O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 12 de 71

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O Castelo de Vidro

No crepúsculo

— Quando o Sol começar a se esgotar e a Terra ficar fria, todos aqui poderão querer se mudar para Vênus para se aquecer. E antes terão de conseguir a permissão de seus descendentes.

Nós rimos de todas aquelas crianças que acreditavam no mito do Papai Noel e não ganhavam no Natal nada além de um punhado de brinquedos de plástico baratos.

— Daqui a anos, quando todo aquele lixo que elas ganharam estiver quebrado e esquecido, vocês ainda terão suas estrelas — disse papai.

NO CREPÚSCULO, tão logo o sol deslizava para trás das montanhas Pálidas, os morcegos saíam e rodopiavam pelo céu acima dos barracos de Midland. A velha que morava ao nosso lado nos avisou que mantivéssemos distância dos morcegos. Ela os chamava de ratos voadores e dizia que um se prendera em seus cabelos certa vez, enlouquecera e enfiara as garras em seu couro cabeludo. Mas eu adorava aqueles morceguinhos feios, o modo como passavam em disparada, as asas, um borrão furioso. Papai explicou que tinham sonares, como aqueles dos submarinos nucleares. Brian e eu jogávamos pedrinhas, esperando que os morcegos achassem que fossem insetos e as comessem, e que o peso das pedras os empurrasse para baixo e pudéssemos ficar com eles como animais de estimação, amarrando um barbante comprido à garra para que ainda conseguissem voar. Eu queria treinar um para ficar de cabeça para baixo no meu dedo. Entretanto, aqueles malditos morcegos eram inteligentes demais para cair em nosso truque.

Os morcegos estavam do lado de fora, dando rasantes e guinchando, quando saímos de Midland para Blythe. Mais cedo, naquele dia, mamãe nos dissera que o bebê decidira que estava grande o bastante para sair logo e se juntar à família. Assim que pegamos a estrada, papai e mamãe começaram uma grande briga sobre com quantos meses de gravidez ela estava. Mamãe disse que eram dez meses. Papai, que naquele mesmo dia consertara a transmissão de alguém e usou o dinheiro que ganhara para comprar uma garrafa de tequila, falou que ela provavelmente perdera a conta em algum momento.

— Eu sempre carrego os filhos por mais tempo que a maioria das mulheres — disse mamãe. —

Lori passou catorze meses no meu ventre.

— Besteira! — exclamou papai. — A não ser que Lori fosse em parte elefante.

— Não deboche de mim na frente dos meus filhos! — gritou mamãe. — Alguns bebês são prematuros. Os meus foram todos pós-maturos. Por isso são tão inteligentes. Seus cérebros tiveram mais tempo para se desenvolver.

Papai falou alguma coisa sobre aberrações da natureza, e mamãe chamou papai de sabe-tudo metido que se recusava a acreditar que ela era especial. Papai falou alguma coisa sobre Jesus Cristo em malditas muletas não demorar tanto tempo para gestar. Mamãe ficou aborrecida com a blasfêmia de papai, passou o pé para o lado do motorista e pisou no freio. Estávamos no meio da noite, e mamãe saiu em disparada do carro e correu para a escuridão.

— Sua vaca maluca! — berrou papai. — Traga seu maldito traseiro de volta para este carro!

— Me obrigue, senhor Durão! — gritou ela enquanto corria.

Papai virou o volante para um lado e saiu da estrada para o deserto atrás dela. Lori, Brian e eu protegemos uns aos outros com os braços, como sempre fazíamos quando papai começava uma caçada maluca que sabíamos que ia ser agitada.

Papai enfiou a cabeça para fora da janela enquanto dirigia, berrando com mamãe, chamando-a de “piranha idiota” e “boceta fedida”, e ordenando que voltasse para o carro. Mamãe se recusava. Estava à nossa frente, entrando e saindo dos arbustos do deserto. Como ela nunca falava palavrões, chamava papai de “coisa-ruim” e “bêbado imprestável”. Papai parou o carro, depois pisou no acelerador e soltou a embreagem. Disparamos na direção de mamãe, que berrou e pulou para fora do caminho. Papai virou e foi atrás dela novamente.

