O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 58 de 71

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O Castelo de Vidro

Certa manhã, três anos

CERTA MANHÃ, TRÊS ANOS depois de ter me mudado para Nova York, eu estava me arrumando para as aulas e escutando o rádio. O locutor falava de um engarrafamento terrível na rodovia de New Jersey. Uma van quebrara, espalhando roupas e móveis por toda a estrada, criando um grande bloqueio.

A polícia estava tentando limpar o caminho, mas um cachorro saltara da van e corria pela estrada enquanto dois policiais o perseguiam. O locutor explorou bem a matéria, falando sobre os caipiras com sua lata-velha e o cachorro latindo que estavam deixando milhares de nova-iorquinos atrasados para o trabalho.

Naquela noite, a psicóloga disse que havia um telefonema para mim.

— Jeannet ezinha! — disse mamãe, em uma voz transbordando de excitação. — Adivinhe só! Papai e eu nos mudamos para Nova York!

A primeira coisa em que pensei foi na van que havia quebrado na rodovia naquela manhã. Quando perguntei isso a mamãe, ela admitiu que sim, ela e papai haviam tido algumas dificuldades técnicas com a van. Alguma correia se partira em uma grande rodovia superlotada, e Zumbido, que estava enjoado e cansado de ficar preso, você sabe como é, conseguira se soltar. Os policiais apareceram, papai tivera uma discussão com eles, que ameaçaram prendê-lo, e isso foi um drama.

— Como você sabia disso? — perguntou.

— Deu no rádio.

— No rádio? — reagiu mamãe, incrédula. — Com tanta coisa no mundo atualmente, uma van velha com problemas é notícia? Acabamos de chegar aqui e já somos famosos — disse, com uma alegria genuína na voz.

Depois de falar com mamãe, olhei ao redor em meu quarto. Era o quarto de empregada junto à cozinha, e pequeno, com uma janela estreita e um banheiro que servia de armário. Mas era meu. Eu tinha um quarto agora e também uma vida, e em nenhum dos dois havia espaço para mamãe e papai.

Ainda assim, no dia seguinte fui ao apartamento de Lori para vê-los. Todos estavam lá. Mamãe e papai me abraçaram. Papai tirou uma garrafa de uísque de um saco de papel enquanto mamãe descrevia suas várias aventuras durante a viagem. Tinham dado um giro pela cidade mais cedo e andado pela primeira vez de metrô, que papai chamou de um maldito buraco no chão. Mamãe disse que os murais art déco do Rockefel er Center eram desapontadores, nem de longe tão bons quanto algumas de suas próprias pinturas. Nenhum dos filhos fazia algum esforço para ajudar na conversa.

— Qual é o plano? — Brian finalmente perguntou. — Estão se mudando para cá?

— Já mudamos — disse mamãe.

— Definitivamente? — perguntei.

— Isso mesmo — respondeu papai.

— Por quê? — perguntei. A pergunta saiu seca.

Papai pareceu confuso, como se a resposta devesse ser óbvia.

— Para podermos ser uma família novamente — disse, e ergueu sua garrafa. — À família.

MAMÃE E PAPAI CONSEGUIRAM um quarto em uma pensão a alguns quarteirões do apartamento de Lori. A senhoria de cabelos prateados os ajudou a mudar, e dois meses depois, quando atrasaram o aluguel, colocou os bens deles na rua e trancou o quarto. Mamãe e papai mudaram para um cortiço de seis andares em um bairro mais decadente. Duraram alguns meses lá, porém, quando papai incendiou seu quarto ao adormecer com um cigarro aceso nas mãos, foram colocados para fora. Brian acreditava que mamãe e papai precisavam ser forçados a ser autossuficientes ou dependeriam de nós para sempre, e se

recusou a ficar com eles. Mas Lori se mudara de South Bronx para um apartamento no mesmo prédio de Brian e deixou que ficassem com ela e Maureen. Seria por apenas uma semana ou duas, mamãe e papai lhe garantiram, no máximo um mês, enquanto se aprumavam e procuravam outro lugar.

Um mês na casa de Lori se transformou em dois meses, depois três e quatro. Cada vez que eu visitava o apartamento, estava mais abarrotado. Mamãe pendurara pinturas nas paredes, empilhara na sala de estar coisas achadas na rua e colocara garrafas coloridas nas janelas para dar o efeito de vitrais. As pilhas chegaram ao teto, depois a sala se encheu, e as coleções e a arte encontrada de mamãe cobriam a cozinha.

Era papai, no entanto, quem realmente dava nos nervos de Lori. Embora não tivesse conseguido trabalho fixo, sempre tinha formas misteriosas de pegar trocados e voltava para casa à noite bêbado, provocando briga. Brian viu que Lori estava prestes a surtar, então convidou papai a morar com ele.

Colocou um cadeado no armário de bebidas, porém papai estava lá havia uma semana quando Brian chegou em casa e descobriu que papai usara uma chave de fenda para soltar a porta das dobradiças e entornara todas as garrafas.

Brian não perdeu o controle. Disse a papai que cometera um erro deixando álcool no apartamento.

Permitiria que papai ficasse, entretanto ele teria de seguir algumas regras, e a primeira delas era parar de beber enquanto estivesse ali.

— Você é o rei do seu castelo e é assim que deve ser — retrucou papai. — Mas o inferno ficará gelado antes que eu me curve ao meu próprio filho.

Ele e mamãe ainda tinham a van branca com a qual tinham vindo da Virgínia Ocidental, e ele começou a dormir nela.

Nesse meio-tempo, Lori dera a mamãe um prazo para limpar o apartamento. Mas o prazo venceu, assim como um segundo e um terceiro. Papai também estava sempre indo visitar mamãe, porém eles tinham brigas tão escandalosas que os vizinhos batiam nas paredes. Papai começou a brigar com eles.

— Eu não aguento mais! — Lori me disse um dia.

— Talvez você tenha de colocar mamãe para fora — falei.

— Mas ela é minha mãe!

— Não importa. Ela está enlouquecendo você.

Lori finalmente concordou. Quase morreu ao dizer a mamãe que teria de partir, chegando a se oferecer para fazer o que pudesse para ajudá-los a se instalar, mas mamãe insistiu que ficaria bem.

— Lori está fazendo a coisa certa — disse-me mamãe. — Às vezes, você precisa de uma pequena crise para ter uma descarga de adrenalina que a ajude a perceber seu potencial.

Mamãe e Zumbido se mudaram para a van com papai. Moraram alguns meses nela, mas um dia a deixaram em uma área de estacionamento proibido. Como a van não era registrada, não a conseguiram de volta. Naquela noite, dormiram em um banco do parque. Agora eram sem-teto.