O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 19 de 71

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O Castelo de Vidro

— Más notícias — disse Lori

— Você está conseguindo, querida! — gritou papai. — Está nadando!

Saí cambaleando da água e me sentei nas pedras calcificadas, o peito arfando. Papai também saiu da água e tentou me abraçar, porém eu não queria nada com ele nem com mamãe, que ficara boiando de costas como se nada estivesse acontecendo, nem com Brian e Lori, que haviam se reunido e me davam parabéns. Papai continuava repetindo que me amava, que nunca me deixaria afogar, mas que não agarrávamos a lateral a vida toda, que a lição que todo pai precisa ensinar ao filho é: “Se não quiser afundar, melhor descobrir como nadar”. Que outra razão, perguntou, ele poderia ter para fazer aquilo?

Assim que recuperei o fôlego, imaginei que ele devia estar certo. Não havia outro jeito de explicar aquilo.

— MÁS NOTÍCIAS — DISSE LORI certo dia quando voltei para casa de uma exploração. — Papai perdeu o emprego.

Papai mantivera aquele emprego por quase seis meses — mais que qualquer outro. Imaginei que Bat le Mountain chegara ao fim e em poucos dias estaríamos na estrada de novo.

— Fico pensando onde vamos morar agora — falei.

Lori sacudiu a cabeça.

— Vamos ficar aqui — disse.

Papai insistira que não perdera o emprego exatamente. Dera um jeito de ser demitido porque queria passar mais tempo procurando ouro. Tinha muitos planos para ganhar dinheiro, explicou, invenções nas quais estava trabalhando, biscates que arrumara. Mas por ora as coisas poderiam ficar um pouco apertadas em casa.

— Todos teremos de ajudar — disse Lori.

Pensei em como poderia contribuir além de recolher garrafas e ferro-velho.

— Vou reduzir o preço das minhas pedras — disse.

Lori parou e baixou os olhos.

— Acho que isso não será suficiente — disse.

— Acho que podemos comer menos — sugeri.

— Já fizemos isso antes — concordou Lori.

NÓS COMEMOS MENOS. Quando perdemos nosso crédito no mercado, ficamos rapidamente sem comida. Algumas vezes papai conseguia um biscate ou ganhava algum dinheiro no jogo, e aí comíamos durante alguns dias. Depois o dinheiro acabava, e a geladeira ficava novamente vazia.

Antes, cada vez que ficávamos sem comida, papai estava sempre lá, cheio de ideias e engenhosidade.

Encontrava no fundo de uma prateleira uma lata de tomates, que todos haviam esquecido, ou saía por uma hora e voltava com uma braçada de legumes — nunca nos dizendo onde os conseguira — e fazia um refogado. Entretanto, ele passou a desaparecer com frequência.

— Onde está papai? — perguntava Maureen o tempo todo. Tinha um ano e meio, e aquelas eram praticamente suas primeiras palavras.

— Está arrumando comida e procurando trabalho — eu dizia. Mas ficava pensando se ele não queria estar por perto a não ser que pudesse cuidar de nós. Eu tentava não reclamar nunca.

Se perguntássemos a mamãe sobre comida — de uma forma descontraída, porque não queríamos criar problemas —, ela simplesmente dava de ombros e dizia que não podia fazer algo a partir de nada.

Nós, filhos, normalmente guardávamos nossa fome para nós mesmos, mas estávamos sempre pensando em comida e como colocar as mãos nela. Na hora do recreio na escola, eu voltava para a sala de aula e encontrava no saco de lanche de alguma criança algo que não seria notado — um pacote de bolachas, uma maçã — e engolia tão rápido que mal conseguia sentir o gosto. Se estivesse brincando no quintal de um amigo, pedia para usar o banheiro e, não havendo ninguém na cozinha, apanhava algo na geladeira ou no armário e levava ao banheiro para comer lá, sempre me preocupando em dar descarga antes de sair.

