O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 22 de 71

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O Castelo de Vidro

Algumas pessoas gostavam

Brian desgostara tanto de Ginger que me dei conta de que ela devia ter feito algo mais que confiscar sua revista. Fiquei pensando se ele havia descoberto algo sobre Ginger e as outras damas da Lanterna Verde. Talvez soubesse por que mamãe dizia que eram más. Talvez por isso ele estivesse furioso.

— Você descobriu o que elas fazem na Lanterna Verde? — perguntei.

Brian olhou diretamente à frente. Tentei descobrir para o que estava olhando, porém não havia nada lá além das montanhas Tuscarora se erguendo para encontrar o céu que escurecia. Então ele balançou a cabeça.— Ela ganha muito dinheiro e podia comprar sua própria maldita revistinha — disse.

ALGUMAS PESSOAS GOSTAVAM de debochar de Bat le Mountain. Um grande jornal fez, um dia, um concurso para descobrir a cidade mais feia, triste e esquecida por Deus em todo o país, e declarou Bat le Mountain como vencedora. As pessoas que viviam ali também não a tinham em alta conta.

Apontavam para o grande letreiro amarelo e vermelho no alto de um poste no posto Shel — aquele com o “S” queimado — e diziam com uma espécie de orgulho perverso: “É, é onde moramos: hel , o inferno!”.

Entretanto, eu era feliz em Bat le Mountain. Estávamos lá havia quase um ano, e eu a considerava um lar — o primeiro lar de verdade de que me lembrava. Papai estava prestes a aperfeiçoar seu processo de extrair ouro com cianeto, Brian e eu tínhamos o deserto, Lori e mamãe pintavam e liam juntas, e Maureen, que tinha cabelos louro-claros sedosos e todo um bando de amigos imaginários, era feliz correndo sem fraldas. Eu achava que nossos dias de fazer malas e partir no meio da noite haviam acabado.

POUCO DEPOIS DE meu aniversário de oito anos, Bil y Deel e seu pai se mudaram para os Trilhos.

Bil y era três anos mais velho que eu, alto e magrelo com cabelos louros escovinha e olhos azuis. Mas não era bonito. Uma coisa sobre Bil y era que tinha a cabeça torta. Bertha Pé Branco, uma meio-índia que morava em um barraco perto do depósito e tinha cinquenta cachorros atrás de cercas em seu quintal, disse que era porque a mãe de Bil y não o tinha virado quando bebê. Ele ficava na mesma posição noite e dia, e o lado de sua cabeça virado para o colchão ficou um pouco achatado. Não era visível a não ser que se olhasse diretamente para ela, e não muitas pessoas faziam isso, porque Bil y estava sempre se mexendo como se fosse nervoso. Guardava seus cigarros Marlboro enrolados na manga da camiseta e os acendia com um isqueiro Zippo com o retrato de uma dama nua curvada.

Bil y morava com o pai em uma casa feita de papel alcatroado e zinco corrugado, descendo os trilhos a partir de nossa casa. Ele nunca mencionava a mãe e deixava claro que ninguém deveria tocar no assunto, portanto eu nunca soube se fora embora ou morrera. O pai trabalhava na mina de barita e passava as noites no clube da Coruja, de modo que Bil y tinha muito tempo livre à disposição.

Bertha Pé Branco passou a chamar Bil y de “o diabo de cabelo escovinha” e “o terror dos Trilhos”.

Alegou que incendiara dois de seus cachorros, esfolara alguns gatos do bairro e pendurara seus corpos rosados nus em uma corda para fazer carne-seca. Bil y disse que Bertha era uma grande mentirosa gorda.

Eu não sabia em quem acreditar. Afinal, Bil y era um DJ certificado — um delinquente juvenil. Ele nos contou que cumprira pena em um centro prisional em Reno por roubo a loja e por danificar carros. Pouco depois de se mudar para os Trilhos, Bil y começou a me seguir. Estava sempre olhando para mim e contando aos outros garotos que era meu namorado.

— Não é, não! — eu gritava, embora secretamente gostasse de ele querer ser.

Alguns meses depois de ter se mudado para a cidade, Bil y disse que queria me mostrar algo realmente engraçado.

— Se for um gato esfolado, eu não quero ver — falei.

— Não, não é nada assim. É realmente engraçado. Você vai cair na gargalhada. Prometo. A não ser que tenha medo.

