O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 41 de 71

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O Castelo de Vidro

O inverno chegou forte

— Está mastigando alguma coisa? — perguntou.

— Meus dentes estão doendo — disse mamãe, mas desviava os olhos, olhando para a sala, e nos evitava. — São minhas gengivas ruins. Estou mexendo o maxilar para aumentar a circulação.

Brian arrancou as cobertas. No colchão ao lado de mamãe havia uma daquelas enormes barras de chocolate Hershey’s tamanho família, a embalagem prateada brilhante puxada para trás e rasgada. Ela já havia comido metade.

Mamãe começou a chorar.

— Não consigo evitar — soluçou. — Sou viciada em açúcar, assim como seu pai é alcoólatra.

Ela nos disse que devíamos perdoá-la da mesma maneira que sempre perdoávamos papai pela bebida. Nenhum de nós disse nada. Brian tomou-lhe a barra de chocolate e a dividiu em quatro.

Enquanto mamãe olhava, nós a engolimos.

O INVERNO CHEGOU FORTE naquele ano. Logo depois do dia de Ação de Graças caiu a primeira grande neve com flocos gordos e úmidos do tamanho de borboletas. Flutuavam para baixo preguiçosamente, mas eram seguidos por flocos menores e mais secos que não pararam de cair por dias.

No começo, adorei o inverno em Welch. O cobertor de neve escondia a fuligem e fazia a cidade inteira parecer limpa e confortável. Nossa casa quase parecia com todas as outras na rua Lit le Hobart.

Estava tão frio que os galhos mais novos e frágeis se partiam no ar gelado, e eu muito rapidamente comecei a senti-lo. Tinha somente meu fino casaco de lã sem botões. Sentia quase o mesmo frio em casa; embora tivéssemos o fogareiro a carvão, não tínhamos carvão. Havia quarenta e dois vendedores de carvão na lista telefônica de Welch. Uma tonelada de carvão, que duraria a maior parte do inverno, custava uns cinquenta dólares — incluindo frete —, ou apenas trinta dólares pelo produto de pior qualidade. Mamãe disse que lamentava, mas o carvão não cabia no nosso orçamento. Teríamos de conceber outras formas de nos manter aquecidos.

Pedaços de carvão estavam sempre caindo dos caminhões que faziam as entregas, e Brian sugeriu que ele e eu pegássemos um balde para recolher alguns deles. Andávamos pela Lit le Hobart catando pedaços de carvão, quando nossos vizinhos, os Noe, passaram em sua perua. As garotas Noe, Karen e Carol, estavam sentadas no banco extra voltado para trás, olhando pela janela traseira do carro.

— Estamos aumentando nossa coleção de pedras! — gritei.

Os pedaços que achamos eram tão pequenos que depois de uma hora só tínhamos enchido metade do balde. Precisávamos de pelo menos um balde para sustentar o fogo por uma noite. Embora de vez em quando fizéssemos expedições de coleta de carvão, basicamente usávamos madeira. Não podíamos comprar madeira mais do que podíamos comprar carvão, e papai não estava por perto para cortá-la e parti-la, o que significava que cabia a nós, crianças, catar galhos mortos e pedaços na floresta.

Encontrar madeira boa e seca era um desafio. Caminhávamos pela encosta procurando pedaços que não estivessem encharcados nem podres, sacudindo a neve de galhos. Mas acabamos com a madeira com uma rapidez medonha, e, enquanto um fogo a carvão é quente, fogo de madeira não produz muito calor.

Nós nos aninhávamos ao redor do fogareiro arredondado enrolados em cobertores, esticando as mãos para o calor fraco e enfumaçado. Mamãe dizia que devíamos ser gratos, pois estávamos melhores que os pioneiros, que não tinham facilidades modernas como janelas de vidro e fogões de ferro fundido.

Um dia, conseguimos fazer um fogo grande, mas mesmo assim ainda víamos nossa respiração, e havia gelo dos dois lados das janelas. Brian e eu decidimos que precisávamos aumentar ainda mais o fogo e saímos para pegar mais madeira. No caminho de volta, Brian parou e olhou para nossa casa.

— Não há neve no nosso telhado.

Ele estava certo. Ela derretera totalmente.

— Todas as outras casas têm neve no telhado — falou.

Isso também era verdade.

