O Castelo de Vidro
Professores qualificados
O trabalho de mamãe era dar aulas complementares de leitura em uma escola primária de Davy, um acampamento de mineiros de carvão a dezenove quilômetros ao norte de Welch. Como ainda não tínhamos carro, a diretora da escola deu um jeito para que mamãe pegasse carona com outra professora, Lucy Jo Rose, que acabara de se formar na faculdade estadual de Bluefield e era tão gorda que mal cabia atrás do volante de seu Dodge Dart marrom. Lucy Jo, que recebera a ordem da diretora de prestar esse serviço, desgostou instantaneamente de mamãe. Ela se recusava a falar muito durante a viagem, e preferia tocar fitas de Barbara Mandrel e fumar Kools com filtro o tempo todo. Assim que mamãe saltava do carro, Lucy Jo fazia uma grande cena de passar spray Lysol no assento do passageiro. Mamãe sentia que Lucy Jo era lamentavelmente desinformada. Quando mamãe, certa vez, mencionou Jackson Pol ock, Lucy Jo afirmou ter sangue polonês e ainda disse que não gostava que mamãe usasse nomes depreciativos para poloneses.
Mamãe enfrentava os mesmos problemas que tivera em Bat le Mountain para organizar a papelada e disciplinar os alunos. Pelo menos uma manhã por semana, ela tinha um chilique e se recusava a ir trabalhar, e Lori, Brian e eu tínhamos de fazer com que se arrumasse e fosse para a rua, onde Lucy Jo a esperava de cara feia, com a fumaça azul saindo do enferrujado cano de escapamento do Dart.
Mas, pelo menos, tínhamos dinheiro. Era uma boa soma em relação ao que eu ganhava como babá, ao que Brian recebia por cortar a grama dos outros e Lori, por entregar jornais. Agora mamãe recebia cerca de setecentos dólares por mês, e na primeira vez em que vi o contracheque verde acinzentado, com recibo picotado e assinaturas automatizadas, pensei que nossos problemas haviam terminado. Nos dias de pagamento, mamãe nos levava ao grande banco em frente ao tribunal para descontar o cheque. Depois que o caixa dava o dinheiro, mamãe ia para um canto do banco e o enfiava em uma meia que prendera no sutiã com alfinete de segurança. Todos íamos rapidamente à companhia de eletricidade, à de água e ao senhorio, e pagávamos nossas contas com notas de dez e vinte. Os funcionários desviavam os olhos quando mamãe tirava a meia do sutiã, explicando a quem quisesse ouvir que era sua maneira de garantir que nunca seria roubada.
Mamãe comprou aquecedores elétricos e uma geladeira a prestação, e íamos à loja de eletrodomésticos e pagávamos alguns dólares todo mês, calculando que esses produtos seriam nossos quando o inverno chegasse. Mamãe sempre tinha pelo menos uma “extravagância” comprada a prestação, algo de que realmente não precisávamos — uma echarpe de seda com borlas ou um vaso de cristal bisotado —, porque, segundo ela, a melhor forma de se sentir rico era investir em supérfluos de qualidade. Depois disso, íamos à mercearia na base da colina e estocávamos produtos básicos como feijão e açúcar, leite em pó e enlatados. Mamãe sempre comprava as latas amassadas, mesmo que não tivessem desconto, dizendo que elas também precisavam ser amadas.
Em casa, esvaziávamos a bolsa de mamãe no sofá-cama e contávamos o dinheiro que sobrara. Eu achava que devia haver centenas de dólares, mais do que suficiente para cobrir nossas despesas até o final do mês. Mas, a cada mês, o dinheiro desaparecia antes do pagamento seguinte, e mais uma vez eu me via revirando o lixo na escola em busca de comida.
No final de um mês naquele outono, mamãe anunciou que só tínhamos um dólar para o jantar. Isso
era suficiente para comprar um balde de sorvete napolitano, que disse ser não apenas delicioso, mas ter muito cálcio e ser bom para os ossos. Levamos o sorvete para casa, Brian abriu a caixa e cortou o bloco em cinco fatias iguais. Eu reivindiquei ser a primeira a escolher. Mamãe nos disse para saborear, pois não tínhamos dinheiro para a noite seguinte.