Brian também estava sempre procurando. Um dia, eu o descobri vomitando atrás de casa. Quis saber como ele podia fazer aquilo, porque não comíamos havia dias. Ele me contou que invadira a casa de um vizinho e roubara um pote de picles de três litros e meio. O vizinho o flagrara, porém em vez de chamar a polícia, obrigou Brian a comer o pote inteiro como punição. Tive de jurar que não contaria a papai.Dois meses depois de papai perder o emprego, ele chegou em casa com um saco de compras: uma

lata de milho, meio galão de leite, um filão de pão, duas latas de presunto condimentado, um saco de açúcar e uma barra de margarina. A lata de milho desapareceu em minutos. Alguém da família a roubou, e ninguém além do ladrão sabia quem era. Mas papai estava ocupado demais fazendo sanduíches de presunto condimentado para iniciar uma investigação. Comemos o máximo que aguentamos naquela noite, engolindo os sanduíches com grandes copos de leite. Quando voltei da escola no dia seguinte, encontrei Lori na cozinha comendo algo de uma xícara com uma colher. Olhei na geladeira. Não havia nada além de meia barra de margarina.

— Lori, o que está comendo?

— Margarina — respondeu.

— Mesmo? — reagi, fazendo careta.

— É. Misture com açúcar. Parece cobertura de bolo.

Eu fiz um pouco. Não tinha gosto de cobertura de bolo. Era meio áspero, porque o açúcar não dissolvia, era gorduroso e deixava uma película em minha boca. Mas comi mesmo assim.

Quando mamãe chegou em casa naquela noite, olhou na geladeira.

— O que aconteceu com a barra de margarina? — perguntou.

— Nós a comemos — respondi.

Mamãe ficou com raiva. Disse que estava guardando para passar no pão. Eu disse que já tínhamos comido todo o pão. Mamãe disse que pensava em assar pão se um vizinho emprestasse um pouco de farinha. Mostrei que a companhia havia cortado nosso gás.

— Bem — disse mamãe. — Deveríamos ter guardado a margarina para o caso de o gás ser religado.

Milagres acontecem, você sabe.

Ela disse que por causa do meu egoísmo e de Lori, se tivéssemos pão iríamos comer sem margarina.

Mamãe dizia coisas sem sentido algum. Fiquei pensando se teria pretendido comer a margarina ela mesma. E isso me fez pensar se fora ela quem roubara a lata de milho na noite anterior, o que me deixou um pouco furiosa.

— Era a única coisa para comer na casa inteira — falei. E, elevando a voz, acrescentei: — Eu estava faminta.

Mamãe me dirigiu um olhar chocado. Eu violara uma de nossas regras não ditas: sempre deveríamos fingir que nossa vida era uma longa aventura inacreditavelmente divertida. Ela ergueu a mão e achei que iria me bater, no entanto sentou-se à mesa de bobina e apoiou a cabeça nos braços. Os ombros começaram a tremer. Fui até lá e toquei em seu braço.

— Mamãe?

Ela arrancou minha mão, e quando ergueu a cabeça o rosto estava inchado e vermelho.

— Não é culpa minha se você está com fome! — gritou. — Não me culpe. Acha que gosto de viver assim? Acha?

Naquela noite, quando papai chegou em casa, ele e mamãe tiveram uma grande briga. Mamãe gritava que estava cansada de levar a culpa por tudo o que dava errado.

— Como isso se tornou problema meu? — berrou. — Por que você não está ajudando? Passa o dia inteiro no clube da Coruja. Age como se não fosse sua responsabilidade.

Papai explicou que estava tentando ganhar dinheiro. Tinha várias perspectivas que estava prestes a realizar. O problema era que precisava de dinheiro para que acontecessem. Havia muito ouro em Bat le Mountain, mas estava preso no minério. Não era como se houvesse pepitas de ouro espalhadas para que o Prospector selecionasse. Ele estava aperfeiçoando uma técnica pela qual o ouro podia ser retirado da

pedra em um processamento com solução de cianeto. Entretanto, isso demandava dinheiro. Papai disse a mamãe que ela tinha de pedir à mãe dinheiro para financiar o processo de lixiviação por cianeto que estava desenvolvendo.

— Você quer que eu implore à minha mãe de novo? — perguntou mamãe.

— Maldição, Rose Mary! Não é como se estivéssemos pedindo uma doação! — berrou ele. — Ela estaria fazendo um investimento. Vovó estava sempre nos emprestando dinheiro, disse mamãe, e ela estava farta daquilo. Mamãe contou a papai que vovó dissera que, se não conseguíamos cuidar de nós mesmos, poderíamos ir morar em Phoenix, na casa dela.

— Talvez devêssemos — disse mamãe.

Isso realmente deixou papai com raiva.

— Está dizendo que não consigo cuidar de minha própria família?

— Pergunte a eles! — retrucou mamãe.

