O Castelo de Vidro
Três dias depois
— Pobrezinhos! — exclamou. — Vocês estão bem?
Ela nos perguntou aonde estávamos indo, e quando dissemos Phoenix, nos ofereceu carona. O ar-condicionado do Buick era tão forte que meus pelos se arrepiaram em braços e pernas. A mulher fez com que Lori e eu passássemos aos outros Coca-Colas e sanduíches de um isopor que estava no chão. Papai disse que não sentia fome.
A senhora não parou de falar sobre como a filha estava dirigindo pela rodovia, nos vira e, ao chegar à casa da senhora, contara sobre a pobre família caminhando pelo acostamento na estrada.
— E eu disse à minha filha: “Não posso deixar aqueles pobrezinhos lá”. Eu disse à minha filha:
“Aquelas pobres crianças devem estar morrendo de sede, coitadinhas”.
— Não somos pobres — eu disse. Ela usara aquela palavra vezes demais.
— Claro que não são — retrucou a senhora rapidamente. — Não quis dizer nesse sentido.
Mas eu sabia que tinha. A senhora ficou quieta, e pelo resto da viagem ninguém falou muito. Tão logo ela nos deixou, papai desapareceu. Esperei nos degraus da frente até a hora de dormir, porém ele não voltou para casa.
TRÊS DIAS DEPOIS, enquanto Lori e eu estávamos sentadas ao velho piano de armário de vovó tentando ensinar uma à outra a tocar, ouvimos pesados passos irregulares junto à porta da frente. Viramos e vimos papai. Ele tropeçou na mesinha de café. Quando tentamos ajudar, ele nos xingou e se lançou sobre nós, brandindo os punhos. Queria saber onde estava a nossa maldita mãe infeliz, e ficou tão louco quando não contamos que puxou a cristaleira de vovó, quebrando sua bela porcelana no chão.
Brian entrou correndo. Tentou agarrar a perna de papai, mas ele o chutou.
Papai arrancou a gaveta de prataria e lançou garfos, colheres e facas por toda a sala, depois pegou uma das cadeiras e a esmagou na mesa de vovó.
— Rose Mary, onde você está, piranha fedorenta? — berrou. — Onde essa mulher está se escondendo?
Ele encontrou mamãe no banheiro, encolhida na banheira. Quando passou correndo, ele agarrou o vestido dela, e mamãe começou a lutar com papai. Chegaram brigando à sala de jantar, e ele a derrubou no chão. Ela esticou a mão para a pilha de talheres que papai jogara ali, agarrou uma faca de açougueiro e cortou o ar diante dele.
Papai se inclinou para trás.
— Uma luta de faca, é? — falou, sorrindo. — Legal, se é o que você quer.
Pegou uma faca, jogando-a de uma mão para a outra. Depois, arrancou a faca da mão de mamãe, largou a dele e a prendeu no chão. Nós socamos as costas de papai e imploramos para que parasse, mas ele nos ignorou. Finalmente, prendeu as mãos de mamãe atrás da cabeça.
— Rose Mary, você é uma mulher infernal! — grunhiu papai.
Mamãe disse que ele era um bêbado podre, fedorento.
— É, mas você ama este velho bêbado, não é?
Mamãe inicialmente disse que não, porém papai continuou perguntando sem parar, e quando finalmente ela disse “sim”, a luta chegou ao fim. Desapareceu como se nunca tivesse existido. Papai começou a rir e abraçar mamãe, que ria e o abraçava. Era como se estivessem tão felizes por não terem matado um ao outro que haviam se apaixonado novamente.
Não senti vontade de celebrar. Depois de tudo o que ele havia passado, não podia acreditar que papai tivesse voltado ao álcool.
COM PAPAI BEBENDO novamente e nenhum dinheiro entrando, mamãe começou a falar sobre ir para o leste, Virgínia Ocidental, onde moravam os pais de papai. Talvez eles o ajudassem a se manter na linha.
No mínimo, poderiam nos ajudar financeiramente, como vovó Smith havia feito de tempos em tempos.
Mamãe disse que iríamos adorar a Virgínia Ocidental. Moraríamos na floresta das montanhas, com os esquilos. Iríamos conhecer vovó e vovô Wal s, caipiras legítimos.
