O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 47 de 71

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O Castelo de Vidro

Naquele outono, eu

— Mãe, o que aconteceu com todo o dinheiro? — perguntei enquanto comíamos nossas fatias de sorvete.

— Acabou, acabou, acabou! Acabou tudo.

— Mas como? — perguntou Lori.

— Eu tenho uma casa cheia de crianças e um marido que enxuga álcool como uma esponja — disse mamãe. — Pagar as contas é mais difícil do que vocês pensam.

Não podia ser assim tão difícil, pensei. Outras mães conseguiam. Tentei questioná-la. Estava gastando o dinheiro com ela mesma? Estava dando a papai? Papai estava roubando? Ou gastamos rápido demais? Não consegui uma resposta.

— Nos dê o dinheiro — falei. — Montamos um orçamento e o seguiremos.

— Fácil para você dizer — retrucou mamãe.

Lori e eu montamos um orçamento e incluímos uma mesada generosa para mamãe comprar luxos como barras Hershey’s gigantes e vasos de cristal bisotados. Acreditávamos que se seguíssemos o orçamento, poderíamos ter roupas, sapatos e casacos novos, e comprar uma tonelada de carvão mais barato fora da temporada. Acabaríamos instalando um isolamento, levando um cano de água até a casa e talvez até acrescentando um aquecedor de água. Mas mamãe nunca nos deu o dinheiro. Ainda que ela tivesse um emprego fixo, vivíamos praticamente como antes.

NAQUELE OUTONO, EU passara para a sétima série, o que significava frequentar a escola secundária Welch. Era uma escola grande, perto do alto de uma montanha, voltada para a cidade, aonde se chegava por uma rua íngreme. As crianças eram levadas de ônibus dos vales e de acampamentos de mineiros como Davy e Hemphil , pequenos demais para ter sua própria escola secundária. Alguns dos garotos pareciam tão pobres quanto eu, com cabelos cortados em casa e buracos nos sapatos. Achei muito mais fácil me enturmar do que na escola fundamental Welch.

Dinitia Hewit também estava lá. Aquela manhã de verão que passara nadando com Dinitia na piscina pública havia sido o momento mais feliz que tivera em Welch, porém ela nunca mais me convidou, e, embora fosse uma piscina pública, eu não achava que podia ir ao horário gratuito sem um convite dela.

Só a vi novamente no começo das aulas, e nenhuma de nós mencionou aquele dia na piscina. Acho que ambas sabíamos que, considerando o que as pessoas de Welch pensavam de integração, seria esquisito demais para nós sermos amigas íntimas. Durante o almoço, Dinitia ficava com os outros garotos negros, mas tínhamos uma sala de estudos juntas e trocávamos bilhetes lá.

Quando chegou à escola secundária Welch, Dinitia havia mudado. Perdera o brilho. Começara a beber cerveja durante as aulas. Enchia uma lata de refrigerante com vinho fortificado Mad Dog 20/20 e levava para a sala. Tentei descobrir o que estava errado, mas só o que consegui arrancar foi que o novo namorado da mãe fora morar com eles e as coisas estavam difíceis.

Certo dia, pouco antes do Natal, Dinitia me passou um bilhete pedindo nomes de menina começando com D. Escrevi todos em que consegui pensar — Diane, Donna, Dora, Dreama, Diandra — e acrescentei: Por quê? Ela devolveu um bilhete dizendo: Acho que estou grávida.

Dinitia não voltou à escola após o Natal. Depois que um mês havia se passado, contornei a montanha até a casa dela e bati na porta. Um homem abriu e me encarou. Tinha pele parecida com uma frigideira de aço e olhos amarelo-nicotina. Ele deixou a porta de tela fechada, tive de falar através dela.

— Dinitia está em casa?

— Por que quer saber?

— Quero vê-la.

— Ela não quer ver você — disse, e fechou a porta.

Eu vi Dinitia na cidade uma ou duas vezes depois disso e acenamos, mas nunca mais nos falamos.

Mais tarde, todos soubemos que ela havia sido presa por matar o namorado da mãe a facadas.

AS OUTRAS GAROTAS falavam sem parar entre si sobre quem ainda era virgem e até onde tinham deixado os namorados chegar. O mundo parecia dividido entre garotas com namorados e garotas sem eles. Era a distinção que mais importava, praticamente a única que importava. Mas eu sabia que garotos eram perigosos. Eles diziam que amavam você, mas sempre estavam atrás de algo.

Embora não confiasse em garotos, desejava que um deles demonstrasse algum interesse por mim.