Nós, crianças, estávamos sentadas nos velhos bancos de passageiros. Papai se virou para mim. Eu estudei os arranhões no chão.

A BRIGA DELES continuou na manhã seguinte. Estávamos no térreo deitados em nossas caixas, ouvindo-os brigar no andar de cima. Mamãe falava sobre como as coisas haviam ficado tão desesperadoras em casa que não tínhamos nada para comer a não ser margarina, e que ela também acabara.

Disse estar farta dos sonhos ridículos de papai, de seus planos idiotas e promessas vazias.

Eu me virei para Lori, que lia um livro.

— Diga a eles que gostamos de comer margarina — falei. — Talvez parem de brigar.

Lori sacudiu a cabeça.

— Isso fará mamãe achar que estamos ficando do lado de papai. Só iria piorar. Deixe que resolvam.

Eu sabia que Lori estava certa. A única coisa a fazer quando mamãe e papai brigavam era fingir que não estava acontecendo ou agir como se não importasse. Logo, eles ficariam bem novamente, beijando-se e dançando um nos braços do outro. Mas aquela briga específica não terminava. Depois da margarina, eles começaram a brigar sobre a feiura de alguma pintura que mamãe fizera. Discutiram sobre de quem era a culpa por vivermos daquele jeito. Mamãe disse a papai que ele precisava arrumar outro emprego.

Papai disse que, se mamãe queria alguém na família batendo ponto, ela poderia conseguir um emprego.

Ela tinha diploma de professora, lembrou. Podia trabalhar em vez de passar o dia inteiro sobre o traseiro pintando quadros que ninguém nunca quis comprar.

— Van Gogh também não vendeu nenhuma pintura — disse mamãe. — Sou uma artista!

— Certo — disse papai. — Pare de resmungar. Ou vá oferecer a bunda na Lanterna Verde!

Os gritos de mamãe e papai eram tão altos que dava para ouvi-los no bairro todo. Lori, Brian e eu nos entreolhamos. Brian apontou com a cabeça para a porta da frente, e saímos e começamos a fazer castelos de areia para escorpiões. Imaginamos que se todos ficássemos no jardim agindo como se a briga não fosse nada demais, talvez os vizinhos pensassem o mesmo.

Os gritos continuavam, e os vizinhos começaram a se reunir na rua. Alguns estavam apenas curiosos. Mães e pais tinham brigas o tempo todo em Bat le Mountain, e não parecia nada de mais, mas aquela briga era barulhenta mesmo para os padrões locais, e algumas pessoas achavam que deveriam se meter e acabar com aquilo.

— Ah, vamos deixar que resolvam suas diferenças — disse um dos homens. — Ninguém tem o direito de interferir.

Eles se apoiaram em para-lamas de carros e traves de cercas ou se sentaram em portas de caçamba de picapes, como se estivessem em um rodeio.

De repente, uma das pinturas de mamãe saiu voando por uma das janelas de cima. Depois, foi o cavalete. A multidão abaixo se espalhou para não ser atingida. Depois, os pés de mamãe apareceram na janela, seguidos pelo restante do corpo. Ela estava balançando do segundo andar, as pernas sacudindo violentamente. Papai a segurava pelos braços enquanto ela tentava acertá-lo no rosto.

— Socorro! — berrou mamãe. — Ele está tentando me matar!

— Maldição, Rose Mary, volte para cá! — disse papai.

— Não a machuque! — berrou Lori.

Mamãe balançava de um lado para o outro. Seu vestido de algodão amarelo estava embolado na cintura, e a multidão podia ver sua roupa de baixo branca. Estava meio velha e frouxa, e eu temia que pudesse cair totalmente. Alguns dos adultos gritaram, com medo de que mamãe caísse, mas um grupo de garotos achou que mamãe parecia um chimpanzé balançando em uma árvore e começou a fazer barulhos de macaco, coçar as axilas e rir. O rosto de Brian ficou escuro, e ele cerrou os punhos. Eu também queria socá-los, mas empurrei Brian para trás.

Mamãe sacudia tanto que seus sapatos caíram. Parecia prestes a escorregar das mãos de papai ou puxá-lo pela janela. Lori se virou para mim e Brian.

— Venham.

Corremos para dentro, subimos a escada e seguramos as pernas de papai para que o peso de mamãe não o arrastasse pela janela também. Finalmente, ele puxou mamãe de volta para dentro. Ela desmoronou no chão.