O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 53 de 71

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O Castelo de Vidro

À medida que se aproximavam

Todos dormíamos no Elvis nessas viagens, porque muitas vezes só ganhávamos o suficiente para pagar a gasolina, ou nem mesmo isso. Ainda assim era bom estar novamente em movimento. Nossas viagens no Elvis me lembraram como era fácil juntar as coisas e seguir em frente quando dava vontade.

Assim que se tivesse resolvido ir, não havia problema algum.

À MEDIDA QUE SE APROXIMAVAM a primavera e o dia da formatura de Lori, eu ficava acordada à noite pensando na vida dela em Nova York.

— Em exatamente três meses você estará morando em Nova York — eu disse a ela.

Na semana seguinte falei:

— Em exatamente dois meses e três semanas você estará morando em Nova York.

— Quer calar a boca, por favor? — falou.

— Você não está nervosa, está? — perguntei.

— O que você acha?

Lori estava aterrorizada. Ela não sabia o que deveria fazer quando chegasse a Nova York. Aquela sempre fora a parte mais vaga de nosso plano de fuga. No outono, eu não tinha dúvida de que ela poderia conseguir uma bolsa em uma das universidades da cidade. Fora finalista de uma Bolsa Nacional de Mérito, mas tivera de pegar carona até Bluefield para fazer a prova e ficara abalada quando o caminhoneiro que lhe dera carona a assediou; chegou quase uma hora atrasada e fracassou na prova.

Mamãe, que apoiava os planos nova-iorquinos de Lori e continuava dizendo que gostaria de ir ela mesma para a cidade grande, sugeriu que Lori se candidatasse à escola de arte da Cooper Union. Lori montou um portfólio de desenhos e pinturas, mas, pouco antes do prazo final de inscrições, derramou um bule de café sobre ele, o que levou mamãe a pensar em voz alta se Lori teria medo do sucesso.

Lori ouviu falar de uma bolsa patrocinada por uma sociedade literária para o estudante que criasse a melhor obra de arte inspirada por um dos gênios da língua inglesa. Decidiu fazer um busto em argila de Shakespeare. Trabalhou nele por uma semana, usando um palito de picolé afiado para moldar os olhos levemente saltados, cavanhaque, brinco e cabelos compridos. Quando terminado, parecia exatamente com Shakespeare.

Naquela noite, estávamos todos sentados vendo Lori dar os últimos toques no cabelo de Shakespeare, quando papai chegou em casa bêbado.

— Isso realmente lembra o velho Bil y — disse papai. — Só que, como já disse a vocês, ele era uma maldita farsa.

Durante anos, sempre que mamãe falava das peças de Shakespeare, papai repetia que não haviam sido escritas por Wil iam Shakespeare de Avon, mas por um grupo de pessoas, incluindo alguém chamado conde de Oxford, pois uma só pessoa na Inglaterra elisabetana não poderia ter o vocabulário de trinta e quatro mil palavras de Shakespeare. Todo aquele falatório sobre o pequeno Bil y Shakespeare, dizia papai, o grande gênio a despeito de sua formação escolar ruim, seu pouco latim e ainda menos grego, era um monte de mitologia sentimental.

— Você está ajudando a perpetuar essa fraude — disse ele a Lori.

— Papai, é apenas um busto — disse Lori.

— Esse é o problema — falou papai.

Ele estudou a escultura, e, de repente, esticou o braço e amassou a boca de Shakespeare com o polegar.

— Que diabos você está fazendo? — gritou Lori.

— Já não é apenas um busto. Agora tem valor simbólico. Pode chamá-lo de Bardo Mudo.

— Eu trabalhei dias nisso! — gritou Lori. — E você o destruiu!

— Eu o elevei — falou papai. Disse a Lori que iria ajudá-la a escrever um ensaio demonstrando que as peças de Shakespeare tinham vários autores, como as pinturas de Rembrandt. — Por Deus, você vai abalar o mundo literário.