— Claro que não tenho medo — falei.

A coisa engraçada que Bil y queria me mostrar estava em sua casa, que por dentro era escura e cheirava a mijo, e ainda mais bagunçada que a nossa, embora de modo diferente. Nossa casa era cheia de

coisas: papéis, livros, ferramentas, madeira, pinturas, material artístico e estátuas da Vênus de Milo pintadas em cores diferentes. Quase não havia nada na casa de Bil y. Nenhuma mobília. Nem mesmo mesas de bobinas de madeira. Era apenas um cômodo com dois cobertores no chão junto a uma TV. Não havia nada nas paredes, nem uma única pintura ou um desenho. Uma lâmpada nua pendia do teto, junto a três ou quatro tiras espirais de papel pega-mosca penduradas, tão cheias de moscas que não dava para ver a superfície amarela grudenta por baixo delas. Latas de cerveja e garrafas de uísque vazias e algumas latas de salsichas Viena comidas pela metade cobriam o chão. Em um dos colchões, o pai de Bil y roncava irregularmente. A boca estava aberta, e moscas se reuniam na barba por fazer. Uma mancha úmida escurecia a calça dele perto dos joelhos. O zíper estava aberto e o pênis repugnante pendia para um lado.

Olhei em silêncio, depois perguntei:

— Cadê a coisa engraçada?

— Não está vendo? — perguntou Bil y, apontando para o pai. — Ele se mijou! — disse, começando a rir. Senti o rosto quente.

— Você não devia rir do próprio pai — falei. — Nunca.

— Ah, vamos lá, não seja tão metida comigo — disse Bil y. — Não finja que é melhor que eu.

Porque sei que seu pai não passa de um bêbado como o meu.

Odiei Bil y naquele momento. Realmente odiei. Pensei em contar a ele sobre números binários, o Castelo de Vidro, Vênus e todas as coisas que tornavam meu pai especial e completamente diferente do pai dele, mas sabia que Bil y não entenderia. Comecei a correr para fora da casa, entretanto parei e me virei.

— Meu pai não é nem um pouco como o seu! — gritei. — Quando meu pai apaga, ele nunca se mija!

DURANTE O JANTAR naquela noite comecei a contar a todos sobre o pai repulsivo de Bil y Deel e o buraco feio em que viviam.

Mamãe pousou o garfo.

— Jeannet e, estou desapontada com você — disse. — Deveria demonstrar maior compaixão.

— Por quê? — retruquei. — Ele é mau. É um DJ.

— Nenhuma criança nasce delinquente — disse mamãe. — Elas só ficam assim se ninguém as amou quando crianças. Crianças sem amor crescem e se transformam em assassinos em série ou alcoólatras. —

Mamãe olhou claramente para papai e depois para mim e disse que eu deveria tentar ser mais gentil com Bil y. — Ele não teve todas as vantagens que vocês tiveram.

NA VEZ SEGUINTE em que vi Bil y, disse a ele que seria sua amiga — mas não sua namorada — se prometesse não debochar do pai de ninguém. Bil y prometeu. Continuou, porém, tentando ser meu namorado. Disse que se fosse sua namorada, sempre iria me proteger e garantir que nada de ruim acontecesse comigo e me daria presentes caros. Se não fosse sua namorada, falou, eu lamentaria. Eu disse que se não queria ser apenas amigo, tudo bem para mim, não tinha medo dele.

Depois de mais ou menos uma semana, eu estava com outros garotos dos Trilhos vendo lixo queimar em uma grande lata enferrujada. Todos jogavam pedaços de arbusto para manter o fogo, além de pedaços de pneu, e aplaudimos a densa fumaça negra que fazia nosso nariz arder ao passar por nós.

Bil y apareceu e puxou meu braço, levando-me para longe dos outros. Enfiou a mão no bolso e

tirou um anel de turquesa e prata.

— É para você — disse.

Eu o peguei e rolei na mão. Mamãe tinha uma coleção de joias indígenas de turquesa e prata que mantinha na casa de vovó para que papai não empenhasse. A maioria era antiga e muito valiosa — um homem de um museu de Phoenix estava sempre tentando comprar peças dela —, e quando visitávamos vovó, mamãe deixava que Lori e eu colocássemos os pesados colares, braceletes e cintos de concha. O

anel de Bil y parecia um de mamãe. Passei o anel sobre o dente e a língua, como mamãe me ensinara. Pude constatar, pelo gosto levemente amargo, que era prata de verdade.

