O Castelo de Vidro
Erma morreu durante
Ele me levou a uma saída de ar no chão e pediu que colocasse a mão acima dela e sentisse o ar quente subindo. Eu não quis dizer nada para não mostrar como estava impressionada, mas durante vários dias sonhei que tínhamos um termostato no número 93 da rua Lit le Hobart. Sonhei que tudo o que precisávamos fazer para encher nossa casa com aquele calor limpo da fornalha era mover uma alavanca.
ERMA MORREU DURANTE a última grande nevasca, no final de nosso segundo inverno em Welch.
Papai disse que o fígado simplesmente parou de funcionar. Mamãe insistiu que Erma bebeu até morrer.
— Foi suicídio, como se ela tivesse enfiado a cabeça no forno, só que mais lentamente — disse mamãe.
Qualquer que fosse a causa, Erma deixara determinações detalhadas para sua morte. Durante anos, ela lera The Welch Daily News apenas por causa dos obituários e dos anúncios fúnebres com margens negras; recortava e guardava seus preferidos. Eles inspiraram seu próprio anúncio de falecimento, que ela escrevera e reescrevera. Deixara por escrito páginas de instruções sobre como queria que fosse seu funeral. Selecionara todos os hinos e preces, escolhera a funerária favorita, encomendara da J. C. Penney uma camisola rendada lavanda com a qual queria ser enterrada e escolhera um caixão lavanda em dois tons com suportes cromados brilhantes no catálogo da funerária.
A morte de Erma despertou o lado religioso de mamãe. Enquanto esperávamos o pastor, ela tirou seu rosário e rezou pela alma de Erma, que temia que estivesse em perigo, já que em sua opinião vovó teria cometido suicídio. Tentou nos fazer beijar o cadáver de Erma. Nós nos recusamos peremptoriamente, mas mamãe se adiantou à frente dos enlutados, ajoelhou com um grande gesto e beijou a bochecha de Erma com tanto vigor que foi possível ouvir o som estalado em toda a capela.
Eu estava sentada ao lado de papai. Era a primeira vez em minha vida que o via de gravata, que ele sempre chamara de forca. O rosto estava contraído e fechado, mas notei que estava perturbado. Mais perturbado do que jamais o vira, o que me surpreendeu, pois Erma parecia ter um tipo de controle malévolo sobre papai, e achei que ele ficaria aliviado de se livrar disso.
Enquanto andávamos de volta para casa, mamãe perguntou se tínhamos algo gentil a dizer sobre Erma, agora que havia falecido. Demos alguns passos em silêncio, e Lori disse:
— Ding-dong, a bruxa está morta.
Brian e eu começamos a dar risinhos abafados. Papai se virou e lançou um olhar tão frio e raivoso que achei que poderia bater nela.
— Deus do céu, ela era minha mãe! — disse, olhando furioso para nós. — Vocês, crianças. Vocês me deixam envergonhado. Ouviram? Envergonhado!
Ele desceu a rua até o bar do Junior. Todos o olhamos partir.
— Você sente vergonha de nós? — gritou Lori.
Papai simplesmente continuou a andar.
QUATRO DIAS DEPOIS, quando papai ainda não tinha voltado para casa, mamãe me mandou procurá-lo. — Por que eu sempre tenho de ir pegar papai?
— Porque ele gosta mais de você — respondeu. — E virá para casa se você pedir que venha.
O primeiro passo para localizar papai era ir à casa vizinha dos Freeman, que nos deixavam usar o telefone se pagássemos dez centavos, e ligar para vovô perguntando se papai estava lá. Vovô disse não ter ideia de onde papai estava.
— Quando vão ter seu próprio telefone? — perguntou o sr. Freeman, depois que desliguei.
— Mamãe é contra telefones — respondi enquanto punha a moeda na mesinha de café. — Acha que é um meio de comunicação impessoal.
Minha primeira parada, como sempre, foi no bar do Junior. Era o melhor de Welch, com uma
grande vitrine, uma grelha que fazia hambúrgueres e batatas fritas e uma máquina de fliperama.
— Ei! — chamou um dos frequentadores habituais quando entrei. — É a garotinha do Rex. Como está indo, querida?
— Estou bem, obrigada. Meu pai está aqui?
— Rex? — falou, virando-se para o homem ao seu lado. — Onde está aquele velho gambá do Rex?
— Eu o vi de manhã no Howdy House.
— Querida, você parece precisar de um descanso — disse o barman. — Sente-se e tome uma Coca-Cola por conta da casa.
— Não, obrigada. Tenho mais o que fazer.
