O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 37 de 71

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O Castelo de Vidro

A rua Little Hobart

Mas nem mamãe, nem papai, nem Brian, Lori ou Maureen ficaram impressionados.

— Parte da frente da casa agora é amarela — disse Lori. — Isso realmente vai melhorar as coisas para nós.

Eu teria de terminar o serviço sozinha. Tentei fazer uma escada com pedaços de madeira, mas desmontava sempre que apoiava peso nela. Continuava tentando fazer uma mais resistente quando, durante uma onda de frio alguns dias depois, minha lata de tinta congelou. Quando esquentou o bastante para a tinta degelar, eu abri a lata. Durante o congelamento, as substâncias químicas haviam se separado, e o líquido antes suave estava viscoso e granulado como leite talhado. Mexi com toda a força que tinha e continuei mexendo mesmo depois de saber que a tinta estava estragada, porque também sabia que não conseguiríamos mais usá-la, e em vez de uma casa amarela recém-pintada, ou mesmo uma cinza triste, tínhamos agora um trabalho vagabundo pela metade de aparência esquisita — que anunciava ao mundo que as pessoas dentro da casa queriam dar um jeito nela, mas não tinham disposição para fazer o trabalho.

A RUA LITTLE HOBART levava a um daqueles vales tão profundos e estreitos que as pessoas brincavam que era preciso canalizar a luz do sol. O bairro tinha muitas crianças — Maureen fizera amigos de verdade pela primeira vez —, e todos nós costumávamos passar o tempo no arsenal da Guarda Nacional, no sopé da montanha. Os garotos brincavam de futebol americano no campo de treinamento. A maioria das garotas da minha idade passava as tardes sentada no muro de tijolos que cercava o arsenal, penteando os cabelos, retocando o batom e fingindo se indignar, porém, no fundo, adorando que um reservista de cabelo reco assobiasse para elas. Uma das garotas, Cindy Thompson, fez um esforço especial para ser minha amiga, mas o que ela realmente queria era me recrutar para a Ku Klux Klan júnior. Nem colocar maquiagem, nem vestir um lençol tinham muito apelo para mim, eu jogava futebol com os meninos, que suspendiam a regra de o jogo ser apenas masculino, e eles me deixavam entrar em um time se estivessem com um a menos.

O pessoal mais bem de vida de Welch nunca ia para o nosso lado da cidade. Alguns mineiros moravam ao longo da rua, mas a maioria dos adultos não trabalhava. Algumas das mães não tinham marido, e alguns dos pais estavam com pulmões ruins. O restante estava ou distraído demais pelos próprios problemas ou simplesmente desmotivado, e praticamente todo mundo aceitava de má vontade alguma ajuda pública. Embora fôssemos a família mais pobre da rua Lit le Hobart, mamãe e papai nunca pediram ajuda governamental ou tíquetes de comida, e sempre recusaram caridade. Quando professores nos davam sacolas de roupas de campanhas de igreja, mamãe nos fazia devolver.

— Podemos cuidar de nós mesmos — mamãe e papai gostavam de dizer. — Não aceitamos doações de ninguém.

Quando as coisas ficavam mais apertadas, mamãe continuava a nos lembrar de que algumas das outras crianças da rua Lit le Hobart tinham mais problemas que nós. Os doze garotos Grady não tinham pai — ele morrera em um desabamento de mina ou fugira com uma prostituta, dependendo de quem você escutasse —, e a mãe deles passava os dias de cama com enxaqueca. Como resultado, os garotos Grady eram totalmente selvagens. Era difícil diferenciá-los, pois todos usavam calça jeans e camiseta puída, e mantinham a cabeça raspada para evitar piolhos. Quando o garoto mais velho encontrou a velha escopeta do pai embaixo da cama da mãe, decidiu praticar tiro ao alvo em Brian e em mim, mandando chumbo enquanto tentávamos escapar com vida pela floresta.