Kenny Hal , o cara velho da rua que ainda sofria por mim, não contava. Se algum garoto estivesse interessado em mim, eu imaginava que teria meios de dizer a ele, quando fosse longe demais, que não era aquele tipo de garota. Mas a verdade é que eu não precisava me preocupar muito com cortar avanços, já que — Ernie Goad me dizia sempre que podia — eu era feia de salsicha. E com isso ele queria dizer tão feia que, se quisesse que um cachorro brincasse comigo, teria de pendurar uma salsicha no pescoço.

Eu tinha o que mamãe chamava de aparência marcante. Esse era um modo de me definir. Tinha quase um metro e oitenta, era branca como a barriga de um sapo e tinha cabelos ruivos brilhantes. Meus

cotovelos eram cunhas, e meus joelhos, pires de chá. Mas minha característica mais marcante — a pior —

eram os dentes. Não eram cariados nem tortos. Eram grandes e saudáveis. Mas se projetavam para fora.

Os de cima se projetavam com tanto entusiasmo que eu tinha dificuldade em fechar a boca direito, e estava sempre esticando o lábio superior para tentar cobri-los. Quando ria, colocava a mão sobre a boca.

Lori me disse que eu tinha uma imagem exagerada de como era ruim a aparência dos meus dentes.

— Eles são só um pouco para fora — dizia. — Eles têm certo charme de coelhinho.

Mamãe dizia que a projeção superior dava personalidade ao meu rosto. Brian dizia que os dentes proeminentes seriam úteis se um dia eu precisasse comer uma maçã pelo buraco de uma cerca.

O que eu precisava, eu sabia, era de um aparelho. Sempre que olhava no espelho sonhava com o que as outras crianças chamavam de boca de arame farpado. Mamãe e papai não tinham dinheiro para um aparelho, claro — nenhum de nós, crianças, jamais fora ao dentista —, mas, como estava trabalhando de babá e fazendo os deveres de casa de outras crianças por dinheiro, resolvi poupar até poder pagar o aparelho eu mesma. Não tinha ideia de quanto custava, abordei a única garota de minha turma que usava e, depois de elogiar sua ortodontia, perguntei despreocupadamente quanto custara aos pais dela. Quando ela disse mil e duzentos dólares, quase caí para trás. Eu recebia um dólar por hora como babá. Trabalhava cinco ou seis horas por semana, e isso significava que, se poupasse cada centavo que ganhasse, levaria quase quatro anos para levantar o dinheiro.

Decidi fazer meu próprio aparelho.

FUI À BIBLIOTECA e pedi um livro sobre ortodontia. A bibliotecária olhou para mim de um jeito engraçado e disse que não tinha nenhum ali, então me dei conta de que teria de descobrir as coisas enquanto ia adiante. O processo envolveu algumas experiências e vários começos falsos. No início, eu simplesmente usei uma tira de borracha. Antes de ir para cama, eu a esticava sobre os dentes superiores. A tira de borracha era pequena, mas grossa, e se encaixava bem apertada neles. Porém pressionava minha língua para baixo de modo desconfortável, e algumas vezes se soltava à noite e eu acordava engasgada com ela. Mas, normalmente, permanecia presa a noite toda, e de manhã minha gengiva doía da pressão que fazia em meus dentes.

Aquilo parecia promissor, mas comecei a temer que, em vez de empurrar os dentes da frente para dentro, a faixa de borracha poderia puxar os dentes de trás para fora. Consegui faixas de borracha maiores e as coloquei sobre a cabeça, para que pressionassem os dentes da frente. O problema com essa técnica era que as faixas de borracha eram apertadas — tinham de ser, para funcionar —, e eu acordava com dor de cabeça e marcas vermelhas fundas nas laterais do rosto, justamente onde as faixas haviam feito pressão.

Eu precisava de tecnologia mais avançada. Dobrei um cabide em forma de ferradura de modo que se encaixasse na parte de trás de minha cabeça. Depois curvei as duas extremidades para fora, para que no momento em que o cabide estivesse em minha cabeça, as pontas se afastassem de meu rosto, formando ganchos para segurar a faixa de borracha no lugar certo. Quando experimentei, o cabide cravou atrás de minha cabeça, e usei um absorvente higiênico Kotex como proteção.

A geringonça funcionou perfeitamente, a não ser pelo fato de que eu tinha de dormir de costas, algo que sempre achei difícil, especialmente no frio: eu gostava de me aninhar nos cobertores. E as faixas de borracha ainda se soltavam no meio da noite. Outro contratempo era que o dispositivo demorava muito para ser instalado corretamente. Eu esperava até escurecer, para que ninguém mais visse.