O Castelo de Vidro
Lori nos escrevia
Papai estava tão ansioso para saber como havia sido a entrevista que não apenas estava em casa quando voltei da escola como estava até mesmo sóbrio. Insistiu em me ajudar com a matéria, para garantir a precisão técnica.
Eu já tinha um lead na cabeça. Sentei diante da Remington de minha mãe e datilografei: As páginas de história ganharam vida este mês quando Chuck Yeager, o primeiro homem a quebrar a bar eira do som, visitou a escola secundária Welch.
Papai olhou por sobre o meu ombro.
— Ótimo — disse —, mas vamos colocar algum molho.
LORI NOS ESCREVIA regularmente de Nova York. Estava adorando. Morava em um hotel para mulheres em Greenwich Vil age, trabalhava como garçonete em um restaurante alemão e fazia aulas de arte e esgrima. Conhecera um grupo de pessoas fascinante, cada uma delas um gênio bizarro. As pessoas em Nova York adoravam tanto arte e música que os artistas vendiam pinturas na calçada ao lado de quartetos de cordas tocando Mozart. Nem o Central Park se mostrara tão perigoso quanto as pessoas na Virgínia Ocidental pensavam. Nos fins de semana, era tomado por patinadores, jogadores de frisbe , malabaristas e mímicos com o rosto pintado de branco. Ela sabia que eu iria adorar Nova York assim que chegasse. Eu também sabia.
Desde que entrara para a décima primeira série, eu contava os meses — vinte e dois — até poder me juntar a Lori. Fizera um plano. Assim que me formasse no ensino médio, me mudaria para Nova York, entraria para uma faculdade da cidade e conseguiria um emprego na AP ou na UPI, as agências de notícias cujas matérias saíam dos teletipos do Welch Daily News, ou em um dos famosos jornais de Nova York, sobre cujos colunistas pomposos eu ouvia os repórteres do Welch Daily News fazer piadas. Estava determinada a me tornar um deles.
NA METADE DO MEU penúltimo ano, procurei a srta. Katona, a orientadora da escola secundária, para pedir o nome de universidades em Nova York. A srta. Katona ergueu os óculos que balançavam em uma corda em seu pescoço e me examinou através deles. Disse que a faculdade estadual de Bluefield ficava a apenas cinquenta e oito quilômetros e que, com minhas notas, provavelmente conseguiria bolsa integral.
— Quero ir para uma faculdade em Nova York — falei.
A srta. Katona me olhou confusa.
— Por quê?
— É onde quero morar.
A srta. Katona disse que de seu ponto de vista era má ideia. Era mais fácil entrar para uma faculdade no estado onde você cursara o ensino médio. Você era considerado local, significando que a aceitação era mais provável e a anuidade, mais barata.
Pensei nisso por um minuto.
— Talvez devesse me mudar para Nova York agora e me formar no ensino médio lá. Assim, seria considerada local.
A srta. Katona apertou os olhos na minha direção.
— Mas você mora aqui. Esta é sua casa.
A srta. Katona era uma mulher de ossos finos, que sempre usava suéteres abotoados até em cima e sapatos pesados. Estudara na escola secundária Welch e aparentemente nunca lhe ocorrera morar em nenhum outro lugar. Deixar a Virgínia Ocidental, e até mesmo deixar Welch, seria inimaginavelmente desleal, como abandonar a família.
— Só porque moro aqui agora não significa que não possa me mudar.
— Isso seria um equívoco terrível. Você vive aqui. Pense no que iria perder. Sua família e seus amigos. E o último ano é o ápice de toda a sua experiência no ensino médio. Você perderia o Dia dos Veteranos. Perderia o baile de formatura.
NAQUELA NOITE, caminhei para casa lentamente, pensando no que a srta. Katona dissera. Era verdade que muitos adultos em Welch falavam sobre como o último ano do ensino médio havia sido o ápice de suas vidas. No Dia dos Veteranos, algo que a escola criara para impedir o êxodo escolar no penúltimo ano, os alunos vestiam roupas engraçadas e matavam aula. Não era exatamente uma razão convincente para permanecer mais um ano em Welch. Quanto à formatura, eu tinha tanta chance de conseguir companhia quanto papai tinha de acabar com a corrupção nos sindicatos.