E havia também os Hal . Todas as seis crianças Hal tinham nascido retardadas e, embora estivessem na meia-idade, ainda moravam em casa com a mãe e o pai. Quando fiz amizade com o mais velho, Kenny Hal , que tinha 42 anos, ele se apaixonou por mim. Os outros garotos do bairro provocavam Kenny, dizendo que se desse a eles um dólar ou ficasse pelado e batesse uma para eles, marcariam um encontro comigo. Certa noite de sábado, como se tivesse sido armado, ele parou na rua na frente da nossa casa, soluçando e gritando que eu não havia ido ao nosso encontro, e tive de descer e explicar a ele que os outros garotos tinham lhe pregado uma peça e que, embora ele tivesse muitas qualidades admiráveis, eu mantinha uma política de não sair com homens mais velhos.

A família que passava mais dificuldades na rua Lit le Hobart, eu diria, era a dos Pastor. A mãe, Ginnie Sue Pastor, era a piranha da cidade. Ginnie Sue Pastor tinha trinta e cinco anos e tivera oito filhas e um filho. Todos os nomes terminavam com “y”. O marido, Clarence Pastor, tinha pulmão fibroso e passava o dia inteiro sentado na varanda da frente de sua enorme casa inclinada, mas nunca sorria nem acenava para os passantes. Ficava apenas sentado ali, como que congelado. Todos na cidade diziam que era impotente havia anos, e nenhum dos garotos Pastor era dele.

Ginnie Sue Pastor basicamente cuidava da própria vida. Eu, no início, fiquei pensando se ela usava

négligé rendado o dia todo, se fumava cigarros e esperava chamadas de cavalheiros. Em Bat le Mountain, as mulheres que faziam hora na varanda da frente da Lanterna Verde — havia muito eu descobrira o que realmente faziam — usavam batom branco, rímel preto e blusas parcialmente desabotoadas, que mostravam o alto dos sutiãs. Mas Ginnie Sue Pastor não parecia uma piranha. Era uma mulher desmazelada com cabelos tingidos de louro, e de tempos em tempos a víamos no pátio da frente cortando madeira ou enchendo um balde na pilha de carvão. Normalmente, vestia o mesmo tipo de aventais e casacos rurais de lona usados pelo restante das mulheres da rua Lit le Hobart. Parecia com as outras mães.

Eu pensava em como Ginnie Sue podia se prostituir tendo de cuidar de todas aquelas crianças. Certa noite, vi um carro parar na frente da casa dos Pastor e piscar os faróis duas vezes. Depois de um minuto, Ginnie Sue passou pela porta correndo e instalou-se no banco da frente. O carro partiu em seguida.

Kathy era a filha mais velha de Ginnie Sue Pastor. As outras crianças a tratavam como pária, guinchando que a mãe era uma “puta” e chamando-a de “piolhenta”. Verdade que ela tinha um caso bem avançado de infestação de piolhos. Estava sempre tentando ser minha amiga. Certa tarde, voltando da escola, ela ficou com os olhos iluminados quando lhe contei que tínhamos morado na Califórnia. Disse que a mãe sempre quisera ir lá. Perguntou se eu podia ir à sua casa e contar à sua mãe sobre a vida na Califórnia.

Claro que fui. Nunca entrara na Lanterna Verde, mas agora iria ver de perto uma prostituta de verdade. Havia muitas coisas que desejava saber: a prostituição dava dinheiro fácil? Alguma vez foi divertido, ou apenas grosseiro? Kathy, suas irmãs e seu pai sabiam que Ginnie Sue Pastor era piranha? O

que achavam disso? Eu não planejava fazer essas perguntas assim, porém achava que entrando na casa dos Pastor, e conhecendo Ginnie Sue, eu poderia ter alguma ideia das respostas.

Clarence Pastor, sentado na varanda, ignorou Kathy e a mim quando passamos. Lá dentro havia todos aqueles pequenos cômodos unidos como vagões. Em função do modo como a casa estava apoiada em uma encosta erodida, pisos, tetos e janelas se inclinavam em ângulos diferentes. Não havia pinturas nas paredes, mas os Pastor haviam colado fotografias de mulheres bem-vestidas em catálogos da Sears Roebuck.