Mamãe fez a vida na Virgínia Ocidental parecer outra grande aventura, e logo nós compramos a ideia da viagem. Mas papai odiou a ideia e se recusou a ajudar mamãe, e ela fez tudo sozinha. Como nunca havíamos resgatado o carro — nem nenhuma de nossas coisas — da fracassada expedição ao Grand Canyon, a primeira coisa de que mamãe precisava era um veículo novo. Disse que Deus operava de maneiras misteriosas, e aconteceu de ela herdar terras no Texas quando vovó morrera. Esperou até receber um cheque de várias centenas de dólares da empresa que alugava os direitos de perfuração. E foi comprar um carro usado.
Uma vez por semana, uma rádio local tinha uma transmissão promocional em um estacionamento pelo qual passávamos a caminho da escola. Toda quarta-feira, os locutores e vendedores de carros usados falavam ao vivo sobre as ofertas inacreditáveis e os preços mais baixos; para provar, anunciavam a Oferta do Cofrinho: um carro custando menos de mil dólares, que venderiam ao primeiro que telefonasse.
Mamãe estava de olho numa Oferta do Cofrinho. Não ia se arriscar com o telefonema; foi com o dinheiro e se sentou no escritório do vendedor enquanto esperávamos em um banco de praça do outro lado da rua, ouvindo a transmissão em um rádio transistorizado.
A Oferta do Cofrinho daquela quarta-feira era um Oldsmobile 1956, que mamãe comprou por duzentos dólares. Nós escutamos enquanto ela dizia ao vivo aos ouvintes da rádio que conhecia uma senhora pechincha quando via uma.
Mamãe não pôde testar a Oferta do Cofrinho antes de comprar. O carro sacudiu várias vezes a caminho de casa. Era impossível dizer se era a direção de mamãe ou se tínhamos comprado uma porcaria.
Nós não estávamos nada animados com a ideia de mamãe nos conduzir pelo país. Para começar, ela não tinha carteira de motorista válida, e sempre fora péssima condutora. Se papai ficava bêbado demais, ela acabava atrás do volante, mas os carros pareciam nunca funcionar bem com mamãe. Certa vez em que dirigíamos pelo centro de Phoenix, ela não conseguiu fazer os freios funcionar, e obrigou Brian e eu a enfiarmos a cabeça para fora das janelas para gritar “Sem freio! Sem freio!”, enquanto passávamos por cruzamentos e procurávamos algo relativamente macio no que bater. Acabamos batendo em uma caçamba de lixo atrás de um supermercado e andando a pé de volta para casa.
Mamãe disse que qualquer um que tivesse críticas à sua direção poderia assumi-la. Agora que tínhamos um carro, continuou, poderíamos partir na manhã seguinte. Era outubro, e estávamos na escola havia apenas um mês, porém mamãe disse que não tínhamos tempo para contar aos professores que estávamos partindo, ou pedir nossos históricos escolares. Quando nos matriculássemos na Virgínia Ocidental, ela atestaria nossa formação acadêmica, e assim que nossos novos professores nos ouvissem ler, perceberiam que éramos todos superdotados.
Papai continuava a se recusar a ir conosco. Disse que quando partíssemos, seguiria sozinho para o deserto, para se tornar um garimpeiro. Perguntei a mamãe se iríamos vender a casa na rua Três Norte ou alugar.— Nem uma coisa, nem outra. É minha casa.
Disse que era legal ter alguma coisa, para variar, e não via sentido em vender somente porque estávamos nos mudando. Também não queria alugar, já que era contra outra pessoa morar em sua casa.
Ficaria como estava. Para impedir que ladrões ou vândalos a invadissem, deixaríamos roupas no varal e pratos sujos na pia. Desse modo, disse mamãe, potenciais invasores pensariam que a casa estava ocupada e seriam levados a crer que os moradores poderiam voltar a qualquer momento.
Na manhã seguinte, colocamos as coisas no carro enquanto papai ficava sentado na sala de estar, emburrado. Amarramos o material artístico de mamãe no teto e enchemos a mala com potes, panelas e cobertores. Mamãe havia comprado em um brechó um casaco quente para cada um, para termos o que vestir na Virgínia Ocidental, onde o frio era tão intenso que nevava. Mamãe disse que só poderíamos levar uma coisa, como quando partimos de Bat le Mountain. Eu queria levar minha bicicleta, mas mamãe disse que era grande demais, e levei somente meu geodo.
Eu corri para o quintal e disse adeus às laranjeiras, depois corri de volta para entrar no Oldsmobile.
Tive de engatinhar sobre Brian e me sentar no meio, porque ele e Lori já haviam ocupado os lugares nas janelas. Maureen estava no banco da frente com mamãe, que ligara o motor e praticava trocas de marcha.