— Onde conseguiu isto?

— Era da minha mãe — disse Bil y.

Certamente, um bonito anel. Uma tira fina simples e uma turquesa azul oval mantida no lugar por suportes de prata coleantes. Eu não tinha joia nenhuma, e fazia muito tempo que ninguém me dava um presente, além do planeta Vênus.

Experimentei o anel. Era grande demais para meu dedo, mas podia enrolar um barbante nele, como as garotas do ensino médio faziam quando queriam usar os anéis dos namorados. Tinha medo, no entanto, de que se ficasse com o anel Bil y pudesse começar a achar que concordara em ser sua namorada.

Contaria aos outros garotos, e se eu dissesse que não era verdade ele apontaria para o anel. Imaginei que mamãe aprovaria, já que aceitar o anel faria Bil y se sentir bem com ele mesmo. Decidi tentar uma solução.

— Vou aceitar — disse. — Mas não vou usar.

O sorriso tomou o rosto de Bil y.

— Mas não pense que isso significa que somos namorados. E não pense que isso significa que pode me beijar.

NÃO CONTEI A NINGUÉM sobre o anel, nem mesmo a Brian. Eu o mantinha no bolso da calça durante o dia, e à noite escondia-o no fundo da caixa de papelão onde guardava minhas roupas.

Mas Bil y Deel tinha de abrir a boca sobre me dar o anel. Começou a contar às outras crianças coisas do tipo “assim que tivesse idade suficiente, ele e eu iríamos nos casar”. Quando descobri o que estava dizendo, soube que aceitar o anel havia sido um grande erro. Também soube que tinha de devolvê-lo.

Mas não devolvi. Eu até queria, e toda manhã o colocava no bolso com a intenção de devolvê-lo, porém não consegui fazer isso. Aquele anel era bonito demais.

Algumas semanas depois, eu estava brincando de esconde-esconde ao longo dos trilhos com algumas crianças do bairro. Encontrei o esconderijo perfeito, um pequeno barracão de ferramentas atrás de um arbusto onde ninguém havia se escondido antes. Mas tão logo o garoto que ia procurar acabara de contar, a porta se abriu, e mais alguém tentou entrar. Era Bil y Deel. Ele nem sequer estava brincando conosco.

— Você não pode se esconder comigo — sussurrei. — Precisa encontrar seu próprio lugar.

— Tarde demais — disse. — A contagem está quase terminando.

Bil y engatinhou para dentro. O barracão era pequeno, com espaço apenas para uma pessoa agachada. Eu não ia dizer isso, mas estar tão perto de Bil y me assustava.

— Está apertado demais — sussurrei. — Você tem de sair.

— Não — disse Bil y. — Nós cabemos.

Ele ajeitou as pernas de modo a ficarem apertando as minhas. Estávamos tão perto que eu podia

sentir o hálito dele no meu rosto.

— Está apertado demais — repeti. — E você está respirando em mim.

Ele fingiu não me ouvir.

— Você sabe o que fazem na Lanterna Verde, não sabe?

Eu podia ouvir os gritos abafados dos outros garotos sendo caçados. Desejei não ter escolhido um esconderijo tão bom.

— Claro — respondi.

— O quê?

— As mulheres são legais com os homens.

— Mas o que elas fazem? — perguntou e fez uma pausa. — Está vendo? Você não sabe.

— Eu sei — retruquei.

— Quer que eu lhe conte?

— Quero que você encontre outro esconderijo.

— Elas começam beijando — disse. — Já beijou alguém?

Sob os finos raios de luz que penetravam pelas frestas nas laterais do barracão pude ver os anéis de sujeira no pescoço magro dele.

— Claro que sim. Muitas vezes.

— Quem?

— Meu pai.

— Seu pai não conta. Alguém de fora da família. E de olhos fechados. Só conta se os olhos estiverem fechados.

Disse a Bil y que era a coisa mais burra que já tinha ouvido. Com os olhos fechados, não se pode ver quem está beijando.