— Eu não quero abalar o mundo! — berrou Lori. — Eu só quero ganhar uma bolsa de estudos idiota!— Que maldição, você está em uma corrida de cavalos, mas pensando como uma ovelha — disse papai. — Ovelhas não ganham corridas de cavalos.

LORI NÃO TEVE DISPOSIÇÃO de refazer o busto. No dia seguinte, amassou a argila em uma grande bola e a deixou na escrivaninha. Eu disse a Lori que se ela não fosse aceita em uma escola de arte quando se formasse, deveria ir para Nova York de qualquer maneira. Poderia se sustentar com o dinheiro que havíamos poupado até encontrar um emprego, e depois se candidatar a uma escola. Esse se tornou nosso novo plano.

Todos estavam furiosos com papai, o que o deixou ressentido. Disse que não sabia sequer por que se preocupava em ir para casa, já que ninguém sentia o menor apreço por suas ideias. Insistiu que não estava tentando impedir Lori de ir para Nova York, mas se ela tinha a ideia de que Deus iria ajudar, não iria a lugar nenhum.

— Nova York é um buraco lamentável, cheio de bichas e estupradores — disse mais de uma vez.

Alertou que ela iria ser roubada e se veria nas ruas, levada à prostituição, e acabaria como viciada em drogas como todos aqueles adolescentes fugidos. — Só estou dizendo isso porque a amo. E não quero que se machuque.

Certa noite de maio, quando estávamos poupando dinheiro havia quase nove meses, cheguei em casa com dois dólares que ganhara como babá e entrei no quarto para colocá-los em Oz. O porquinho não estava na velha máquina de costura. Comecei a procurar em meio ao lixo do quarto e finalmente o encontrei no chão. Alguém o cortara com uma faca e roubara todo o dinheiro.

Sabia que havia sido papai, mas ao mesmo tempo não conseguia acreditar que tivesse tido uma atitude tão baixa. Obviamente, Lori ainda não sabia. Estava cantarolando na sala enquanto trabalhava em um cartaz. Meu primeiro impulso foi esconder Oz. Tive a ideia louca de que poderia de algum modo devolver o dinheiro antes de Lori descobrir que havia desaparecido. Mas sabia como isso era ridículo; nós três havíamos passado quase um ano acumulando o dinheiro. Seria impossível, para mim, devolvê-lo no mês anterior à formatura de Lori.

Fui à sala e fiquei em pé ao lado dela, tentando pensar no que dizer. Estava trabalhando em um cartaz que dizia TAMMY! Em cores fluorescentes. Depois de algum tempo, ela ergueu os olhos.

— O que houve?

Lori viu pela minha expressão que havia algo errado. Levantou tão de repente que derrubou um frasco de nanquim e correu para o quarto. Eu me preparei, esperando ouvir um berro, mas só houve silêncio e depois um pequeno gemido irregular.

LORI FICOU ACORDADA a noite toda para enfrentar papai, mas ele não voltou para casa. Ela faltou à escola no dia seguinte, caso ele retornasse, mas papai ficou ausente três dias antes que o ouvíssemos subindo os degraus instáveis até a varanda.

— Seu desgraçado! — gritou Lori. — Você roubou nosso dinheiro!

— Que diabos você está falando? E cuidado com suas palavras — reagiu papai.

Ele se apoiou na porta e acendeu um cigarro. Lori ergueu o porquinho cortado e o jogou com toda

a força sobre papai, mas, como estava vazio e quase sem peso, bateu de leve no ombro dele, depois caiu no chão. Ele se curvou cuidadosamente, como se o piso abaixo pudesse se mover a qualquer momento, recolheu nosso porquinho atacado e o virou nas mãos.

— Alguém certamente estripou o velho Oz, não é mesmo? — disse, e se virou para mim. —

Jeannet e, sabe o que aconteceu?