Fui ao Howdy House, que era um ponto abaixo do bar do Junior. Era menor e mais escuro, e a única comida servida eram ovos em conserva. O barman me disse que papai estava no Pub, um ponto abaixo do Howdy House, quase escuro como breu, com balcão grudento e nenhuma comida. Lá estava ele, no meio de outros frequentadores, contando uma de suas histórias da Força Aérea.
Quando papai me viu, parou de falar e me olhou como sempre fazia quando eu ia encontrá-lo em um bar. Era sempre um momento constrangedor para ambos. Eu não queria precisar buscá-lo mais do que ele queria sua filha esfarrapada chamando-o para casa como um aluno matando aula. Ele me lançou aquele olhar estranho e frio por um momento, depois deu um grande sorriso caloroso.
— Ei, Cabra-Montesa! — gritou. — O que você está fazendo nesta espelunca?
— Mamãe disse que você tem de ir para casa — falei.
— Ela disse, não é mesmo?
Ele pediu uma Coca-Cola para mim e outro uísque para ele mesmo. Eu continuava a dizer a papai que era hora de ir embora, mas ele continuava a me ignorar e a pedir mais doses, como se tivesse de virar um monte delas antes de poder encarar nossa casa. Foi cambaleando ao banheiro, voltou, pediu uma saideira, bateu o copo no balcão e caminhou até a porta. Perdeu o equilíbrio tentando abri-la e se estatelou no chão. Tentei ajudá-lo a se levantar, mas ele continuava caindo.
— Querida, você não vai conseguir levá-lo a lugar nenhum assim — disse um homem atrás de mim. — Dou uma carona a vocês.
— Eu agradeceria por isso, senhor. Se não estiver fora de seu caminho.
Alguns dos outros frequentadores ajudaram o homem e a mim a colocar papai na caçamba da picape.
Apoiamos papai em uma caixa de ferramentas. Era final de tarde do início da primavera, a luz começava a murchar, e as pessoas na rua McDowel trancavam suas lojas e iam para casa.
Papai começou a cantar uma de suas músicas preferidas.
Swing low, sweet chariot
Coming for to carry me home.
[Balance pouco, car uagem de fogo, Chegando para me levar para casa.]
Papai tinha uma bela voz de barítono, com força, timbre e alcance e, apesar de estar de porre, cantou aquele hino com a potência que merece.
I looked over Jordan, and what did I se
Coming for to car y me home?
A band of angels coming after me
Coming for to car y me home.
[Eu olhei para o Jordão, e o que vi
Chegando para me levar para casa?
Um bando de anjos indo me buscar
Chegando para me levar para casa.]
Subi ao lado do motorista. A caminho de casa — com papai ainda cantando na parte de trás da picape, prolongando tanto a palavra “low” que parecia uma vaca mugindo —, o homem me perguntou sobre a escola. Contei que estava estudando muito porque queria me tornar veterinária ou geóloga especializada no período Miocênico, quando as montanhas do oeste se formaram. Contava a ele como geodos eram criados de bolhas na lava, quando ele me interrompeu:
— Para a filha do bêbado da cidade, você tem grandes planos — falou.
— Pare o carro! — pedi. — Podemos ir sozinhos a partir daqui.
— Uau, eu não quis dizer nada com isso — reagiu ele. — E você sabe que não conseguirá levá-lo para casa sozinha.
Ainda assim ele parou. Abri a caçamba da picape e tentei arrastar papai para fora, mas o homem estava certo. Não conseguia. Voltei a subir ao lado do motorista, cruzei os braços sobre o peito e olhei fixamente para a frente. Quando chegamos ao 93 da rua Lit le Hobart, ele me ajudou a tirar papai.
— Sei que você se ofendeu com o que eu disse — falou o homem. — Mas estava fazendo um elogio.Talvez devesse ter-lhe agradecido, mas simplesmente esperei que partisse e chamei Brian para me ajudar a levar papai colina acima para casa.
DOIS MESES DEPOIS de Erma ter morrido, o tio Stanley adormeceu no porão enquanto lia quadrinhos e fumava um cigarro. A grande casa de tábuas queimou totalmente, mas vovô e Stanley saíram vivos e se mudaram para um apartamento de dois cômodos no porão de uma velha casa do outro lado da colina. Os traficantes de drogas que moraram lá antes haviam pichado palavrões e feito desenhos psicodélicos nas paredes e nos canos do teto. O senhorio não os cobrira, tampouco vovô ou Stanley o fizeram.
