O Castelo de Vidro
Alguns dias depois
ALGUNS DIAS DEPOIS de mamãe e papai me levarem para casa, preparei sozinha cachorros-quentes.
Estava com fome, mamãe trabalhava em uma pintura, e não havia mais ninguém para fazê-los por mim.
— Bom para você — disse mamãe quando me viu cozinhando. — Você tem que voltar à rotina.
Não pode viver com medo de uma coisa tão básica quanto o fogo.
Não vivi. Ao contrário, fiquei fascinada por ele. Papai também achava que eu tinha de derrotar meu inimigo e me mostrou como passar o dedo pela chama de uma vela. Fiz isso repetidamente, mais devagar a cada vez, vendo o modo como o dedo parecia cortar a chama pela metade, testando para descobrir quanto meu dedo conseguia suportar sem ficar queimado. Estava sempre procurando fogos maiores.
Sempre que vizinhos queimavam lixo, eu corria e ficava olhando a chama, tentando fugir da lata de lixo.
Eu me aproximava devagar, sentindo o calor sobre o rosto até estar tão perto que se tornava insuportável, e recuava apenas o suficiente para conseguir aguentar.
A vizinha que me levara ao hospital ficou surpresa por eu não correr na direção oposta de qualquer fogo que visse.
— Por que diabos deveria? — berrou papai com um sorriso orgulhoso. — Ela já lutou contra o fogo uma vez e venceu.
Comecei a roubar fósforos de papai. Eu ia para trás do trailer e os acendia. Adorava o som áspero do fósforo sobre a tira de lixa marrom quando o riscava, e o modo como a chama pulava da ponta coberta de vermelho com um estalo e um chiado. Sentia o calor perto da ponta dos dedos, depois o sacudia para apagar, triunfante. Acendia pedaços de papel e pequenas pilhas de arbustos e prendia a respiração até o momento em que pareciam estar descontrolados. Pisava nas chamas e dizia os xingamentos que papai usava, como “Filho da puta idiota!” e “Otário!”.