Rufus.

Disseram que havíamos lutado com adversários mais ferozes no passado, e faríamos isso novamente um dia. — O que vamos fazer sobre o buraco de lixo? — perguntei. — Está quase cheio.

— Aumente — disse mamãe.

— Não podemos continuar jogando lixo lá fora — falei. — O que as pessoas vão pensar?

— A vida é curta demais para se preocupar com o que os outros pensam. Além disso, eles devem nos aceitar como somos.

Eu estava convencida de que as pessoas poderiam nos aceitar melhor se fizéssemos um esforço para tornar mais decente a aparência do número 93 da rua Lit le Hobart. Havia muitas coisas que podíamos fazer, eu pensava, que custariam quase nada. Algumas pessoas em Welch cortavam pneus em semicírculos, pintavam-nos de branco e os usavam para delimitar seus jardins. Talvez ainda não pudéssemos construir o Castelo de Vidro, mas poderíamos colocar pneus pintados ao redor de nosso jardim da frente para reformá-lo.

— Isso nos deixaria um pouco mais adaptados — apelei a mamãe.

— Certamente deixaria — falou mamãe. Mas no que dizia respeito a Welch, ela não tinha interesse em se adaptar. — Eu preferiria ter um pátio cheio de lixo de verdade que de enfeites de jardim vagabundos.

Eu continuava a procurar outras maneiras de fazer melhorias. Certo dia, papai levou para casa uma lata de tinta de parede de dezenove litros que sobrara de algum trabalho que fizera. No dia seguinte, eu abri a lata. Estava quase cheia de uma tinta amarela brilhante. Papai também levara pincéis. Eu me dei conta de que uma camada de tinta amarela transformaria totalmente nossa casa cinzenta. Pelo menos por fora, pareceria quase como as casas onde as outras pessoas moravam.

Fiquei tão excitada com a perspectiva de morar em uma casa amarela alegre que mal consegui dormir naquela noite. Levantei cedo no dia seguinte e prendi os cabelos, pronta para começar a pintar a casa.

— Se todos trabalharmos juntos, poderemos terminar em um dia ou dois — eu disse a todos.

Entretanto, papai falou que o 93 da rua Lit le Hobart era um lixo tão grande que não deveríamos perder tempo ou energia que poderíamos dedicar ao Castelo de Vidro. Mamãe disse que achava casas amarelo-brilhante de mau gosto. Brian e Lori avisaram que não tínhamos as escadas e os andaimes necessários.

Papai não estava fazendo nenhum progresso visível no Castelo de Vidro, e eu sabia que a lata de tinta amarela ficaria na varanda, a não ser que eu mesma fizesse o serviço. Decidi pedir uma escada

emprestada ou fazer uma. Tinha certeza de que assim que todos vissem o início da impressionante transformação da casa, se juntariam a mim.

Na varanda, abri a lata e agitei a tinta com uma vara, misturando o óleo que subira à superfície até que a tinta, que tinha cor de ranúnculo, ficasse cremosa. Mergulhei um pincel gordo e espalhei a tinta sobre a velha tábua lateral em compridas pinceladas suaves. Ficou brilhante e sedosa e pareceu ainda melhor do que eu esperara. Comecei no ponto mais distante da varanda, ao redor da porta que levava à cozinha. Em algumas horas, havia coberto tudo o que podia ser alcançado da varanda. Partes da frente ainda estavam sem tinta, assim como as laterais, mas eu tinha usado menos de um quarto da tinta. Se todos ajudassem, poderíamos pintar as áreas que eu não conseguia alcançar, e em pouco tempo teríamos uma alegre casa amarela.