Era noite sem lua, e só conseguíamos ver mamãe quando estava sob a luz dos faróis. Ela continuava olhando por sobre o ombro, os olhos arregalados como os de um animal caçado. Nós, crianças, chorávamos e implorávamos que ele parasse, mas papai nos ignorava. Eu estava mais preocupada com o bebê dentro da barriga inchada de mamãe do que com ela. O carro sacudia em buracos e pedras, arbustos raspando nas laterais e poeira entrando pelas janelas abertas. Papai finalmente encurralou mamãe junto a

umas rochas. Eu tinha medo de que a esmagasse com o carro, mas em vez disso ele saltou e a arrastou de volta, que esperneava, e jogou-a dentro do carro. Saímos sacudindo pelo deserto e chegamos à estrada.

Todos estavam calados, exceto mamãe, que soluçava dizendo que realmente carregara Lori por catorze meses.

MAMÃE E PAPAI fizeram as pazes no dia seguinte, e no final da tarde mamãe estava cortando os cabelos de papai na sala do apartamento que havíamos alugado em Blythe. Ele tirara a camisa e estava sentado em posição invertida em uma cadeira, com a cabeça baixa e os cabelos penteados para a frente.

Mamãe cortava enquanto papai apontava lugares onde ainda estava comprido demais. Quando terminaram, papai penteou os cabelos para trás e anunciou que mamãe fizera um corte infernal.

Nosso apartamento era em um prédio de blocos de cimento com um andar na periferia da cidade.

Tinha uma grande placa de plástico oval azul e branca e um bumerangue que dizia: APARTAMENTOS

LBJ. Eu achava que significava Lori, Brian e Jeannet e, porém mamãe disse que LBJ eram as iniciais do presidente, que, acrescentou, era um escroque e um belicista. Alguns motoristas de caminhão e caubóis tinham quartos nos Apartamentos LBJ, mas a maioria das outras pessoas que viviam lá era de trabalhadores migrantes e suas famílias, e nós os ouvíamos conversando através das finas paredes de placas de gesso. Mamãe dizia que era uma das vantagens de morar nos Apartamentos LBJ, pois conseguiríamos aprender um pouco de espanhol mesmo sem estudar.

Blythe ficava na Califórnia, mas a divisa com o Arizona era a um pulo de distância. As pessoas que moravam ali gostavam de dizer que a cidade ficava a duzentos e quarenta quilômetros a oeste de Phoenix, a quatrocentos quilômetros a leste de Los Angeles, e bem no meio do nada. Sempre diziam isso, como se estivessem se vangloriando.

Mamãe e papai não eram exatamente fascinados por Blythe. Civilizada demais, diziam, e completamente antinatural, já que nenhuma cidade do tamanho de Blythe podia existir no deserto de Mojave. Estava perto do rio Colorado, fundada no século XIX por alguém que imaginou poder enriquecer transformando o deserto em fazenda. Ele cavou uma série de canais de irrigação que traziam água do rio Colorado para produzir alface, uvas e brócolis no meio de cactos e arbustos. Papai ficava revoltado sempre que passávamos por um daqueles campos com canais de irrigação largos como fossos de castelo.

— É uma maldita perversão da natureza. Se você quiser viver em uma fazenda, leve seu traseiro infeliz para a Pensilvânia. Se quiser viver no deserto, coma fruto de cacto, não alface frouxa.

— Isso mesmo — dizia mamãe. — Além disso, o fruto do cacto tem mais vitaminas.

Morar em uma cidade grande como Blythe significava que eu tinha de calçar sapatos. Significava também que tinha de ir à escola.

A escola não era tão ruim. Eu estava na primeira série, e minha professora, a srta. Cook, sempre me escolhia para ler em voz alta quando o diretor ia à sala. Os outros alunos não gostavam muito de mim porque eu era muito alta, branca e magra, e porque sempre erguia a mão rápido demais e acenava furiosamente quando a srta. Cook fazia uma pergunta. Alguns dias depois de ter começado na escola, quatro garotas mexicanas me seguiram até em casa e pularam em cima de mim em um beco perto dos Apartamentos LBJ. Elas me deram uma surra, puxando meu cabelo, rasgando minhas roupas e me chamando de puxa-saco e palito de fósforo.

Cheguei em casa naquela noite com joelhos e cotovelos esfolados e um lábio cortado.

— Parece que você se meteu em uma briga — disse papai. Estava sentado à mesa, desmontando um velho despertador do Brian.