Vovô e tio Stanley tinham um banheiro funcionando, então todo fim de semana alguns de nós iam lá tomar banho. Uma vez, eu estava sentada ao lado de tio Stanley no sofá de seu quarto, assistindo ao seriado He haw e esperando minha vez na banheira. Vovô fora à hospedaria Moose, onde passava a maior parte do dia; Lori tomava banho; e mamãe estava à mesa no quarto de vovô, fazendo palavras cruzadas.
Senti a mão de Stanley deslizando sobre a minha coxa. Eu o encarei, mas ele olhava para as garotas He haw com tanta atenção que não pude ter certeza de que fazia de propósito, e afastei a mão dele sem dizer nada.
Alguns minutos depois, a mão dele deslizou novamente sobre minha perna. Baixei os olhos e vi que a calça de tio Stanley estava aberta e ele brincava com ele mesmo. Senti vontade de dar um soco nele, mas tive medo de me meter em problemas como acontecera com Lori depois de socar Erma, então corri para mamãe.
— Mãe, tio Stanley está se comportando de maneira inadequada — contei.
— Ah, você provavelmente está imaginando — retrucou ela.
— Ele me agarrou! E está batendo punheta!
Mamãe inclinou a cabeça e pareceu preocupada.
— Pobre Stanley. Ele é tão solitário. .
— Mas foi nojento!
Mamãe me perguntou se eu estava bem. Dei de ombros e anuí.
— Está tudo certo — disse, e explicou que agressão sexual era um crime de percepção. — Se você não acha que foi agredida, não foi. Muitas mulheres fazem escândalo demais com essas coisas. Mas você é mais forte que isso — falou, e voltou às palavras cruzadas.
Depois disso me recusei a voltar à casa de vovô. Ser forte, tudo bem, mas a última coisa de que precisava era tio Stanley pensar que eu voltaria ali para mais uma de suas brincadeiras. Eu fazia o que podia para me lavar na casa da Lit le Hobart. Havia na cozinha uma bacia de alumínio na qual só cabíamos se levássemos as pernas até o peito. Na época, o clima estava quente o bastante para encher a bacia de água na torneira debaixo da casa e tomar banho na cozinha. Depois do banho, eu me acocorava ao lado da bacia, enfiava a cabeça na água e lavava os cabelos. Mas carregar todos aqueles baldes de água até a casa era um esforço, e eu adiava o banho até estar me sentindo muito fedorenta.
NA PRIMAVERA, começaram as chuvas, encharcando o vale durante dias com cortinas de água. A água corria por valas abertas na colina, levando pedras e pequenas árvores, e escorria pelas ruas, arrancando placas de asfalto. A água desovava nos córregos, que enchiam e ficavam marrom-claros e espumosos, como um milk-shake de chocolate. Os córregos alimentavam o Tug, que transbordou, inundando casas e lojas ao longo da rua McDowel . Havia um metro e vinte de lama em algumas casas, e as picapes e os trailers foram carregados. No vale do riacho Búfalo, uma barragem de mina cedeu, e uma onda de água preta de nove metros de altura matou cento e vinte e seis pessoas. Mamãe disse que era como a natureza se vingava dos homens que violentavam e saqueavam a terra, destruindo o sistema de drenagem da própria natureza ao desmatar florestas e cavar montanhas.
A rua Lit le Hobart era alta demais em relação ao vale para ser inundada, mas a chuva levou pedaços da rua para o quintal das pessoas que moravam abaixo de nós. A água corroeu parte do solo ao redor dos pilares que sustentavam nossa casa, tornando-a ainda mais precária. O buraco no teto da cozinha aumentou, e depois o teto do quarto no lado de Brian e Maureen começou a vazar. Brian ficava no beliche de cima e, quando chovia, estendia uma lona sobre o corpo para conter a água que pingava.
Tudo na casa estava encharcado. Um fino mofo verde se espalhou sobre livros, papéis e pinturas em pilhas tão altas, e apoiados uns sobre os outros em tantas camadas, que era difícil atravessar a sala.
Pequenos cogumelos brotaram nos cantos. A umidade comeu a escada de madeira que levava à casa, e subir por ela se tornou um risco diário. Mamãe caiu de um degrau podre e rolou colina abaixo. Passou semanas com hematomas em pernas e braços.
— Meu marido não bate em mim — dizia quando alguém a encarava. — Ele apenas não conserta a
escada.A varanda começara a apodrecer. A maioria dos pilares e das balaustradas cedera, e as tábuas do piso haviam ficado esponjosas e escorregadias com musgo e algas. Isso era um grande problema quando se precisava ir para baixo da casa usar o banheiro à noite, e todos escorregamos e caímos da varanda pelo menos uma vez. Eram bons três metros até o chão.