O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 25 de 71

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O Castelo de Vidro

Muitos de nossos vizinhos

— Maldito seja se esse piso não está começando a parecer um pedaço de queijo suíço — disse papai certo dia.

Ele me mandou pegar seu cortador de metal, um martelo e pregos de telhas. Terminou a cerveja que estava bebendo, abriu a lata com o cortador, esticou-a e pregou-a sobre o buraco. Ele precisava de mais

remendos, disse, teve de sair e comprar outra embalagem com seis latas. Depois de terminar cada cerveja, ele usava a lata para tampar um dos buracos. E sempre que aparecia um novo, ele sacava o martelo, virava uma cerveja e fazia outro remendo.

MUITOS DE NOSSOS VIZINHOS na rua Três Norte eram meio esquisitos. Um clã de ciganos morava um quarteirão abaixo em uma grande casa decrépita com compensado pregado sobre a varanda, para criar maior espaço interno. Estavam sempre roubando nossas coisas, e certa vez, depois de o pula-pula de Brian ter sumido, vimos uma das velhas ciganas descendo a calçada pulando nele. Ela se recusou a devolvê-lo, e mamãe teve uma grande discussão com o chefe do clã, e no dia seguinte encontramos no umbral uma galinha com a garganta cortada. Era uma espécie de maldição cigana. Mamãe decidiu, como definiu, combater magia com magia. Tirou do feijão um osso de presunto e foi até a casa dos ciganos brandindo-o no ar. Em pé na calçada, ela ergueu o osso como um crucifixo em um exorcismo e lançou uma maldição sobre todo o clã cigano e sua casa, jurando que iria desabar com todos dentro, e que as entranhas da Terra iriam se abrir e engoli-los para sempre, caso nos incomodassem novamente. Na manhã seguinte, o pula-pula de Brian estava no pátio da frente.

A vizinhança também tinha sua cota de pervertidos. Em sua maioria eram homens malcuidados e curvados com voz insinuante, que ficavam nas esquinas e nos seguiam para a escola e voltando dela, tentando nos ajudar quando pulávamos uma cerca, oferecendo-nos doces e trocados se fôssemos brincar com eles. Nós os chamávamos de nojentos e gritávamos para que nos deixassem em paz, mas eu temia ferir os sentimentos deles, pois não conseguia deixar de imaginar que talvez estivessem dizendo a verdade e tudo o que queriam era ser nossos amigos.

À noite, mamãe e papai sempre deixavam abertas as portas da frente e dos fundos e também todas as janelas. Como não tínhamos refrigeradores de ar, explicavam, precisávamos deixar o ar circular. De tempos em tempos, um vagabundo ou bêbado entrava pela porta da frente imaginando que a casa estava deserta. Quando acordávamos de manhã, encontrávamos um deles dormindo numa das salas. Assim que os despertávamos, eles partiam pedindo desculpas. Mamãe sempre nos garantia que eram apenas bêbados inofensivos.

Maureen, que tinha quatro anos e um medo terrível de bicho-papão, não parava de sonhar que intrusos com máscaras de Hal oween passavam pelas portas abertas para nos pegar. Certa noite, quando eu tinha quase dez anos, fui acordada por alguém passando as mãos pelas minhas partes íntimas. A princípio foi confuso. Lori e eu dormíamos na mesma cama, e achei que ela talvez estivesse se mexendo no sono. Sonada, empurrei a mão.

— Eu só quero brincar com você — disse uma voz de homem.

Reconheci a voz. Era de um cara acabado com bochechas fundas que nos últimos tempos andava rondando a rua Três Norte. Ele tentara nos levar da escola para casa e dera a Brian uma revista chamada Kids on a farm, com meninos e meninas vestindo somente roupa de baixo.

— Pervertido! — berrei, chutando a mão do homem. Brian entrou correndo no quarto com uma machadinha que mantinha junto à cama, e o homem saiu rápido pela porta. Naquela noite, papai estava fora, e quando mamãe dormia, morria para o mundo, então Brian e eu saímos atrás do homem. Quando chegamos à calçada, iluminada pelo brilho arroxeado da luz dos postes, ele tinha virado a esquina e sumido. Nós o procuramos por alguns quarteirões, Brian batendo com a machadinha nos arbustos, porém não o achamos. Na volta para casa, estávamos batendo as mãos e socando o ar, como se tivéssemos vencido uma luta de boxe. Decidimos que tínhamos saído na Caça a Pervertidos, que era exatamente como Caça ao Demônio, com a diferença de que o inimigo era real e perigoso em vez de ser apenas fruto do excesso de imaginação de uma criança.