— Só um pequeno desentendimento — falei. Era a palavra que papai sempre usava depois de ter se metido em uma briga.

— Quantos eram?

— Seis — menti.

— Esse lábio cortado está bem? — perguntou.

— Este arranhãozinho? — retruquei. — Deveria ver o que fiz a elas.

— Essa é a minha garota! — disse papai, em seguida voltando ao relógio, mas Brian continuou a olhar para mim.

No dia seguinte, quando cheguei ao beco, as mexicanas estavam esperando por mim. Antes que pudessem atacar, Brian deu um pulo de trás de um grupo de arbustos, agitando um galho de iúca. Brian era mais baixo que eu e igualmente magro, com sardas no nariz e cabelos ruivos alourados que caíam nos olhos. Usava calças que tinham sido minhas, herdadas de Lori e repassadas a ele, e que sempre escorregavam de seu traseiro ossudo.

— Apenas recuem, e todas poderão ir embora com todos os membros — disse Brian. Era outra das frases de papai.

As garotas mexicanas olharam para ele antes de cair na gargalhada. Depois o cercaram. Brian se saiu bastante bem, mantendo-as afastadas até que o galho quebrou. Ele desapareceu sob uma avalanche de punhos brandidos e pés que chutavam. Eu agarrei a maior pedra que consegui encontrar e acertei uma das garotas na cabeça. Pelo tranco em meu braço, achei ter quebrado a cabeça dela. A menina caiu de joelhos.

Uma das amigas me jogou no chão e me chutou no rosto; depois todas saíram correndo, a garota que eu acertara segurando a cabeça enquanto cambaleava.

Brian e eu nos sentamos. O rosto dele estava coberto de areia. Só conseguia ver os olhos azuis espiando e dois pontos de sangue brotando. Quis abraçá-lo, mas isso teria sido estranho demais. Brian se levantou e fez um sinal para que o seguisse. Passamos por um buraco na cerca que ele tinha descoberto naquela manhã e corremos para a fazenda de alface, perto do prédio de apartamentos. Eu o segui pelas fileiras de grandes folhas verdes, e finalmente nos acomodamos para o banquete, enterrando o rosto nas enormes alfaces molhadas e comendo até que a barriga doesse.

— Acho que as assustamos direitinho — disse a ele.

— Eu acho — arriscou ele.

Brian jamais gostara de se vangloriar, porém eu via que estava orgulhoso por ter enfrentado quatro crianças maiores e duronas, mesmo sendo meninas.

— Guerra de alface! — gritou Brian. Ele jogou uma alface comida pela metade sobre mim, como uma granada. Corremos pelas fileiras, arrancando alfaces e jogando-as um contra o outro. Um avião fumigador passou acima de nós. Acenamos quando ele cruzou sobre o campo. Uma nuvem se espalhou atrás do avião, e um pó branco fino caiu sobre nossa cabeça.

DOIS MESES DEPOIS de termos nos mudado para Blythe, quando mamãe dizia estar com doze meses de gravidez, ela finalmente deu à luz. Depois de passar dois dias no hospital, fomos todos de carro pegá-la. Papai nos deixou esperando no carro com o motor funcionando enquanto entrava para pegar mamãe.

Eles saíram correndo, com o braço de papai sobre os ombros de mamãe. Mamãe embalava um fardo no

braço e dava um risinho culpado, como se tivesse roubado um doce de uma mercearia. Imaginei que eles tivessem saído ao estilo Rex Wal s.

— O que é? — perguntou Lori enquanto partíamos em disparada.

— Menina! — disse mamãe.

Mamãe me deu o bebê. Eu faria seis anos em alguns meses, e mamãe disse que eu era suficientemente madura para segurá-lo até em casa. O bebê era rosa e enrugado, mas absolutamente bonito, com grandes olhos azuis, cachos de cabelos louros macios e as menores unhas que eu já tinha visto. Ela se mexia em movimentos irregulares confusos, como se não conseguisse entender por que a barriga de mamãe não estava mais ao redor. Prometi que sempre iria cuidar dela.

O bebê ficou semanas sem nome. Mamãe disse que primeiro queria estudá-lo, assim como fazia com o tema de uma pintura. Tivemos muitas discussões sobre qual deveria ser o nome. Eu queria chamá-la de Rosita, em homenagem à garota mais bonita da minha sala, porém mamãe disse que o nome era mexicano demais.