O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 52 de 71

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O Castelo de Vidro

Naquele outono,

A primeira era que havia sido minha última surra. Ninguém iria fazer aquilo comigo novamente. A segunda era que, como Lori, iria sair de Welch. Quanto mais cedo, melhor. Antes de terminar o ensino médio, se pudesse. Não tinha ideia de para onde iria, mas sabia que iria. Sabia que não seria fácil. As pessoas ficavam empacadas em Welch. Eu contara com mamãe e papai para nos levar dali, mas descobri que teria de fazer isso sozinha. Seria necessário poupar e planejar. Decidi que no dia seguinte iria à G. C.

Murphy comprar um cofrinho de porquinho rosa de plástico que vira lá. Colocaria nele os setenta e cinco dólares que conseguira poupar trabalhando na Becker’s. Seria o começo da minha reserva de fuga.

NAQUELE OUTONO, apareceram em Welch dois caras diferentes de quaisquer outros que eu já tivesse conhecido. Eram cineastas de Nova York e tinham sido enviados a Welch como parte de um programa governamental para levar cultura à região rural dos Apalaches. Seus nomes eram Ken Fink e Bob Gross.

No começo, achei que eles estavam brincando. Fink e Gross. Informante e Grosso? No que me dizia respeito, poderiam ter dito se chamar Ken Idiota e Bob Feio. Mas Ken e Bob não estavam brincando. Não achavam seus nomes nada engraçados e não sorriram quando perguntei se estavam me sacaneando.

Ken e Bob falavam tão rápido — conversas cheias de referências a pessoas de quem eu nunca tinha ouvido falar, como Stanley Kubrick e Woody Al en — que, às vezes, era difícil acompanhá-los. Embora não tivessem nenhum senso de humor em relação a seus nomes, Ken e Bob gostavam muito de brincar.

Não era o tipo de humor da escola secundária Welch ao qual estava acostumada — piadas de poloneses e caras colocando a mão no sovaco para fazer barulhos de peido. Ken e Bob tinham um modo inteligente e competitivo de brincar, e enquanto um fazia um comentário ácido, o outro retrucava e o primeiro se saía com a tréplica. Eles conseguiam sustentar isso até minha cabeça começar a girar.

Durante um fim de semana, Ken e Bob exibiram um filme sueco no auditório da escola. Era filmado em preto e branco, tinha legendas e uma trama com muito simbolismo, e, embora fosse de graça, apareceram menos de doze pessoas. Depois, Lori mostrou a Ken e Bob algumas de suas ilustrações. Eles disseram que Lori tinha talento e que, se pensava seriamente em se tornar artista, precisava ir para Nova York. Era um lugar cheio de energia, criatividade e estímulo intelectual como nunca tínhamos visto. Era cheia de pessoas que, por serem indivíduos tão únicos, não se encaixavam em outro lugar.

Naquela noite, Lori e eu nos deitamos em nossas camas de corda e conversamos sobre Nova York.

As coisas que eu ouvira sempre tinham feito a cidade parecer um lugar grande e barulhento com muita poluição e bandos de pessoas de terno esbarrando umas nas outras nas calçadas. Mas Lori começou a ver Nova York como uma espécie de Cidade das Esmeraldas — aquele lugar brilhante e agitado no final de uma longa estrada, onde ela poderia se tornar quem deveria ser.

Aquilo de que Lori mais gostara na descrição de Ken e Bob fora que a cidade atraía pessoas diferentes. Lori era o mais diferente possível em Welch. Enquanto quase todas as crianças usavam jeans, tênis Converse e camiseta, ela aparecia na escola de botas militares, um vestido branco com bolinhas vermelhas e uma jaqueta jeans em cujas costas pintara poesia dark. As outras crianças jogavam barras de sabão nela, postavam-se na sua frente e escreviam grafites sobre ela nas paredes do banheiro. Ela se vingava xingando em latim.

Em casa, ela lia e pintava até tarde da noite, à luz de vela ou lampião de querosene, caso a eletricidade tivesse sido cortada. Gostava de detalhes góticos: neblina pairando sobre um lago silencioso, raízes retorcidas se erguendo da terra, um corvo solitário nos galhos de uma árvore nua no litoral. Eu achava Lori impressionante e não tinha dúvida de que se tornaria uma artista de sucesso, mas somente se fosse para Nova York. Decidi que queria ir para lá, e naquele inverno fizemos um plano. Lori partiria sozinha para Nova York em junho, depois de ter se formado. Iria se instalar, achar um lugar para nós, e eu a seguiria logo que pudesse.

Contei a Lori sobre meu fundo de fuga, os setenta e cinco dólares que havia poupado. A partir daquele momento, disse, seria nosso fundo conjunto. Faríamos trabalho extra depois da escola e colocaríamos tudo o que ganhássemos no porquinho. Lori poderia levá-lo para Nova York e usá-lo para se estabelecer, de modo que quando eu chegasse, tudo estaria pronto.

