O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 33 de 71

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O Castelo de Vidro

Quando todos chegamos

Isso pareceu dar a ela a licença de que precisava. Ela me empurrou no peito, e caí para trás. Tentei me levantar, mas as três garotas começaram a me chutar. Rolei para uma poça, gritando para que parassem e reagindo aos pés que vinham de todos os lados. As outras garotas haviam fechado um círculo ao redor de nós, e nenhum dos professores conseguia ver o que acontecia. Não havia como deter aquelas garotas até que se cansassem.

QUANDO TODOS CHEGAMOS em casa naquela tarde, mamãe e papai estavam ansiosos para saber de nosso primeiro dia.

— Foi bom — eu disse. Não queria contar a verdade a mamãe. Não estava com disposição para ouvir um de seus discursos sobre o poder do pensamento positivo.

— Está vendo? — falou ela. — Eu disse que você iria se encaixar.

Brian evitou as perguntas de mamãe e papai, e Lori não quis falar do seu dia de modo algum.

— Como foram as outras crianças? — perguntei-lhe mais tarde.

— Tudo bem — disse ela, mas se virou, e esse foi o fim da conversa.

O BULLYING CONTINUOU todos os dias durante semanas. A garota alta, que se chamava Dinitia Hewit , me olhava com seu sorriso enquanto todos esperávamos no playground asfaltado pelo começo das aulas. Durante o almoço, eu comia meus sanduíches de banha com lentidão paralítica, porém mais cedo ou mais tarde o zelador começava a colocar as cadeiras sobre as mesas. Eu ia para fora tentando manter a cabeça erguida, e Dinitia e sua gangue me cercavam, e tudo recomeçava.

Enquanto brigávamos, elas me chamavam de pobre, feia e suja, e era difícil negar isso. Eu tinha três vestidos, todos repassados ou comprados em brechós, o que significava que toda semana precisava usar dois deles duas vezes. Estavam tão gastos de inúmeras lavagens que as costuras começavam a se desfazer.

Também estávamos sempre sujos. Não de um modo seco, como era no deserto, mas sujos encardidos e cobertos por uma poeira oleosa do fogareiro a carvão. Erma nos permitia apenas um banho por semana em dez centímetros de água que havia sido aquecida no fogão da cozinha e que todas nós, crianças, tínhamos de partilhar.

Pensei em discutir sobre as brigas com papai, mas não queria parecer choramingas. E ele raramente estava sóbrio desde que chegamos a Welch, e eu temia que, se contasse, ele aparecesse na escola de porre e tornasse as coisas ainda mais difíceis.

Tentei conversar com mamãe. Não consegui contar sobre as surras, com medo de que, se o fizesse, ela tentasse se meter e piorasse tudo. Disse que aquelas três meninas negras estavam me atormentando por sermos tão pobres. Mamãe disse que eu devia dizer a elas que não havia nada de errado em ser pobre, que Abraham Lincoln, o maior presidente que o país tivera, viera de uma família miserável. Acrescentou que eu devia dizer a elas que Martin Luther King Jr. ficaria envergonhado do comportamento delas. Embora eu soubesse que esses argumentos dignos não iriam me levar a lugar nenhum, ainda assim os usei —

Martin Luther King ficaria envergonhado! —, o que fez as três garotas gargalhar enquanto me empurravam para o chão.

Deitada na cama de Stanley à noite com Lori, Brian e Maureen, eu imaginava cenas de vingança. Eu me via como papai em seus dias de Força Aérea, acabando com o bando todo. Depois da escola, ia até a pilha de madeira perto do porão e praticava golpes de caratê e chutes nos tocos enquanto mandava uns palavrões cabeludos. Mas também ficava pensando em Dinitia, tentando entendê-la. Por um tempo, esperei ser amiga dela. Vira Dinitia sorrir algumas vezes de modo verdadeiramente caloroso, e isso transformava seu rosto. Com um sorriso daqueles, ela devia ter algo bom por dentro, mas eu não conseguia descobrir como fazer que brilhasse na minha direção.

CERCA DE UM MÊS depois de entrar na escola, eu estava subindo os degraus para um parque no alto

da colina quando ouvi latidos baixos e furiosos, vindos do outro lado do memorial da Primeira Guerra Mundial. Subi os degraus correndo e vi um grande vira-lata espumando de raiva e encurralando um garotinho negro de uns cinco ou seis anos contra o monumento. O garoto chutava enquanto o cachorro latia e se lançava sobre ele. O menino olhava para a linha de árvores no lado mais distante do parque, e eu sabia que ele estava calculando as chances de chegar lá.

— Não corra! — gritei.

O garoto olhou para mim. Assim fez o cachorro, e nesse instante o garoto disparou em uma corrida desesperançada até as árvores. O cachorro foi atrás, latindo, alcançou-o e tentou morder suas pernas.

Existem cachorros loucos, cachorros selvagens e cachorros assassinos, e qualquer um deles morderia sua garganta e a seguraria até que você ou ele morresse, mas eu via que aquele cachorro não era mau de verdade. Em vez de rasgar o garoto, divertia-se aterrorizando, rosnando e puxando a perna da calça, sem machucá-lo de verdade. Era só um vira-lata que havia sido chutado demais e ficava contente de encontrar uma criatura que sentia medo dele.