No dia seguinte, quando papai voltou para casa e contamos o que havia acontecido, ele disse que ia matar aquele vagabundo. Ele, Brian e eu saímos em uma Caça a Pervertido para valer. Raivosos,

vasculhamos as ruas durante horas, mas nunca achamos o sujeito. Perguntei a mamãe e papai se não deveríamos fechar portas e janelas quando fôssemos dormir. Eles nem sequer levaram em consideração.

Disseram que precisávamos de ar puro, e era fundamental que nos recusássemos a nos render ao medo.

As janelas permaneceram abertas. Maureen continuou a ter pesadelos com homens usando máscaras de Hal oween. E de tempos em tempos, quando Brian e eu ficávamos agitados, ele pegava uma machadinha, eu pegava um taco de beisebol e saíamos à Caça a Pervertidos, limpando as ruas dos nojentos que ficavam de olho em crianças.

MAMÃE E PAPAI gostavam de insistir que nunca nos rendêssemos ao medo, ao preconceito ou aos conformistas frouxos de visão limitada que tentavam dizer a todos os outros o que era correto.

Deveríamos ignorar aquelas ovelhas parvas, como papai os chamava. Certo dia, mamãe foi conosco à biblioteca do Centro Cívico. Como o clima estava causticante, ela sugeriu que nos refrescássemos pulando na fonte diante do prédio. A água era rasa demais para nadar, mas nos arrastamos por ela fingindo ser crocodilos até atrair uma pequena multidão que insistia com mamãe que era proibido nadar na fonte.

— Cuidem de sua vida! — retrucou mamãe.

Eu estava me sentindo meio constrangida e comecei a sair.

— Ignore os caretas! — mamãe me disse e, para deixar claro que não dava a mínima para tais pessoas e suas opiniões, entrou na fonte e se jogou ao nosso lado, lançando litros de água por cima das bordas.

Mamãe nunca se incomodou com pessoas se virando para encará-la, nem mesmo na igreja. Embora ela achasse freiras desmancha-prazeres e não seguisse todas as regras da Igreja ao pé da letra — tratava os Dez Mandamentos como Dez Sugestões —, mamãe se considerava católica praticante e nos levava à missa quase todos os domingos. St. Mary era a maior e mais bonita igreja que eu já tinha visto. Era feita de adobe cor de areia e tinha duas enormes torres, um gigantesco vitral circular e, levando às duas portas principais, um par de escadarias curvas cheias de pombos. As outras mães se vestiam para a missa, colocando xale preto de renda na cabeça e agarrando bolsas verdes, vermelhas ou amarelas combinando com os sapatos. Mamãe achava superficial se preocupar com a aparência. Dizia que Deus pensava da mesma forma, portanto ia à igreja usando roupas rasgadas ou sujas de tinta. Era o espírito interior que importava, não sua aparência exterior, dizia, e quando chegava a hora do hino, ela mostrava a toda a congregação seu espírito, cantando as palavras com uma voz tão poderosa que as pessoas nos bancos à nossa frente se viravam para encará-la.

Igreja era particularmente excruciante quando papai ia junto. Papai havia sido criado como batista, mas não gostava de religião e não acreditava em Deus. Acreditava em ciência e razão, dizia, não em superstição e vodu. Mamãe se recusara a ter filhos a não ser que papai concordasse em criá-los como católicos, e ele mesmo ir à igreja em dias santos obrigatórios.

Papai se sentava no banco furioso, remexendo-se e tentando segurar a língua enquanto o padre falava sobre Jesus ressuscitando Lázaro dos mortos, e os fiéis faziam fila para comer o corpo e beber o sangue de Cristo. Finalmente, quando papai não conseguia mais suportar, gritava algo para desafiar o padre. Não fazia isso de maneira hostil. Ele berrava sua observação em um tom amistoso. “Oi, padre”, dizia. O padre normalmente o ignorava e tentava seguir em frente com o sermão, mas papai insistia.