O Castelo de Vidro
Papai conseguiu um emprego
— A maioria dos pianistas nunca tem oportunidade de tocar fora de casa — dizia. — E agora a vizinhança inteira pode aproveitar a música.
PAPAI CONSEGUIU UM EMPREGO de eletricista em uma mina de barita. Saía cedo, voltava para casa cedo, e à tarde todos nós jogávamos. Papai nos ensinou a jogar cartas. Tentou nos mostrar como jogar pôquer sem fazer nenhuma expressão, porém eu não era muito boa nisso. Papai dizia que podia ler meu rosto como um sinal de trânsito. Embora eu não fosse de blefar, às vezes ganhava por ficar sempre muito excitada mesmo com cartas medíocres, como um par de cinco, o que fazia com que Brian e Lori pensassem que eu recebera ases. Papai também inventava jogos para nós, como o Portanto, no qual fazia duas afirmações e tínhamos de responder a uma pergunta com base naquelas afirmações, ou dizer
“Informação insuficiente para uma conclusão” e explicar por quê.
Quando papai não estava lá, inventávamos nossos próprios jogos. Não tínhamos muitos brinquedos, mas não precisávamos de brinquedos em um lugar como Bat le Mountain. Pegávamos um papelão e transformávamos a estreita escada do depósito em tobogã. Saltávamos do teto do depósito usando um cobertor excedente do exército como paraquedas e dobrávamos as pernas ao tocar no chão, como papai nos ensinara que paraquedistas de verdade faziam. Colocávamos um pedaço de ferro-velho
— ou uma moeda, caso estivéssemos extravagantes — nos trilhos da ferrovia pouco antes de o trem chegar. Depois que o trem passava, com as rodas enormes girando, corríamos para pegar nosso pedaço de metal recém-achatado, quente e brilhante.
A coisa que mais gostávamos de fazer era explorar o deserto. Levantávamos ao amanhecer, minha hora preferida, quando as sombras eram compridas e roxas e ainda tínhamos o dia inteiro pela frente. Às vezes, papai ia conosco, e marchávamos pelos arbustos ao estilo militar, com papai dando ordens cantarolando — upa, dois, três, quatro —, e então parávamos e fazíamos flexões no chão, ou papai estendia o braço para usarmos como barra de exercícios. Na maioria das vezes, no entanto, Brian e eu íamos explorando tudo sozinhos. Aquele deserto era cheio de todo tipo de tesouros impressionantes.
Havíamos nos mudado para Bat le Mountain por causa do ouro na área, mas o deserto também tinha toneladas de outros depósitos minerais. Havia prata, cobre, urânio e barita, que papai dizia serem usados em equipamentos de perfuração de poços de petróleo. Mamãe e papai sabiam dizer que tipo de minerais e minérios havia no terreno pela cor das pedras e da terra e nos ensinaram o que procurar. Ferro ficava nas pedras vermelhas, e cobre, nas verdes. Havia tanta turquesa — pepitas e mesmo grandes pedaços caídos no chão do deserto — que Brian e eu conseguíamos encher os bolsos até o peso praticamente derrubar nossas calças. Também dava para encontrar pontas de flecha, fósseis e garrafas velhas que haviam ficado de um roxo-escuro depois de anos sob o sol escaldante. Era possível encontrar crânios de coiote alvejados pelo sol, cascos de tartaruga vazios, chocalhos e peles descartadas de cascavéis. E grandes sapos que haviam ficado tempo demais sob o sol e acabaram totalmente ressecados e leves como um pedaço de papel.Na noite de domingo, se tivéssemos dinheiro, íamos todos jantar no clube da Coruja. Era um lugar
“mundialmente famoso”, segundo o letreiro, onde uma coruja com chapéu de mestre-cuca apontava para a entrada. De um lado ficava uma sala com filas de caça-níqueis sempre estalando, tilintando e piscando luzes. Mamãe dizia que os jogadores estavam hipnotizados. Papai dizia que eram malditos idiotas.
— Nunca joguem em caça-níqueis — disse-nos papai. — Eles são para idiotas que dependem da sorte.Papai sabia tudo sobre estatísticas e explicou como os cassinos manipulavam as chances contra os jogadores. Quando ele apostava, preferia pôquer e sinuca — jogos de habilidade, não de sorte.
