O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 65 de 71

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O Castelo de Vidro

Convidei mamãe e papai

Quando contei meus planos a papai, ele perguntou se Eric me fazia feliz e me tratava bem.

— Porque, caso contrário, por Deus, eu chutaria o traseiro dele com tanta força que a bunda se encaixaria entre as omoplatas.

— Ele me trata bem, papai — respondi.

Eu queria dizer mesmo que sabia que Eric não tentaria roubar meu pagamento ou me jogar pela janela, que eu sempre morrera de medo de me apaixonar por um alcoólatra e criador de caso carismático como você, papai, mas acabara me envolvendo com um homem que era exatamente o oposto.

TODOS OS MEUS PERTENCES cabiam em dois engradados plásticos de leite e um saco de lixo. Eu os arrastei para a rua, chamei um táxi e levei tudo até o prédio de Eric, do outro lado da cidade. O

porteiro, de uniforme azul com dragonas douradas, saiu de debaixo do toldo e insistiu em carregar os engradados para o saguão.

O apartamento de Eric tinha vigas no teto e uma lareira com moldura art déco. Eu realmente moro na Park Avenue, fiquei dizendo a mim mesma enquanto pendurava minhas roupas no closet que Eric esvaziara para mim. Depois comecei a pensar em mamãe e papai. Quando eles se mudaram para sua ocupação — uma viagem de metrô de quinze minutos rumo ao sul e meia dúzia de mundos de distância

—, parecia que finalmente haviam encontrado seu lugar, e fiquei pensando se comigo havia acontecido o mesmo.

CONVIDEI MAMÃE E PAPAI para visitar o apartamento. Papai disse que se sentiria deslocado e nunca apareceu, mas mamãe fez uma visita quase imediatamente depois do convite. Virou pratos para ler o nome do fabricante e levantou o canto do tapete persa para contar os nós. Ergueu a louça à luz e passou o dedo sobre a antiga arca de campanha. Depois, foi à janela e olhou para os prédios residenciais de tijolos e calcário do outro lado da rua.

— Eu realmente não gosto da Park Avenue — disse. — A arquitetura é monótona demais. Prefiro a da Central Park West.

Eu disse a mamãe que era a ocupante mais esnobe que já conhecera, e isso a fez rir. Sentamos no sofá da sala de visitas. Havia algo que queria discutir com ela. Disse que tinha um bom emprego e estava em posição de ajudar a ela e papai. Queria comprar algo que melhorasse a vida deles. Poderia ser um pequeno carro. Um depósito de segurança e alguns meses de aluguel de um apartamento. Ou a entrada de uma casa em um bairro barato.

— Não precisamos de nada. Estamos bem — disse mamãe, pousando a xícara de chá. — É com você que estou preocupada.

— Você está preocupada comigo?

— Sim. Muito preocupada.

— Mamãe, estou me saindo muito bem. Estou muito, muito confortável.

— É com isso que fico preocupada. Veja o modo como vive. Você se vendeu. Pelo que sei, acabará se tornando republicana — disse, balançando a cabeça. — Onde estão os valores com os quais foi criada?

MAMÃE FICOU AINDA mais preocupada com meus valores quando meu editor me ofereceu uma coluna na qual escreveria sobre o que chamava de bastidores dos poderosos. Mamãe achava que eu deveria escrever denúncias contra senhorios opressores, injustiça social e luta de classes no Lower East Side. Mas agarrei a oportunidade, pois significava que poderia me tornar uma daquelas pessoas que sabiam o que realmente estava acontecendo. Ademais, a maioria das pessoas em Welch conhecia bem a má situação da família Wal s, mas elas também tinham seus problemas — apenas eram melhores que nós em disfarçar isso. Eu queria fazer o mundo saber que ninguém tinha uma vida perfeita, que mesmo as pessoas que assim pareciam tinham seus segredos.

Papai achou ótimo eu escrever uma coluna semanal sobre, como definiu, as damas esqueléticas e os gatos gordos. Ele se tornou um dos meus leitores mais fiéis e ia à biblioteca pesquisar as pessoas da coluna, depois me telefonava com dicas.

— Esse liberal Astor tem um passado infernal — disse-me ele uma vez. — Talvez devêssemos vasculhar nessa direção.

No final, até mesmo mamãe reconheceu que eu me saíra bem.

— Ninguém esperava muito de você — confessou. — Lori era a inteligente, Maureen, a bonita, e Brian, o corajoso. Você nunca teve muito a seu favor, a não ser sempre ter dado duro.

Eu adorava meu novo trabalho ainda mais do que adorava meu endereço na Park Avenue. Era convidada para dezenas de festas toda semana: vernis ages em galerias, bailes beneficentes, premières de filmes, festas literárias e jantares privativos em salões com piso de mármore. Conhecia construtores, agentes, herdeiros, administradores de fundos, advogados, estilistas, jogadores profissionais de basquete, fotógrafos, produtores de cinema e correspondentes de emissoras de TV. Conhecia pessoas que tinham coleções de casas e gastavam mais em uma refeição do que minha família havia pagado pela casa na Lit le

Hobart. Verdade ou não, estava convencida de que se todas aquelas pessoas descobrissem sobre mamãe e papai, e quem eu realmente era, seria impossível manter meu emprego. Evitava, portanto, falar sobre meus pais. Quando não era possível, mentia.

Um ano depois de começar a coluna, eu estava em um pequeno restaurante lotado, diante de uma senhora elegante, que usava turbante de seda e supervisionava a Lista Internacional dos Mais Bem-Vestidos.

— De onde você vem, Jeannet e?

— Virgínia Ocidental.

— De que cidade?

— Welch.

— Que adorável. Qual a principal atividade econômica de Welch?

— Mineração de carvão.

Enquanto fazia perguntas, ela estudava o que eu vestia, avaliando o tecido, estimando o custo de cada peça e julgando meu gosto em geral.

— E sua família é dona de minas de carvão?

— Não.

— O que seus pais fazem?

— Minha mãe é artista.

— E seu pai?

— Empreendedor.

— Fazendo o quê?

Respirei fundo.

— Ele está desenvolvendo uma tecnologia para queimar com maior eficiência carvão betuminoso de nível inferior.

— E eles continuam na Virgínia Ocidental?

Decidi revelar tudo.