O Castelo de Vidro
Naquela tarde, eu
Dinitia e eu passamos a manhã na piscina, espalhando água, praticando nado de costas e borboleta.
Ela se agitava na água quase tanto quanto eu. Plantamos bananeira e colocamos as pernas para fora da água, como em nado sincronizado, e brincamos de pique e desafio com outras crianças. Saímos para dar saltos, jogando água para todo lado, com o objetivo de molhar o maior número possível de pessoas sentadas ao lado da piscina. A água azul cintilava e ficava branca de espuma. Quando o horário gratuito terminou, meus dedos das mãos e dos pés estavam totalmente enrugados, e meus olhos, vermelhos e ardendo do cloro, tão forte que subia da piscina um vapor que você quase podia ver. Eu nunca me sentira mais limpa.
NAQUELA TARDE, EU estava sozinha em casa, ainda sentindo a pele seca e coçando por causa do cloro, esgotada como se tivesse feito muito exercício, quando ouvi uma batida na porta. O barulho me assustou. Quase ninguém nos visitava no 93 da Lit le Hobart. Entreabri a porta e espiei. Um homem careca carregando uma pasta sob o braço estava em pé na varanda. Algo nele gritava “governo” — uma espécie que papai nos treinara para evitar.
— O chefe da família está? — perguntou ele.
— Quem quer saber? — retruquei.
O homem sorriu da maneira que se faz para adoçar más notícias.
— Sou do juizado de menores e estou procurando por Rex ou Rose Mary Wal s.
— Eles não estão aqui — falei.
— Quantos anos você tem? — perguntou ele.
— Doze.
— Posso entrar?
Eu via que ele estava tentando espiar a casa atrás de mim. Encostei a porta, deixando apenas uma fresta.— Mamãe e papai não gostariam que eu o deixasse entrar. Até que falem com o advogado deles —
acrescentei para impressionar. — Apenas me diga o que deseja e transmitirei o recado.
O homem disse que alguém cujo nome ele não podia revelar telefonara para seu escritório recomendando uma vistoria das condições da casa 93 da Lit le Hobart, onde era possível que menores estivessem sendo vítimas de negligência.
— Ninguém é negligente conosco! — retruquei.
— Tem certeza?
— Tenho certeza, senhor.
— Seu pai trabalha?
— Claro. Ele faz serviços eventuais. E é um empreendedor. Está desenvolvendo uma tecnologia para queimar carvão betuminoso de baixa qualidade com segurança e eficiência.
— E sua mãe?
— Ela é artista — respondi. — E escritora e professora.
— Realmente? — retrucou o homem, fazendo uma anotação em um bloco. — Onde?
— Não acho que mamãe e papai gostariam que eu conversasse com o senhor sem que estivessem aqui. Volte quando estiverem. Eles responderão às suas perguntas.
— Bom — disse o homem. — Eu voltarei. Diga isso a eles.
Ele passou um cartão de visitas pela fresta da porta. Eu o vi descer da varanda.
— Cuidado com esses degraus — avisei. — Estamos construindo uma nova escada.
DEPOIS QUE O HOMEM partiu, fiquei tão furiosa que subi a colina correndo e comecei a jogar pedras — grandes pedras que só conseguia levantar com as duas mãos — no buraco do lixo. A não ser por Erma, nunca odiara alguém mais do que aquele homem do juizado de menores. Nem mesmo Ernie Goad. Pelo menos, quando Ernie e sua gangue apareciam gritando que éramos lixo, nós podíamos expulsá-los com pedras. Mas se o homem do juizado de menores enfiasse na cabeça que éramos uma família desajustada, não teríamos como expulsá-lo. Ele iniciaria uma investigação e acabaria mandando a mim, Brian, Lori e Maureen para morar com famílias diferentes, embora todos tirássemos boas notas e
soubéssemos o código Morse. Eu não podia deixar aquilo acontecer. Nenhuma chance de perder Brian, Lori e Maureen.
Desejei que pudéssemos dar no pé. Durante muito tempo Brian, Lori e eu tínhamos imaginado que mais cedo ou mais tarde deixaríamos Welch. A cada dois meses perguntávamos a papai se iríamos nos mudar. Algumas vezes, ele falava sobre Austrália ou Alasca, mas nunca fazia nada, e quando perguntávamos a mamãe, ela começava a cantar uma canção sobre como sua disposição murchara. Talvez voltar a Welch tivesse matado a ideia que papai costumava ter de si mesmo como um homem que sempre ia a lugares diferentes. A verdade era que estávamos empacados.
Quando mamãe chegou em casa, dei a ela o cartão do homem e contei sobre a visita. Eu ainda estava agitada. Como nem ela, nem papai se preocupavam em trabalhar, e como ela se recusava a deixar papai, o governo ia fazer o trabalho de separar a família por ela, eu disse.
Eu esperava que mamãe se saísse com uma de suas observações grosseiras, mas ela escutou meu discurso furioso em silêncio. Depois disse que precisava pensar em suas opções. Sentou-se ao cavalete.
Ela ficara sem tela e começara a pintar sobre compensado, pegou um pedaço de madeira, a paleta, colocou algumas tintas e escolheu um pincel.
— O que está fazendo? — perguntei.
— Estou pensando — respondeu.
Mamãe trabalhou rápida, automaticamente, como se soubesse com exatidão o que desejava pintar.
Uma figura ganhou forma no meio do espaço. Era uma mulher da cintura para cima, braços erguidos.
Círculos concêntricos azuis surgiram ao redor da cintura. O azul era água. Mamãe estava pintando um retrato de uma mulher se afogando em um lago agitado. Quando terminou, ficou um longo tempo sentada em silêncio, olhando para o quadro.
— O que vamos fazer? — perguntei afinal.
— Jeannet e, você está tão concentrada que é assustador.
— Não respondeu à minha pergunta — falei.
— Vou arrumar um emprego, Jeannet e — cortou. Jogou o pincel no pote de terebintina e ficou ali olhando para a mulher se afogando. PROFESSORES QUALIFICADOS eram tão escassos no município de McDowel que dois dos meus mestres na escola secundária Welch nunca haviam feito faculdade. Mamãe terminaria a semana com um emprego. Passamos aqueles dias tentando freneticamente limpar a casa na expectativa do retorno do homem do juizado de menores. Era uma tarefa desanimadora, considerando as pilhas de lixo de mamãe, o buraco no teto e o repulsivo balde amarelo na cozinha. Mas, por alguma razão, ele nunca voltou.