Peguei uma vara e corri na direção deles.

— Vá embora agora! — gritei para o cachorro. Quando ergui a vara, ele grunhiu e fugiu.

Os dentes do cachorro não tinham acertado a pele do garoto, mas a perna da calça fora rasgada, e ele tremia como se tivesse uma doença. Eu me ofereci para levá-lo para casa e acabei carregando-o nas costas.

Era leve como uma pena. Não arranquei uma palavra dele, a não ser orientações mínimas — “ali”, “para lá” — em uma voz que eu mal conseguia ouvir.

As casas do bairro eram velhas, porém recém-pintadas, algumas em cores brilhantes como lavanda ou verde-claro.

— É aqui — sussurrou o garoto quando chegamos a uma casa com janelas azuis. Tinha um jardim bem cuidado, mas era tão pequena que anões poderiam morar ali. Quando coloquei o garoto no chão, ele subiu os degraus correndo e passou pela porta. Eu me virei para partir.

Dinitia Hewit estava em pé na varanda do outro lado da rua, olhando para mim com curiosidade.

NO DIA SEGUINTE, quando fui para o playground depois do almoço, a gangue de garotas foi na minha direção, e Dinitia ficou para trás. Sem sua líder, as outras perderam a disposição e não chegaram perto de mim. Na semana seguinte, Dinitia me pediu ajuda em um trabalho de inglês. Ela nunca disse que lamentava pelo bul ying, nem sequer o mencionou, mas me agradeceu por levar seu vizinho para casa naquela noite, e imaginei que seu pedido de ajuda era o mais perto de um pedido de desculpas que eu conseguiria. Erma deixara claro o que pensava de negros, e em vez de convidar Dinitia à nossa casa para o trabalho, sugeri ir à casa dela no sábado seguinte.

Naquele dia, eu estava saindo de casa ao mesmo tempo em que tio Stanley. Ele nunca tivera condições de aprender a dirigir, mas alguém da loja de ferramentas onde ele trabalhava ia pegá-lo. Perguntou se também queria uma carona. Quando contei para onde ia, ele franziu o cenho.

— Isso é a Crioulândia. O que vai fazer lá?

Stanley disse que não queria que seu amigo me levasse, então caminhei. Quando voltei mais tarde, a casa estava vazia, com exceção de Erma, que nunca punha os pés na rua. Estava em pé na cozinha, mexendo uma panela de favas e dando goles da garrafa de bebida no bolso.

— Como estava a Crioulândia? — perguntou.

Erma estava sempre falando sobre “os crioulos”. A casa dela e de vovô ficava na rua Court, nos

limites do bairro negro. Ela se sentira ofendida quando começaram a se deslocar para aquela parte da cidade, e sempre disse que era culpa deles Welch ter entrado em decadência. Da sala de estar, onde Erma sempre mantinha as cortinas fechadas, era possível ouvir grupos de negros indo para a cidade, conversando e rindo. Erma sempre murmurava: “Malditos crioulos. A razão para eu não sair dessa casa há quinze anos é não querer ver nem ser vista por um crioulo”. Mamãe e papai sempre haviam nos proibido de usar essa palavra. Era muito pior que qualquer palavrão, nos disseram. Mas como Erma era minha avó, eu nunca disse nada quando ela a usava.

Erma continuou a mexer as favas.

— Continue assim, e as pessoas vão achar que você adora crioulos — disse.

Ela me olhou sério, como se partilhando uma lição de vida significativa que eu deveria considerar e absorver. Desatarraxou a tampa de sua garrafa de bebida e deu um grande gole contemplativo.

Enquanto a via beber, senti a pressão aumentando em meu peito e tive de soltar:

— Você não deveria usar essa palavra — falei.

O rosto de Erma murchou de espanto.

— Mamãe diz que eles são como nós, apenas têm uma cor diferente — continuei.

Erma me encarou, furiosa. Achei que ia me dar um tapa, mas em vez disso falou:

— Sua merdinha ingrata. De modo algum vai comer minha comida esta noite. Leve seu traseiro inútil para o porão.

LORI ME ABRAÇOU quando ouviu o que tinha dito a Erma. Mamãe, no entanto, ficou chateada.

— Podemos não concordar com todos os pontos de vista de Erma, mas temos de lembrar que, enquanto formos seus hóspedes, precisamos ser educados.

Aquilo não parecia mamãe. Ela e papai agrediam alegremente qualquer um de quem desgostassem ou desrespeitassem: executivos da Standard Oil, J. Edgar Hoover e especialmente esnobes e racistas. Sempre nos encorajaram a expressar nossas opiniões. E agora deveríamos morder a língua. Mas ela estava certa; Erma iria nos chutar dali. Eu me dei conta de que eram situações como aquelas que transformavam pessoas em hipócritas.

— Odeio Erma — eu disse a mamãe.

— Você precisa ter compaixão por ela — argumentou.

Os pais de Erma haviam morrido quando ela era pequena, a seguir fora enviada a um parente depois do outro, e todos a trataram como uma empregada. Esfregava roupas em uma tábua até os nós dos dedos sangrarem — essa era a grande lembrança de infância de Erma. A melhor coisa que vovô fez por ela quando se casaram foi comprar uma lavadora de roupas elétrica, mas qualquer alegria que isso tivesse lhe dado acabara havia muito.