As irmãzinhas de Kathy corriam por toda parte ruidosamente, seminuas. Nenhuma delas parecia uma com a outra; uma era ruiva, outra loura, uma terceira tinha cabelos pretos, e havia todos os diferentes tons de castanho. Sweet Man, o mais novo, engatinhava pelo chão da sala de estar, chupando um picles gordo.

Ginnie Sue Pastor estava sentada à mesa da cozinha. Junto ao cotovelo dela havia a carcaça de um grande e caro frango, do tipo que mal podíamos comprar. Tinha um rosto cansado e enrugado, mas seu sorriso era amplo e alegre.

— Prazer em conhecê-la — disse, limpando as mãos nas fraldas da camisa. — Não costumamos receber visitas.

Ginnie Sue nos ofereceu lugares à mesa. Tinha seios pesados que balançavam quando se movia, e os cabelos louros estavam escuros na raiz.

— Vocês me ajudam com esta ave, e eu faço para vocês dois enrolados de frango especiais de Ginnie Sue — falou, depois virou-se para mim. — Sabe limpar um frango?

— Certamente — respondi. Eu não comera nada o dia todo.

— Bem, me mostre — disse Ginnie Sue.

Primeiro peguei uma asa, separando os ossos duplos finos e arrancando toda a carne presa ali.

Depois comecei a trabalhar nos ossos da coxa, soltando-os das articulações, tirando tendões e cavando o tutano. Kathy e Ginnie também trabalhavam na ave, mas logo pararam para me observar. Tirei do rabo

aquele belo pedaço de carne que todos esquecem. Virei a carcaça de cabeça para baixo e raspei toda a gordura gelatinosa e os restos de carne com as unhas. Enfiei o braço até o cotovelo na ave, para cavar qualquer carne que houvesse nas costelas.

— Garota, em todos os meus anos eu nunca vi ninguém limpar um frango como você — disse Ginnie Sue.

Ergui a cartilagem em forma de lança do osso do peito, que a maioria das pessoas não come, e a mordi com um estalo satisfeito. Ginnie Sue raspou a carne para uma tigela, misturou-a com maionese e requeijão, depois esmagou um punhado de batatas fritas e as acrescentou. Espalhou a mistura em duas fatias de pão de fôrma, enrolou-as como um cilindro e nos deu.

— Pássaros num cobertor — disse. O gosto era ótimo.

— Mamãe, Jeannet e morou na Califórnia — disse Kathy.

— É mesmo? — falou Ginnie Sue. — Morar na Califórnia e ser comissária de bordo era meu sonho — disse, suspirando. — Nunca fui além de Bluefield.

Contei a ela e a Kathy sobre a vida na Califórnia. Logo ficou claro que não tinham interesse em cidades mineiras do deserto, então falei sobre San Francisco e depois sobre Las Vegas, que não era na Califórnia, mas elas aparentemente não se importaram. Fiz os dias que passamos lá se transformarem em anos, e as coristas que vira a distância parecerem amigas íntimas e vizinhas. Descrevi os cassinos brilhantes e os grandes apostadores, as palmeiras e as piscinas, os hotéis com ar-condicionado gelado e os restaurantes onde garçonetes de luvas brancas compridas acendiam sobremesas flamejantes.

— Não pode ser melhor que isso! — exclamou Ginnie Sue.

— Não, senhora, certamente não pode — falei.

Sweet Man entrou chorando, e Ginnie Sue o pegou e o deixou chupar um pouco de maionese de seu dedo.— Trabalhou bem naquele frango — Ginnie Sue me disse. — Você me parece o tipo de garota que um dia vai comer quanto quiser de frango assado e aquelas sobremesas em chamas — disse, e piscou.

Só a caminho de casa me dei conta de que não conseguira respostas para minhas perguntas.