Lori sempre tinha feito cartazes muito bons, para partidas de futebol, peças montadas pelo clube de

teatro e para candidatos ao conselho estudantil. Começou a fazer pôsteres por encomenda por um dólar e cinquenta cada. Era tímida demais para promover seu trabalho, então eu fazia isso por ela. Muitos na escola secundária Welch queriam cartazes personalizados para pendurar na parede dos quartos — com o nome de namorados e namoradas, de seu carro, do signo ou da banda preferida. Lori fazia os nomes em grandes letras gordas tridimensionais superpostas como aquelas em discos de rock, depois os pintava com cores fluorescentes traçadas a nanquim, de modo que as letras pulavam, e cercava os nomes com estrelas, pontos ou linhas onduladas para parecer que se moviam. Os cartazes eram tão bons que a notícia se espalhou, e sem demora Lori tinha tantas encomendas que ficava trabalhando até uma ou duas horas da manhã.

Eu ganhava dinheiro como babá, e também fazendo os deveres de casa de outros alunos. Redigia relatórios de livros, ensaios de ciências e matemática. Cobrava um dólar por tarefa e garantia pelo menos um A-, ou o cliente recebia o dinheiro de volta. Depois da escola, trabalhava como babá por um dólar a hora, e normalmente era quando fazia os deveres de casa. Também dava aulas particulares para crianças por dois dólares a hora.

Contamos a Brian sobre o fundo de fuga e ele passou a contribuir, embora não o tivéssemos incluído no plano por estar apenas na sétima série. Ele aparava grama, rachava madeira ou cortava ervas daninhas das encostas com uma foice. Trabalhava depois das aulas até o sol se pôr e o dia inteiro aos sábados e domingos, e chegava em casa com braços e rosto arranhados dos arbustos que havia arrancado.

Sem esperar agradecimento ou parabéns, somava seus ganhos ao porquinho que tínhamos batizado de Oz. Mantínhamos Oz na velha máquina de costura do quarto. Oz não tinha uma abertura no fundo, e a fenda no alto era estreita demais para tirar moedas, mesmo usando uma faca; portanto, assim que se colocava dinheiro em Oz, ele ficava lá. Nós o testamos para ter certeza. Não podíamos contar o dinheiro, mas como Oz era translúcido, podíamos vê-lo se acumulando quando o erguíamos à luz.

CERTO DIA DE INVERNO, quando voltei da escola, havia um Cadil ac Coupe DeVil e dourado estacionado na frente de casa. Fiquei pensando se o juizado de menores teria encontrado milionários para ser nossos pais adotivos e se teriam chegado para nos levar embora, mas papai estava dentro de casa, girando um chaveiro no dedo. Explicou que o Cadil ac era o novo veículo oficial da família Wal s.

Mamãe falava que uma coisa era viver em um barraco de três aposentos sem eletricidade, já que havia certa dignidade na pobreza, mas viver em um barraco de três aposentos e ter um Cadil ac dourado significava que você era um legítimo lixo branco pobre.

— Como conseguiu isso? — perguntei a papai.

— Uma mão de pôquer infernal e um blefe ainda melhor — respondeu.

Havíamos tido dois carros desde que chegáramos a Welch, mas eram latas-velhas, com motor sacudindo e para-brisa rachado, e enquanto circulávamos, podíamos ver o asfalto através do piso enferrujado. Aqueles carros nunca duraram mais que dois meses, e assim como o Oldsmobile no qual viemos de Phoenix, nunca os batizamos, muito menos os registramos ou fizemos vistoria neles. O Coupe DeVil e já estava com a vistoria vencida. Era tão bonito que papai declarou que chegara a hora de reviver a tradição de batizar os carros.

— Aquele Caddy me parece Elvis — disse.

Passou pela minha cabeça que papai deveria vender Elvis e usar o dinheiro para construir um banheiro interno e comprar roupas novas para nós. Os sapatos de couro preto que eu comprara por cinquenta centavos na Dol ar General Store estavam presos por alfinetes de segurança, que eu tentara

escurecer com pincel atômico para que ninguém percebesse. Também usara marcadores para colorir manchas em minha perna que, esperava, camuflassem os buracos em minhas calças. Imaginei que chamaria menos atenção que se costurasse remendos. Eu tinha uma calça azul e uma verde, e quando tirava as calças, minhas pernas estavam cobertas de pontos azuis e verdes.

Mas papai gostava demais de Elvis para considerar vendê-lo. E a verdade era que eu gostava de Elvis quase o mesmo tanto. Elvis era comprido e esguio como um iate de competição. Tinha ar-condicionado, estofamento dourado grosso, janelas que subiam e desciam apertando um botão e setas que funcionavam, de modo que papai não tinha de colocar o braço para fora. Sempre que cruzávamos a cidade no Elvis, eu acenava elegantemente e sorria para as pessoas na calçada, me sentindo uma herdeira.

— Você tem nobles e oblige, Cabra-Montesa — dizia papai.

Mamãe passou a gostar de Elvis. Ela não voltara a dar aulas, pintava todo o tempo, e nos fins de semana íamos a feiras de artesanato por toda a Virgínia Ocidental: víamos espetáculos nos quais homens barbados de macacão tocavam címbalos e mulheres em vestidos de vovó vendiam coçadores de costas feitos de espiga de milho e esculturas em carvão de mineiros e ursos negros. Enchíamos o porta-malas de Elvis com as pinturas de mamãe e tentávamos vendê-las nas feiras. Mamãe também fazia na hora retratos a pastel de qualquer um disposto a pagar dezoito dólares e, de vez em quando, recebia uma encomenda.