— Quem inventou a frase “o homem tem de jogar com a mão que recebe” quase certamente era um péssimo blefador — falou papai.
O clube da Coruja tinha um bar onde grupos de homens com pescoço queimado de sol bebiam cerveja e fumavam. Todos conheciam papai, e sempre que ele entrava era insultado de modo barulhento e engraçado, que pretendia ser amistoso. “Esta espelunca deve ir para o inferno em uma cesta se deixa entrar tipos lamentáveis como você!”, gritavam.
— Que diabos, minha presença aqui decididamente tem um efeito engrandecedor comparado com esses coiotes sarnentos — gritava papai de volta. Todos jogavam a cabeça para trás, riam e davam tapinhas nas costas uns dos outros.
Sempre nos sentávamos em um dos reservados vermelhos. “Que boas maneiras”, exclamava a garçonete, pois mamãe e papai nos faziam dizer “senhor”, “senhora”, “sim, por favor” e “obrigado”.
— Eles também são inteligentes pra caramba! — declarava papai. — As melhores malditas crianças que já andaram sobre o planeta.
E sorríamos e pedíamos hambúrgueres, cachorros-quentes com chili, milk-shakes e grandes pratos de cebolas que brilhavam com gordura quente. A garçonete levava a comida à mesa e servia os milk-shakes de um recipiente de metal suado para nossos copos. Sempre sobrava um pouco, e ela deixava o recipiente na mesa para que terminássemos.
— Parece que vocês acertaram na loteria e ganharam algo mais — dizia ela, piscando.
Sempre saíamos do clube da Coruja tão empanturrados que mal conseguíamos andar.
— Vamos nos arrastar para casa, crianças! — comandava papai.
A mina de barita onde papai trabalhava tinha um mercado, e todo mês o dono da mina deduzia nossa conta e o aluguel do depósito do pagamento de papai. No começo de cada semana íamos ao mercado e levávamos para casa sacolas e mais sacolas de comida. Mamãe dizia que apenas pessoas que haviam sofrido lavagem cerebral da publicidade compravam comida pronta, como macarrão e congelados. Ela comprava o básico: sacos de farinha ou fubá, leite em pó, cebolas, tomates, sacos de arroz ou feijão-rajado de dez quilos, sal, açúcar, fermento para fazer pão, latas de cavala, um presunto enlatado ou um grande pedaço de mortadela e, de sobremesa, latas de pêssegos em fatias.
Mamãe não cozinhava muito — “Por que passar a tarde preparando uma refeição que acabará em uma hora quando nesse mesmo tempo posso fazer uma pintura que vai durar para sempre?”, nos perguntava —, e uma vez por semana, mais ou menos, ela preparava uma grande panela de ferro com peixe, arroz ou, normalmente, feijão. Todos catávamos o feijão, separando as pedras, depois mamãe deixava de molho à noite, fervia no dia seguinte com um velho osso de presunto para dar sabor, e por toda a semana só tínhamos feijão no café, no almoço e no jantar. Se o feijão começava a estragar, simplesmente colocávamos mais tempero, como os mexicanos nos Apartamentos LBJ sempre faziam.
Comprávamos tanta comida que nunca tínhamos muito dinheiro no dia do pagamento. Certa vez papai ficou devendo onze centavos à mineradora. Ele achou engraçado e disse a eles para colocar na sua conta. Papai quase nunca saía à noite para beber, como costumava fazer antes. Ficava em casa conosco.
Depois do jantar, a família inteira se esticava nos bancos e no chão do depósito e lia, com o dicionário no meio da sala para que nós, crianças, pudéssemos consultar palavras que não conhecíamos. Algumas vezes, eu discutia as definições com papai, e, se não concordássemos com o que os autores do dicionário haviam dito, sentávamos e escrevíamos uma carta aos editores. Eles respondiam defendendo sua posição, o que levava a uma carta ainda mais longa de papai, e se retrucassem novamente, ele também o fazia, até não recebermos mais respostas do pessoal do dicionário.