O Castelo de Vidro
Na manhã seguinte
— Ele tentou me matar — soluçou mamãe. — Seu pai quis me ver morrer.
— Eu não a empurrei! — protestou papai. — Juro por Deus que não. Ela pulou.
Ele estava em pé acima de mamãe, mãos estendidas, palmas para cima, jurando inocência.
Lori acariciou os cabelos de mamãe e secou suas lágrimas. Brian se apoiou na parede e balançou a cabeça.— Agora está tudo bem — fiquei repetindo.
NA MANHÃ SEGUINTE, em vez de dormir até tarde como costumava fazer, mamãe se levantou conosco e caminhou até a escola de ensino médio de Bat le Mountain, que ficava em frente à escola primária Mary S. Black. Pediu emprego e foi contratada imediatamente, já que tinha diploma e nunca havia professores suficientes no local. Os poucos professores da cidade não eram exatamente os melhores do mundo, como papai gostava de dizer, e apesar da carência eram despedidos de tempos em tempos.
Duas semanas antes, a srta. Page fora mandada embora quando a diretora a flagrou levando um rifle carregado pelo corredor da escola. A srta. Page disse que só queria motivar seus alunos a fazer o dever de casa. A professora de Lori deixara de aparecer mais ou menos na mesma época em que a srta. Page fora demitida, e mamãe foi escolhida para a turma de Lori. Os alunos realmente gostavam dela. Tinha a mesma filosofia sobre educar crianças que tinha sobre criá-las. Achava que regras e disciplinas continham as pessoas e que a melhor forma de deixar as crianças atingir seu potencial era oferecer liberdade. Não ligava se seus alunos se atrasavam ou não faziam os deveres de casa. Se eles queriam se expressar, tudo bem para ela, desde que não machucassem mais ninguém.
Mamãe estava o tempo todo abraçando os alunos e fazendo-os saber como os achava maravilhosos e especiais. Dizia aos garotos mexicanos que não deixassem ninguém dizer que não eram tão bons quanto os brancos. Dizia aos garotos navajo e apache que deviam se orgulhar de sua nobre herança indígena.
Alguns seguiam mamãe como cães sem dono.
Embora os alunos gostassem dela, mamãe odiava lecionar. Precisava deixar Maureen, que ainda não tinha dois anos, com uma mulher cujo marido traficante de drogas cumpria pena na prisão estadual. O
que realmente incomodava mamãe, no entanto, era que sua mãe fora professora e a pressionara a conseguir um diploma de magistério para ter um emprego ao qual recorrer, caso seus sonhos de se tornar artista não dessem certo. Mamãe achava que vovó Smith não tivera fé em seu talento artístico e, agora ao se tornar professora, reconhecia que a mãe estivera certa o tempo todo. À noite, ela ficava melancólica e murmurava. Pela manhã, dormia até tarde e fingia estar doente. Cabia a mim, Lori e Brian tirá-la da cama e garantir que estivesse vestida e na escola a tempo.
— Agora sou adulta — dizia mamãe quase toda manhã. — Por que não posso fazer o que quero?
— Lecionar é recompensador e divertido — disse Lori. — Vai acabar gostando.
Parte do problema era que os outros professores e a diretora, a srta. Beat y, achavam mamãe uma péssima professora. Enfiavam a cabeça na sala e viam os alunos brincando de pega e jogando apagadores enquanto mamãe ficava na frente girando como um pião e soltando pedaços de giz das mãos para demonstrar a força centrífuga.
A srta. Beat y, que usava os óculos em uma corrente pendurada no pescoço e fazia o penteado no salão de beleza de Winnemucca toda semana, disse a mamãe que ela precisava disciplinar os alunos. A srta.
Beat y também lhe disse para apresentar a programação de aulas da semana, manter a sala arrumada e corrigir deveres de casa imediatamente. Mas mamãe sempre se confundia, colocava as datas erradas na programação de aulas ou perdia os deveres de casa.
A srta. Beat y ameaçou demitir mamãe, então Lori, Brian e eu começamos a ajudar mamãe com o trabalho de escola. Eu ia à sala dela depois das aulas e limpava o quadro-negro, tirava o pó dos apagadores e recolhia papel do chão. À noite, Lori, Brian e eu corrigíamos os deveres de casa e as provas dos alunos dela. Mamãe nos deixava dar notas em trabalhos com questões de múltipla escolha, verdadeiro ou falso e preencher lacunas — praticamente tudo, menos questões discursivas, que achava ter de avaliar porque poderiam ter respondido certo de muitas formas diferentes. Eu gostava de dar nota para deveres
de casa. Gostava de saber que podia fazer o que adultos faziam para viver. Lori também ajudava mamãe com a programação de aulas. Garantia que mamãe a preenchesse corretamente e corrigia sua ortografia e matemática.
— Mamãe, dois “l” em Hal oween — dizia Lori, apagando a escrita de mamãe e inserindo as correções. — Também dois “e” e sem “e” mudo no final.
Mamãe ficava maravilhada com quanto Lori era brilhante.
— Lori só tira A — disse-me certa vez.
— Eu também — retruquei.
— Sim, mas você tem de se esforçar.
Mamãe estava certa, Lori era brilhante. Acho que ajudar mamãe daquele jeito era uma das coisas no mundo de que Lori mais gostava. Não era muito atlética e não gostava de explorar tanto quanto Brian e eu, porém adorava qualquer coisa com lápis e papel. Depois que mamãe e Lori terminavam a sessão de programação de aulas, sentavam-se em torno da mesa de bobina, desenhavam uma à outra e recortavam de revistas fotos de animais, paisagens e pessoas com rosto enrugado, colocando-as na pasta que mamãe tinha de potenciais temas de pintura.