Ele estava me dando um meio sorriso. Depois da surra, papai jogara charme para cima de mim, e, embora eu estivesse planejando partir, ele me fazia rir quando tentava, e ainda me considerava uma aliada.

Mas eu agora queria socar sua cabeça.

— Você pegou nosso dinheiro — disse. — Foi o que aconteceu.

— Isso é demais — falou papai.

Ele começou a falar sobre como um homem volta para casa depois de matar dragões, tentando manter a família segura, e tudo o que quer em troca por seu esforço e sacrifício é um pouco de amor e respeito, mas que parecia que, atualmente, era demais esperar por isso. Disse que não pegou nosso dinheiro de Nova York, mas, se Lori estava determinada a morar naquela cloaca, ele mesmo iria financiar sua viagem.

Enfiou a mão no bolso e sacou algumas notas amassadas de um dólar. Simplesmente o encaramos, e ele deixou o dinheiro amassado cair no chão.

— Façam bom uso — disse.

— Por que está fazendo isso conosco, papai? — eu perguntei. — Por quê?

O rosto dele endureceu de raiva, depois ele cambaleou para o sofá e desmaiou.

— Eu nunca vou sair daqui — Lori ficou repetindo. — Nunca vou sair daqui.

— Você vai. Eu juro — falei. Acreditava que sim. Porque sabia que se Lori não saísse de Welch, eu também não sairia.

EU VOLTEI À G. C. Murphy no dia seguinte e examinei a prateleira de cofrinhos. Eram todos de plástico, porcelana ou vidro, facilmente quebráveis. Estudei uma coleção de caixas de metal com cadeados e chaves. As dobradiças eram frágeis demais. Papai podia abri-los. Comprei uma bolsa de trocados azul.

Eu a usava em um cinto sob minhas roupas o tempo todo. Quando ficava cheia, colocava o dinheiro em uma meia, que escondia em um buraco na parede abaixo do meu beliche.

Começamos a poupar de novo, mas Lori estava desanimada demais para pintar, e o dinheiro não entrou tão rapidamente. Uma semana antes do fim das aulas, tínhamos apenas trinta e sete dólares e vinte centavos na meia. Uma das mulheres para quem eu trabalhava de babá, uma professora chamada sra.

Sanders, me disse que estava se mudando com a família para sua cidade natal em Iowa e perguntou se eu queria passar o verão com eles lá. Se fosse e ajudasse a cuidar de seus dois bebês, ela me pagaria duzentos dólares no final do verão e compraria uma passagem de volta para Welch.

Pensei na oferta dela.

— Leve Lori no meu lugar. E, no final do verão, compre para ela uma passagem de ônibus para Nova York.

A sra. Sanders concordou.

NUVENS BAIXAS COR de estanho pousavam no alto das montanhas ao redor de Welch na manhã da partida de Lori. Elas estavam lá na maioria das manhãs, mas quando as notei, elas me lembraram de quão isolada e esquecida era a cidade, um lugar triste e perdido à deriva nas nuvens. As nuvens normalmente se

dissolviam na metade da manhã, quando o sol se erguia acima dos picos altos, e em certos dias, como aquele no qual Lori partiu, se aferravam às montanhas. Formou-se no vale uma névoa fina, que encharcou cabelos e rostos.

Quando a família Sanders estacionou sua perua, Lori estava pronta. Tinha colocado suas roupas, os livros preferidos e o material artístico em uma única caixa de papelão. Abraçou a todos nós, exceto papai

— ela se recusara a dizer uma só palavra a ele desde que saqueara Oz —, e prometeu escrever. Depois, subiu na perua.

Ficamos todos observando enquanto o carro descia a Lit le Hobart e sumia. Lori nunca olhou para trás. Considerei isso um bom sinal. Quando subi a escadaria para a casa, papai estava em pé na varanda, fumando um cigarro.

— Esta família está desmoronando — disse.