— Esta casa não tem nenhum isolamento — Brian disse a mamãe quando voltamos para dentro. —

Todo o calor está passando direto pelo teto.

— Podemos não ter isolamento, mas temos uns aos outros — mamãe disse quando nos reunimos ao redor do fogareiro.

Ficou tão frio em casa que pendia gelo do teto da cozinha, a água na pia se tornou um sólido bloco de gelo, e os pratos sujos ficaram presos como se cimentados ali. Até a bacia de água que mantínhamos na sala para nos lavar tinha uma camada de gelo. Andávamos pela casa com nossos casacos e enrolados em cobertores. Vestíamos os casacos também na cama. Não havia fogareiro no quarto, e, não importava

quantos cobertores eu empilhasse sobre mim, ainda sentia frio. Passei a noite acordada, esfregando os pés com as mãos, tentando aquecê-los.

Brigávamos para ver quem dormia com os cachorros — Zumbido, o terrier jack russel, e Pippin, um vira-lata de pelo encaracolado que descera da floresta um dia —, porque eles nos mantinham aquecidos. Eles normalmente terminavam em uma pilha com mamãe, pois ela tinha o corpo maior, e eles também sentiam frio. Brian comprara um iguana na G. C. Murphy, a lojinha barateira na rua McDowel , porque o fazia lembrar-se do deserto. Batizou-o de Iggy, e dormia com ele sobre o peito para aquecê-lo, mas certa noite ele morreu congelado.

Tínhamos de deixar a torneira debaixo da casa pingando, ou a água congelaria no cano. Mesmo assim, quando ficou realmente frio, a água congelou, e, ao acordar, encontramos uma grande estalactite pendurada na torneira. Tentamos degelar o cano passando um pedaço de madeira em chamas por ele, mas estava tão congelado que não havia nada a fazer senão esperar que esquentasse de novo. Quando o cano congelava daquele jeito, conseguíamos água derretendo neve ou gelo na panela de lata no fogareiro arredondado.

Em duas ocasiões, quando não havia mais neve no chão, mamãe me mandou pegar um balde de água emprestado com o sr. Freeman, um mineiro aposentado que morava com o filho e a filha crescidos, Peanut e Prissy. Ele nunca me mandou embora, mas me olhava um minuto em silêncio, depois balançava a cabeça e desaparecia na casa. Quando passava o balde, dava outra balançada de cabeça de desgosto, mesmo depois de eu garantir que ele poderia pegar quanta água quisesse conosco quando chegasse a primavera.

— Odeio inverno — eu disse a mamãe.

— Todas as estações têm algo a oferecer — respondeu ela. — O frio é bom para você. Mata os germes.

Aquilo parecia ser verdade, porque nenhum de nós, crianças, jamais ficou doente. Mas mesmo se um dia eu acordasse de manhã queimando de febre, nunca admitiria para mamãe. Adoecer significaria ficar em nossa casa gelada em vez de passar o dia em uma sala de aula quentinha.

OUTRA COISA BOA do clima frio era que ele mantinha os odores no mínimo. Quando chegou o Ano-Novo, tínhamos lavado nossas roupas apenas uma vez desde aquela primeira neve de novembro. No verão, mamãe comprou uma máquina de lavar com centrifugação, como a que tivéramos em Phoenix, e a mantínhamos na cozinha. Havendo eletricidade, lavávamos as roupas e as pendurávamos para secar na varanda da frente. Mesmo quando o clima era mais quente, elas tinham de ficar durante dias lá fora, porque sempre era muito úmido naquele buraco no lado norte da montanha. Mas esfriou, e na única vez em que lavamos roupa, ela congelou na varanda. Levamos as roupas para dentro — as meias haviam endurecido na forma de pontos de interrogação, e as calças estavam tão duras que podiam ser apoiadas na parede — e as batemos sobre o fogareiro, tentando amaciá-las.

— Pelo menos não precisamos comprar goma — disse Lori.

Mesmo com o frio, em janeiro estávamos tão rançosos que mamãe decidiu que era hora de uma extravagância: iríamos à Laundromat. Colocamos nossas roupas sujas em fronhas e as carregamos encosta abaixo e pela rua Stewart.

