O Castelo de Vidro
Dedicatória
Notas
A John, por me convencer de que todas as pessoas interessantes têm um passado
Escuro é um caminho, e luz é um lugar
Um céu que nunca foi
Nem nunca será é sempre verdade
Dylan Thomas, “Poem on his birthday”
I
Uma mulher na rua
EU ESTAVA SENTADA em um táxi, pensando se teria me arrumado demais para a noite, quando olhei pela janela e vi minha mãe revirando uma caçamba de lixo. Acabara de escurecer. Um tempestuoso vento de março açoitava o vapor que saía dos respiradouros, e as pessoas andavam apressadas pelas calçadas com as golas levantadas. Eu estava presa no congestionamento a dois quarteirões da festa para a qual seguia.Mamãe se encontrava a menos de cinco metros. Tinha trapos amarrados sobre os ombros para protegê-los do frio da primavera e revirava o lixo enquanto seu cachorro, um mestiço terrier preto e branco, brincava a seus pés. Os gestos de mamãe eram muito familiares — o modo como inclinava a cabeça e projetava o lábio inferior ao estudar itens de valor potencial que tirava da caçamba, o jeito como seus olhos se arregalavam com um brilho infantil quando encontrava algo de que gostava. Seus cabelos compridos tinham faixas grisalhas e estavam emaranhados e desgrenhados, e os olhos eram fundos nas órbitas, mas ela ainda lembrava a mãe que havia sido quando eu era criança, saltando de penhascos, pintando no deserto e lendo Shakespeare em voz alta. As maçãs do rosto ainda eram altas e fortes, porém a pele estava manchada e vermelha de todos aqueles invernos e verões exposta ao sol e à neve. Para as pessoas que passavam por ali, ela provavelmente parecia um dos milhares de sem-teto de Nova York.
Meses haviam se passado desde que eu colocara os olhos em mamãe, e quando ela levantou os olhos fui tomada de pânico de que ela me visse e chamasse meu nome, e que alguém a caminho da mesma festa nos visse juntas, que mamãe se apresentasse e meu segredo fosse revelado.
Afundei no assento e pedi ao motorista que desse a volta e me levasse para casa, na Park Avenue.
O táxi parou na frente do meu prédio, o porteiro abriu a porta, e o ascensorista me levou ao meu andar. Meu marido trabalhava até tarde, como na maioria das noites, e o apartamento estava silencioso, a não ser pelo barulho dos meus saltos no assoalho encerado. Continuava abalada por ver mamãe, o inesperado de me deparar com ela, a imagem dela revirando alegremente a caçamba. Coloquei um Vivaldi, esperando que a música me acalmasse.
Olhei ao redor da sala. Lá estavam os vasos de bronze e prata da virada do século e os livros antigos com lombadas de couro gastas que encontrara em mercados de pulga. Lá estavam os mapas antigos que eu emoldurara, os tapetes persas, a poltrona de couro estofada na qual gostava de afundar ao final do dia.
Tentara criar uma casa para mim ali, transformar o apartamento no tipo de lugar onde viveria a pessoa que eu queria ser. No entanto, nunca conseguia desfrutar a sala sem me preocupar com mamãe e papai encolhidos sobre uma grade na calçada de algum lugar. Eu me preocupava com eles, e também ficava constrangida e envergonhada de mim mesma por usar pérolas e morar na Park Avenue enquanto meus pais estavam ocupados se aquecendo e achando algo para comer.
O que eu podia fazer? Tentara ajudá-los inúmeras vezes, mas papai insistia que não precisavam de nada, e mamãe pedia algo bobo, como um vaporizador de perfume ou uma inscrição em uma academia.
Diziam que viviam como queriam.
Depois de me encolher no táxi para que mamãe não me visse, eu me odiei — odiei minhas antiguidades, minhas roupas e meu apartamento. Eu tinha de fazer algo, então telefonei para uma amiga de mamãe e deixei um recado. Era nosso sistema de manter contato. Mamãe sempre demorava alguns dias para ligar de volta, porém quando ouvi sua voz, ela, como sempre, soou animada e relaxada, como se tivéssemos almoçado juntas no dia anterior. Disse que queria vê-la e sugeri que passasse em meu apartamento, mas ela queria ir a um restaurante. Ela adorava comer fora, por isso combinamos almoçar em seu restaurante chinês preferido.
Quando cheguei, mamãe estava sentada em um reservado, estudando o cardápio. Fizera um esforço
para se arrumar. Vestia um suéter cinza volumoso com poucas manchas claras e sapatos masculinos de couro preto. Lavara o rosto, mas o pescoço e as têmporas ainda estavam escuros de sujeira.
Acenou entusiasmada ao me ver.
— Essa é a minha menininha! — gritou.
Beijei-a na bochecha. Mamãe colocara na bolsa todos os sachês de molho de soja, de molho agridoce e de mostarda picante. Depois esvaziou uma tigela de madeira com macarrão seco.
— Uma coisinha para depois — explicou.
Pedimos. Mamãe escolheu Delícia de Frutos do Mar.
— Você sabe que adoro frutos do mar — disse.
Começou a falar sobre Picasso. Tinha visto uma retrospectiva de sua obra e decidira que ele era demasiadamente valorizado. Toda a fase cubista era enganação, no que lhe dizia respeito. Ele não fizera nada de bom depois da fase rosa.
— Estou preocupada com a senhora — falei. — Diga-me o que posso fazer para ajudar.
O sorriso dela murchou.
— O que a faz pensar que preciso de sua ajuda?
— Não sou rica — disse. — Mas tenho algum dinheiro. Diga-me do que precisa.
Ela pensou por um momento.
— Gostaria de um tratamento eletrolítico.
— Fale sério.
— Estou falando sério. Se uma mulher parece bem, sente-se bem.
— Vamos lá, mãe — disse, sentindo meus ombros se contraírem, como sempre acontecia durante essas conversas. — Estou falando de algo que possa ajudá-la a mudar de vida, torná-la melhor.
— Você quer me ajudar a mudar de vida? — perguntou mamãe. — Estou bem. É você quem precisa de ajuda. Seus valores são confusos.
— Mamãe, eu a vi revirando lixo em East Vil age há alguns dias.
— As pessoas neste país desperdiçam demais. É minha forma de reciclar — disse, comendo um pouco de sua Delícia de Frutos do Mar. — Por que não disse “olá”?
— Fiquei envergonhada demais, mãe. Eu me escondi.