O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 5 de 71

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O Castelo de Vidro

Alguns meses depois

Uma vez fui lá para trás com meu brinquedo preferido, a boneca de plástico Sininho. Tinha cinco centímetros de altura, cabelos louros presos em um rabo de cavalo alto e as mãos no quadril de um modo confiante e arrogante que eu admirava. Acendi um fósforo e o segurei junto ao rosto de Sininho para mostrar a ela como era. Ela pareceu ainda mais bonita ao brilho da chama. Quando aquele fósforo apagou, acendi outro, e dessa vez o segurei bem perto do rosto de Sininho. De repente, os olhos dela se arregalaram, como que de medo; percebi, horrorizada, que o rosto dela estava começando a derreter.

Apaguei o fósforo, mas era tarde demais. O narizinho antes perfeito de Sininho desaparecera totalmente, e seus lábios vermelhos impertinentes haviam sido substituídos por uma feia mancha distorcida. Tentei alisar seus traços do jeito que eram, porém os deixei ainda piores. Quase imediatamente o rosto esfriou e endureceu novamente. Coloquei curativos nele. Desejei fazer um enxerto de pele em Sininho, mas isso significaria cortá-la em pedaços. Embora seu rosto estivesse derretido, ela ainda era meu brinquedo preferido.

ALGUNS MESES DEPOIS, papai chegou em casa no meio da noite e tirou todos nós da cama.

— Hora de levantar acampamento e deixar este buraco para trás! — berrou.

Ele nos deu quinze minutos para reunir o que precisássemos e entrar no carro.

— Está tudo bem, papai? — perguntei. — Tem alguém atrás de nós?

— Não se preocupe — disse papai. — Deixe isso comigo. Eu não cuidei de você sempre?

— Claro que sim — falei.

— Essa é a minha garota! — disse papai com um abraço, depois rosnou ordens para que todos nos apressássemos.

Ele pegou o essencial — uma grande frigideira preta de ferro fundido e a panela de refogado, alguns pratos de lata excedentes do exército, algumas facas, sua pistola e o arco e flecha de mamãe — e colocou tudo na mala do Ganso Azul. Disse que não deveríamos levar muito mais, só o necessário para sobreviver. Mamãe correu para o quintal e começou a cavar buracos à luz do luar, procurando nosso pote de dinheiro. Esquecera onde o havia enterrado.

Uma hora se passou até que finalmente amarramos as pinturas de mamãe no teto do carro, jogamos no porta-malas o que cabia e empilhamos o restante no banco de trás e no chão do carro. Papai saiu com o Ganso Azul na escuridão, dirigindo lentamente para não alertar ninguém no estacionamento de trailers de que estávamos dando no pé, como papai gostava de dizer. Ele resmungava que não conseguia entender por que diabos demorávamos tanto para apanhar o que precisávamos e arrastar nosso traseiro para o carro. — Papai! — chamei. — Esqueci Sininho!

— Sininho pode cuidar de si mesma — disse papai. — Ela é como minha garotinha corajosa. Você é corajosa e está pronta para aventuras, certo?

— Acho que sim — respondi. Esperei que quem encontrasse Sininho a amasse, apesar do rosto derretido. Para me consolar, tentei abraçar Quixote, nosso gato cinza e branco sem uma orelha, mas ele rosnou e arranhou meu rosto. — Quieto, Quixote! — falei.

— Gatos não gostam de viajar — mamãe explicou.

Qualquer um que não gostasse de viajar não estava convidado para nossa aventura, disse papai. Ele parou o carro, agarrou Quixote pelo pescoço e o jogou pela janela. Quixote pousou com um miado agudo e um baque, papai acelerou pela estrada, e eu caí em lágrimas.

— Não seja tão sentimental — disse mamãe. Ela falou que sempre podíamos conseguir outro gato e que agora Quixote seria um gato selvagem, o que era muito mais divertido do que ser um gato doméstico. Brian, com medo de papai jogar também Juju pela janela, apertou o cachorro com força.

Para tentar nos distrair, mamãe nos fez cantar canções como “Don’t fence me in” e “This land is your land”, e papai nos conduziu por interpretações empolgadas de “Old man river” e sua preferida,

“Swing low, sweet chariot”. Depois de um tempo, eu me esqueci de Quixote, Sininho e dos amigos que deixara para trás no estacionamento de trailers. Papai começou a nos contar sobre todas as coisas excitantes que iríamos fazer e como ficaríamos ricos assim que chegássemos ao novo lugar onde iríamos morar.— Para onde estamos indo, papai? — perguntei.

— Qualquer lugar aonde chegarmos — respondeu.

MAIS TARDE, naquela noite, papai parou o carro no meio do deserto, e dormimos sob as estrelas. Não

tínhamos travesseiros, porém papai disse que isso era parte do plano. Estava nos ensinando a ter uma boa postura. Explicou que os índios também não usavam travesseiros e ficavam empertigados. Tínhamos nossos cobertores esfarrapados do exército, e os estendemos e deitamos lá, olhando para o campo de estrelas. Comentei com Lori como tínhamos sorte de dormir sob o céu como índios.

— Eu poderia viver assim para sempre — falei.