Mamãe carregou a trouxa na cabeça, do modo como as mulheres fazem na África, e tentou nos convencer a fazer o mesmo. Disse que era melhor para nossa postura e mais leve para a coluna, mas não

havia nenhuma chance de nós, crianças, sermos flagradas caminhando por Welch com sacos de roupa suja na cabeça. Seguimos mamãe com nossos sacos nos ombros, revirando os olhos quando passávamos por conhecidos, para mostrar que concordávamos com eles: a senhora com o saco na cabeça parecia bastante peculiar.

A Laundromat, com a vitrine totalmente embaçada, estava tão quente e úmida quanto um banho turco. Mamãe deixou que colocássemos as moedas nas lavadoras, depois subimos e sentamos nelas. O

calor das máquinas barulhentas esquentou nosso traseiro e se espalhou por nosso corpo. Quando a lavagem terminou, passamos as braçadas de roupas molhadas para as secadoras e ficamos observando-as enquanto sacudiam como se estivessem em um brinquedo de parque de diversão. Quando o ciclo terminou, tiramos as roupas escaldantes e enfiamos o rosto nelas. Fomos esticando uma a uma nas mesas e dobrando-as com cuidado, casando as mangas das camisas e as costuras das calças e enrolando os pares de meias. Nunca dobrávamos nossas roupas em casa, mas aquela Laundromat estava tão quente e confortável que procuramos qualquer desculpa para prolongar nossa permanência ali.

UM VERANICO EM janeiro pareceu boa notícia, mas a neve começou a derreter, e a madeira da floresta ficou totalmente encharcada. Não conseguíamos um fogo que produzisse mais que fumaça. Se a madeira estava molhada, nós a cobríamos com o querosene usado nos lampiões. Papai desprezava iniciar fogo com querosene. Nenhum pioneiro de verdade se rebaixaria a usar isso. Não era barato e, como não produzia calor, demorava muito para fazer a madeira pegar fogo. Além de ser perigoso. Papai disse que se fôssemos descuidados com querosene, ele poderia explodir. Ainda assim, como a madeira molhada não pegava fogo, e estávamos todos congelando, colocávamos um pouco de querosene.

Certo dia, Brian e eu escalamos a encosta para tentar encontrar madeira seca enquanto Lori cuidava do fogo em casa. Quando Brian e eu sacudíamos neve de alguns galhos promissores, ouvimos uma explosão alta vindo de casa. Eu me virei e vi chamas subindo atrás das janelas.

Largamos nossa madeira e descemos a montanha correndo. Lori estava rolando pela sala, sobrancelhas e franja queimadas, cheiro de cabelo queimado no ar. Usara querosene para tentar melhorar o fogo e ele explodira, exatamente como papai avisara. Nada na casa pegara fogo além dos cabelos de Lori, mas a explosão deslocara o casaco e a saia, e as chamas haviam queimado suas coxas. Brian saiu e pegou neve, que colocamos nas pernas de Lori, agora de um rosa-escuro. No dia seguinte, suas coxas estavam tomadas por bolhas.

— Apenas lembre-se de que o que não a mata, a fortalece — disse mamãe depois de examinar as bolhas.

— Se isso fosse verdade, eu agora seria Hércules — retrucou Lori.

Dias depois, quando as bolhas explodiram, o líquido claro correu para os pés. Durante semanas, a parte da frente das pernas de Lori esteve tomada por feridas abertas, tão sensíveis que ela tinha dificuldade de dormir sob os cobertores. Mas a temperatura havia caído novamente, e se tirasse os cobertores, iria congelar.

CERTO DIA NAQUELE inverno, fui à casa de uma colega de turma para um trabalho escolar. O pai de Carrie Mae Blankenship era administrador do hospital do município de McDowel , e sua família morava em uma casa sólida de alvenaria na rua McDowel . A sala era decorada em tons de laranja e marrom, e o

padrão xadrez das cortinas combinava com o estofamento do sofá. Em uma parede havia uma foto emoldurada da irmã mais velha de Carrie Mae em sua beca de formatura no ensino médio. Era iluminada por uma lâmpada própria, como em um museu.

Havia também uma pequena caixa de plástico na parede perto da porta da sala. Uma fila de pequenos números aparecia no alto, sob uma alavanca. O pai de Carrie Mae me viu estudando a caixa enquanto Carrie estava fora da sala.

— É um termostato — disse. — Você move a alavanca para deixar a casa mais quente ou mais fria.

Eu achei que estava brincando, mas ele moveu a alavanca e ouvi um ronco abafado começar no porão.— É a fornalha — disse.