Bil y disse que havia um monte de coisas sobre homens e mulheres que eu não sabia. Disse que alguns homens enfiavam facas nas mulheres enquanto as beijavam, especialmente se as mulheres estivessem sendo más e não quisessem ser beijadas. Mas disse que nunca faria isso comigo. Colocou o rosto junto ao meu.

— Feche os olhos — falou.

— De jeito nenhum — respondi.

Bil y apertou o rosto sobre o meu, depois agarrou meus cabelos, puxou minha cabeça de lado e enfiou a língua na minha boca. Era viscosa e repulsiva, mas quando tentei me afastar, ele empurrou seu corpo em minha direção. Quanto mais me afastava, mais ele apertava, até estar em cima de mim e eu sentir os dedos dele puxando meu short. Com a outra mão, ele desabotoava a própria calça. Para detê-lo, coloquei minha mão lá embaixo e quando o toquei soube o que era, embora nunca tivesse tocado um antes.Não podia dar uma joelhada nele como papai me ensinara a fazer se um cara pulasse em cima de mim, porque meus joelhos estavam do lado de fora das pernas dele, e o mordi na orelha com força. Deve ter doído, pois ele berrou e socou meu rosto. Sangue começou a escorrer do meu nariz.

Os outros garotos ouviram o tumulto e vieram correndo. Um deles abriu a porta do barracão, e Bil y e eu saímos, ajeitando as roupas.

— Eu beijei Jeannet e — berrou Bil y.

— Não beijou! — reagi. — Ele é um mentiroso. Nós brigamos, só isso.

Ele era um mentiroso, disse a mim mesma o resto do dia. Eu realmente não o beijara, ou pelo menos

não considerava assim. Meus olhos ficaram abertos o tempo todo.

NO DIA SEGUINTE, levei o anel à casa de Bil y Deel. Eu o encontrei nos fundos, sentado em um carro abandonado. A tinta vermelha havia sido desbotada pelo sol do deserto e se tornado laranja ao longo dos arremates enferrujados. Os pneus haviam murchado muito tempo antes, e o revestimento preto do teto descascava. Bil y estava sentado ao volante, fazendo barulhos de motor com a garganta e fingindo operar uma alavanca de câmbio fantasma.

Fiquei em pé perto dele, esperando que me reconhecesse. Ele não fez isso, então falei primeiro:

— Não quero ser sua amiga. E não quero mais seu anel.

— Não ligo — disse ele. — E também não o quero.

Ele continuou olhando para a frente através do para-brisa quebrado, eu enfiei a mão pela janela aberta, larguei o anel no colo dele, me virei e fui embora. Ouvi um estalo e o barulho da porta do carro se abrindo e fechando atrás de mim. Continuei andando. Depois, senti uma pontada atrás da cabeça, como se uma pedrinha tivesse me acertado. Bil y tinha jogado o anel em mim. Continuei a andar.

— Quer saber? — gritou Bil y. — Eu estuprei você!

Eu me virei e o vi em pé junto ao carro, parecendo ferido e raivoso, porém não tão alto quanto de hábito. Procurei algo rude para retrucar, mas como não sabia o significado de “estupro”, tudo em que consegui pensar foi:

— Grande coisa!

Em casa, procurei a palavra no dicionário. Depois, procurei as palavras que a explicavam, e embora ainda não conseguisse entender totalmente, sabia que não era bom. Em geral, quando não compreendia uma palavra, eu perguntava a papai, e líamos a definição juntos e discutíamos. Não queria fazer aquilo.

Tinha um palpite de que causaria problemas.

NO DIA SEGUINTE, Lori, Brian e eu estávamos sentados em uma das mesas de bobina no depósito, jogando pôquer fechado e cuidando de Maureen enquanto mamãe e papai passavam um tempo no clube da Coruja. Ouvimos Bil y Deel do lado de fora chamando meu nome. Lori olhou para mim, e balancei a cabeça. Voltamos para o jogo, mas Bil y continuou, Lori foi à varanda, a antiga plataforma onde as pessoas costumavam embarcar, e mandou Bil y embora. Ela voltou e disse:

— Ele está armado.

Lori pegou Maureen. Uma das janelas se estilhaçou, e Bil y apareceu emoldurado por ela. Usou a coronha do rifle para arrancar o resto do vidro, depois apontou o cano para dentro.

— É só uma arma de chumbinho — disse Brian.