Um ano antes, eu estava falando hipoteticamente sobre me mudar para Nova York. Mas enquanto caminhava, me dei conta de que, se quisesse, poderia ir. Poderia mesmo fazê-lo. Talvez não imediatamente, não naquele minuto — era metade do ano letivo —, mas poderia esperar concluir o penúltimo ano. Teria dezessete anos. Já tinha poupado quase cem dólares, o suficiente para começar em Nova York. Poderia sair de Welch em menos de cinco meses.
Fiquei tão excitada que comecei a correr. Corri, cada vez mais rápido, ao longo da estrada velha coberta por galhos de árvore nus, depois para Vista Grande e subindo a Lit le Hobart, passando pelos cachorros latindo nos quintais e pelas pilhas de carvão cobertas de gelo, pela casa dos Noe, a dos Parish, a dos Hal e a dos Renko, até parar, ofegante, na frente de nossa casa. Pela primeira vez em anos, notei minha pintura amarela pela metade. Eu passara muito tempo em Welch tentando tornar as coisas um pouquinho melhores, mas nada funcionara.
A casa estava ficando pior. Um dos pilares de sustentação começara a ceder. O vazamento no teto acima da cama de Brian ficara tão grave que, quando chovia, ele dormia sob um barco inflável que mamãe ganhara em uma rifa, depois de mandar cem maços de Benson & Hedges que havíamos catado em latas de lixo. Se eu partisse, Brian poderia ficar com minha antiga cama. Eu tomara minha decisão. Iria para Nova York assim que o ano letivo chegasse ao fim.
Escalei a colina até os fundos da casa — os degraus estavam totalmente podres — e passei pela janela dos fundos que usávamos como porta. Papai estava à escrivaninha, fazendo cálculos, e mamãe estudava suas pilhas de pintura. Quando contei a eles meus planos, papai apagou o cigarro, levantou-se e saiu pela janela dos fundos sem dizer uma palavra. Mamãe anuiu e baixou os olhos, tirando poeira de uma de suas pinturas, falando sozinha em voz baixa.
— O que acha? — perguntei.
— Legal. Vá.
— O que há de errado?
— Nada. Você deve ir. É um plano bom — disse ela, parecendo prestes a chorar.
— Não fique triste, mamãe. Eu escrevo.
— Não estou chateada porque vou sentir sua falta. Estou chateada porque você vai para Nova York e eu fico presa aqui. Não é justo.
QUANDO TELEFONEI para Lori, ela aprovou meu plano. Disse que poderia morar com ela se arrumasse um emprego e ajudasse no aluguel. Brian também gostou da ideia, especialmente quando observei que ele poderia ficar com minha cama. Começou a fazer piadas com a boca quase fechada sobre como eu ia me tornar uma daquelas nova-iorquinas que vestiam peles, esticavam o mindinho e andavam de nariz em pé. Começou a contar as semanas até minha partida, assim como eu contara para Lori.
— Em dezesseis semanas você estará em Nova York — disse. E na semana seguinte: — Em três meses e três semanas você estará em Nova York.
Papai mal falara comigo desde que anunciara minha decisão. Certa noite, naquela primavera, ele entrou no quarto enquanto eu estava estudando no meu beliche. Tinha papéis enrolados debaixo do braço.— Tem um minuto para ver uma coisa? — perguntou.
— Claro.
Eu o segui até a sala, onde ele esticou os papéis sobre a escrivaninha. Eram as velhas plantas do Castelo de Vidro, sujas e amassadas. Não conseguia lembrar quando as vira pela última vez. Tínhamos parado de falar sobre o Castelo de Vidro quando a fundação que havíamos cavado foi preenchida por lixo. — Acho que finalmente descobri como lidar com a falta de luz do sol na encosta — disse papai.
Tratava-se de instalar espelhos curvos especiais nas células solares. Mas o que ele queria conversar comigo era sobre os planos para meu quarto. — Agora que Lori partiu, estou mudando o projeto, e seu quarto será muito maior.
As mãos de papai tremiam levemente enquanto desenrolava diferentes plantas. Havia desenhado vistas frontais, laterais e aéreas do Castelo de Vidro. Fizera diagramas de fios e canos. Desenhara o interior de cômodos, dera nomes a eles e especificara suas dimensões em centímetros, em sua caligrafia compacta e precisa.
Olhei para as plantas.
— Papai, o senhor nunca vai construir o Castelo de Vidro.
— Está dizendo que não tem fé no seu velho?