O Castelo de Vidro
Papai passou seis
PAPAI PASSOU SEIS semanas no hospital. A essa altura, ele não apenas derrotara a tuberculose como estava mais sóbrio que em qualquer momento desde a desintoxicação em Phoenix. Ele sabia que se retornasse para a rua, voltaria a beber. Um dos administradores do hospital conseguiu-lhe um emprego na manutenção de um resort no norte do estado, com cama e comida incluídos. Tentou convencer mamãe a ir com ele, mas ela se recusou categoricamente.
— O norte é inculto — disse.
Papai foi sozinho. Ligava de tempos em tempos e parecia ter arrumado uma vida que funcionava para ele. Tinha um apartamento de um quarto sobre uma garagem, gostava de fazer consertos e cuidar da velha construção, adorava estar de volta a pouca distância de terra selvagem e continuava sóbrio. Papai trabalhou no resort por todo o verão e até o outono. Quando começou a esfriar novamente, mamãe ligou para ele e mencionou como era mais fácil duas pessoas se manterem quentes no inverno, e quanto o cão Zumbido sentia sua falta. Em novembro, depois da primeira onda de frio, recebi um telefonema de Brian, dizendo que mamãe conseguira convencer papai a largar o emprego e voltar à cidade.
— Acha que ele vai continuar sóbrio? — perguntei.
— Ele já voltou para o álcool — respondeu Brian.
Algumas semanas depois da volta de papai, eu o vi na casa de Lori. Estava sentado no sofá com um braço em volta de mamãe e uma garrafa na mão. Ele riu.
— Essa maluca da sua mãe, eu não consigo viver com ela, não consigo viver sem ela. E que se dane se ela não sentir a mesma coisa por mim.
NA ÉPOCA, todos nós tínhamos nossa vida. Eu estava na faculdade, Lori se tornara ilustradora em uma editora de quadrinhos, Maureen morava com Lori e fazia o ensino médio, e Brian, que queria ser policial desde que chamara a polícia à nossa casa em Phoenix para interromper uma briga entre mamãe e papai, tornara-se supervisor de um armazém e participava da força auxiliar até ter idade para fazer a prova de ingresso na polícia. Mamãe sugeriu que todos festejássemos o Natal no apartamento de Lori. Comprei uma cruz de prata antiga para mamãe, mas foi mais difícil encontrar um presente para papai; ele sempre dissera não precisar de nada. Como parecia que ia ser outro inverno duro, e papai não usava nada além de sua jaqueta, mesmo no clima mais frio, decidi dar roupas quentes a ele. Comprei em uma loja de excedentes do exército camisas de flanela, roupa de baixo térmica, meias de lã grossas, calça de trabalho azul que mecânicos usam e um novo par de botas com biqueira de aço.
Lori decorou o apartamento com luzes coloridas, galhos de pinheiro e anjos de papel; Brian fez eggnog; e, para mostrar que estava com ótimo comportamento, papai se preocupou muito em garantir que não havia álcool na bebida antes de aceitar um copo. Mamãe distribuiu seus presentes, cada um embrulhado em jornal e amarrado com barbante. Lori ganhou uma luminária rachada que poderia ser da Tiffany; Maureen, uma antiga boneca de porcelana que perdera a maior parte do cabelo; Brian, um livro de poesia do século XIX sem a capa nem as primeiras páginas. Meu presente foi um suéter laranja de gola redonda, levemente manchado, porém, como destacou mamãe, feito de legítima lã de Shetland.
Quando dei a papai minha pilha de caixas cuidadosamente embrulhadas, ele protestou dizendo que não precisava nem queria nada.
— Vá em frente — disse. — Abra.
Observei enquanto ele desembrulhava cuidadosamente. Ergueu as tampas e olhou para as roupas dobradas. Seu rosto ganhou aquela expressão ferida que sempre manifestava quando alguém pagava para
ver seu blefe.