— Eu disse que você ia lamentar — falou Bil y, e apertou o gatilho. Pareceu que uma vespa tinha me picado nas costelas. Bil y começou a atirar em todos, movendo o mecanismo de pressão rapidamente para a frente e para trás antes de cada disparo. Brian virou a mesa de bobina, e todos nos agachamos atrás dela. Os chumbinhos acertavam a mesa. Maureen uivava. Eu me virei para Lori, que era a mais velha e estava no comando. Ela mordia o lábio inferior, pensando. Passou Maureen para mim e saiu correndo pela sala. Bil y a acertou uma ou duas vezes — Brian se levantou para tentar atrair o fogo —, mas ela conseguiu chegar ao segundo andar. Depois voltou. Estava com o revólver de papai e o apontou para

Bil y.— Isso é só um brinquedo — disse Bil y, mas a voz estava um pouco trêmula.

— É bem real! — gritei. — É a arma do meu pai!

— Se for, ela não tem cojones para usar — desafiou.

— Experimente — disse Lori.

— Prossiga. Atire e veja o que acontece — falou Bil y.

Lori não atirava tão bem quanto eu, porém apontou a arma na direção de Bil y e puxou o gatilho.

Apertei os olhos com o disparo, e quando os abri, Bil y havia desaparecido.

Corremos todos para fora, pensando que o corpo encharcado de sangue de Bil y estaria caído no chão, mas ele se agachara sob a janela. Quando nos viu, saiu em disparada pela rua ao longo dos trilhos.

Estava a uns cinquenta metros de nós e começou a atirar novamente com a arma de chumbinho.

Arranquei o revólver da mão de Lori, apontei para baixo e apertei o gatilho. Estava excitada demais para segurar a arma do modo como papai ensinara, e o coice quase arrancou meu ombro do encaixe. A terra voou a pouca distância diante de Bil y. Ele saltou no ar, o que pareceu um metro, e saiu em disparada pelos trilhos.

Todos começamos a rir, mas só pareceu engraçado por um ou dois segundos, depois ficamos em pé ali, nos entreolhando em silêncio. Eu me dei conta de que minha mão tremia tanto que mal conseguia segurar a arma.

POUCO TEMPO DEPOIS, um carro de polícia parou na frente do depósito, e mamãe e papai saltaram.

Os rostos estavam sérios. Um policial também saltou e caminhou com eles até a porta. Estávamos todos sentados nos bancos do lado de dentro, com expressões educadas e respeitosas. O policial olhou para cada um, como se estivesse contando. Cruzei as mãos no colo para mostrar como era bem-comportada.

Papai acocorou-se diante de nós, um joelho no chão, os braços cruzados sobre o outro joelho, ao estilo caubói.

— O que aconteceu aqui? — perguntou.

— Foi defesa pessoal — respondi. Papai sempre dizia que defesa pessoal era uma razão justificável para atirar em alguém.

— Entendo — disse papai.

O policial nos contou que alguns vizinhos tinham dito ver crianças atirando umas nas outras e queria saber o que acontecera. Tentamos explicar que Bil y havia começado, que havíamos sido provocados e estávamos nos defendendo, e nem sequer tínhamos apontado para matar, mas o guarda não estava interessado nas sutilezas da situação. Disse a papai que a família inteira teria de ir ao tribunal na manhã seguinte para resolver a situação e decidir quais medidas precisariam ser tomadas.

— Seremos presos? — perguntou Brian ao policial.

— Isso depende do juiz — respondeu ele.

Naquela noite, mamãe e papai passaram muito tempo no andar de cima, conversando em voz baixa enquanto ficávamos em nossas caixas. Finalmente, tarde da noite, eles desceram, a expressão bem séria.

— Vamos para Phoenix — disse papai.

— Quando? — perguntei.

— Esta noite.

PAPAI PERMITIU QUE cada um de nós levasse apenas uma coisa. Eu corri para fora com um saco de papel para reunir minhas pedras preferidas. Quando voltei, segurando o saco pesado por baixo para que não rasgasse, papai e Brian estavam discutindo por causa da lanterna de abóbora cheia de soldados do exército de plástico verde que Brian queria levar.

— Você está levando brinquedos? — perguntou papai.

— O senhor disse que eu podia levar uma coisa, e esta é a minha coisa — disse Brian.

— Esta é a minha coisa — falei, erguendo o saco.