O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 7 de 71

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O Castelo de Vidro

Por mais que papai

Só precisávamos encontrar ouro, disse papai, e estávamos prestes a conseguir isso. Assim que ele concluísse o Prospector e ficássemos ricos, começaria a trabalhar em nosso Castelo de Vidro.

POR MAIS QUE PAPAI gostasse de contar histórias sobre si mesmo, era quase impossível fazê-lo falar sobre seus pais ou onde havia nascido. Sabíamos que ele vinha de uma cidade chamada Welch, na Virgínia Ocidental, onde extraíam muito carvão, e que o pai dele trabalhara como funcionário da ferrovia, passando o dia inteiro sentado em uma pequena estação, escrevendo mensagens em pedaços de papel que erguia em uma vara para os condutores dos trens que passavam. Papai não tinha nenhum interesse em uma vida como aquela, e deixou Welch aos dezessete anos para ingressar na Força Aérea e se tornar piloto.Uma de suas histórias preferidas, que ele deve ter nos contado umas cem vezes, era sobre como conhecera e se apaixonara por mamãe. Papai era da Força Aérea, e mamãe, de uma organização de apoio aos militares, porém, quando se conheceram, ela tirara uma licença para visitar os pais em sua fazenda de gado perto do cânion Córrego dos Peixes.

Papai e alguns de seus colegas da Força Aérea estavam em um penhasco do cânion tentando reunir coragem para mergulhar no lago doze metros abaixo quando mamãe chegou com uma amiga. Vestia um traje de banho branco que destacava suas formas e sua pele, escura do sol do Arizona. Tinha cabelos castanho-claros, que ficavam louros no verão, e nunca usou maquiagem além de batom vermelho-escuro.

Parecia uma estrela de cinema, papai sempre dizia, mas, que diabos, ele conhecera muitas mulheres bonitas, e nenhuma delas o deixara de pernas bambas. Mamãe foi diferente. Ele viu imediatamente que tinha algo mais. Apaixonou-se no instante em que colocou os olhos nela.

Mamãe caminhou até os homens da Força Aérea e lhes disse que pular do penhasco não era nada de mais, que fazia isso desde pequena. Os homens não acreditaram, então ela foi à beirada do penhasco e deu um mergulho perfeito água abaixo.

Papai pulou logo em seguida. Que diabos, disse, de modo algum deixaria uma garota como aquela escapar.

— Que tipo de salto você deu, papai? — eu perguntava sempre que ele contava a história.

— Um salto de paraquedas. Sem paraquedas — ele sempre respondia.

Papai nadou atrás de mamãe e, ali mesmo na água, disse que ia se casar com ela. Mamãe disse a papai que vinte e três homens já a haviam pedido em casamento e ela rejeitara todos eles.

— O que o leva a crer que eu aceitaria seu pedido? — perguntou.

— Eu não a pedi em casamento — falou papai. — Disse que ia me casar com você.

Seis meses depois eles se casaram. Sempre achei a história mais romântica que já havia escutado, mas mamãe não gostava dela. Não a achava nada romântica.

— Eu tive de dizer “sim” — mamãe disse. — Seu pai não aceitava um “não” como resposta.

Ademais, explicou, ela tinha de se libertar da mãe, que não a deixava tomar sozinha nem mesmo a decisão mais simples.

— Não tinha ideia de que seu pai seria ainda pior.

Papai saiu da Força Aérea depois de se casar porque queria ganhar uma fortuna para sua família, e isso não era possível nas Forças Armadas. Em alguns meses mamãe estava grávida. Quando Lori nasceu, permaneceu muda e careca como um ovo pelos primeiros três anos de vida. De repente, brotaram cabelos cacheados cor de bronze, e ela começou a falar sem parar. Mas pareciam coisas sem sentido, e todos achavam que Lori tinha problemas, a não ser mamãe, que a entendia perfeitamente e dizia que tinha um vocabulário excelente.

Um ano depois de Lori nascer, mamãe e papai tiveram uma segunda filha, de cabelos negros como carvão e olhos cor de chocolate, exatamente como papai. Mas Mary Charlene morreu, certa noite, aos

nove meses. Morte súbita, mamãe sempre dizia. Dois anos depois, eu nasci.

— Você veio substituir Mary Charlene — disse mamãe. Ela me contou que havia encomendado uma segunda garota ruiva para que Lori não se achasse estranha. — Você era um bebê magricela. A coisa mais comprida e ossuda que as enfermeiras já tinham visto.

Brian chegou quando eu tinha um ano. Era um bebê azul, mamãe dizia. Quando nasceu, ele não conseguia respirar, e veio ao mundo com convulsões. Sempre que mamãe contava a história, deixava os braços rígidos, trincava os dentes e arregalava os olhos para mostrar como Brian parecia. Mamãe disse que, quando o viu daquele jeito, pensou: huumm, parece que este também vai embora. Mas Brian sobreviveu. No primeiro ano de vida, ele continuou a ter convulsões, até que um dia elas pararam. Ele se tornou um carinha forte que nunca gemia nem chorava, nem mesmo quando eu acidentalmente o empurrei da cama de cima e ele quebrou o nariz.

Mamãe sempre dizia que as pessoas se preocupavam demais com os filhos. Sofrer na juventude era bom para você, ela dizia. Imunizava seu corpo e sua alma, e por isso ela nos ignorava quando chorávamos. Preocupar-se demais com crianças que choram apenas as encoraja, ela nos dizia. É reforço positivo de comportamento negativo.

Mamãe nunca pareceu chateada com a morte de Mary Charlene.