O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 30 de 71

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O Castelo de Vidro

Capítulo III

Papai ainda estava dentro de casa, me inclinei sobre Brian e gritei com toda a força. Papai apareceu na

porta, braços cruzados sobre o peito.

— Papai, por favor, venha, precisamos de você! — berrei.

Lori, Brian, mamãe e Maureen se juntaram.

— Precisamos de você! — gritamos. — Você é o chefe da família! É, papai! Venha!

Papai ficou ali olhando para nós por um momento. Depois jogou o cigarro que estava fumando no pátio, fechou a porta da frente, andou até o carro e mandou mamãe ir para o lado — ele ia dirigir.

III

Welch

EM BATTLE MOUNTAIN havíamos parado de dar nome aos carros da família Wal s, porque eram tão dilapidados que papai disse que não mereciam nomes. Mamãe contou que, enquanto crescia na fazenda, eles nunca batizavam o gado, pois sabiam que teriam de matá-lo. Se não déssemos um nome ao carro, não ficaríamos tão tristes quando tivéssemos de abandoná-lo.

A Oferta do Cofrinho era apenas o Oldsmobile, e nunca dissemos o nome com algum carinho ou mesmo pena. Aquele Oldsmobile foi uma lata velha desde o momento em que o compramos. Quando quebrou pela primeira vez, ainda não tínhamos chegado à divisa do Novo México. Papai enfiou a cabeça sob o capô, deu um jeito no motor e ele voltou a funcionar, porém quebrou novamente duas horas depois. Papai o colocou para andar — “mais como mancar”, ele disse —, mas nunca andou mais rápido que vinte e cinco ou trinta quilômetros por hora. E o capô continuava abrindo, e tivemos de amarrá-lo com uma corda.

Fugimos de cabines de pedágio pegando estradas secundárias de mão dupla, onde normalmente tínhamos uma comprida fila de motoristas atrás de nós, buzinando de irritação. Quando uma das janelas do Oldsmobile parou de subir em Oklahoma, prendemos sacos de lixo nela. Dormíamos no carro toda noite e, depois de chegar tarde em Muskogee e estacionar em uma rua vazia do centro, acordamos e vimos um bando de pessoas cercando o carro, garotinhos apertando o nariz nas janelas e adultos balançando a cabeça e sorrindo.

Mamãe acenou para a multidão.

— Você sabe que está mal quando gente de Oklahoma ri de você — disse.

Com nossa janela fechada por saco de lixo, nosso capô preso por corda e o material de arte amarrado ao teto, éramos mais caipiras que os caipiras. A ideia deu a ela um ataque de riso.

Coloquei um cobertor sobre a cabeça e me recusei a tirá-lo antes que tivéssemos deixado os limites da cidade de Muskogee.

— A vida é uma peça cheia de tragédia e comédia — me disse mamãe. — Você deveria aprender a aproveitar um pouco mais os episódios cômicos.

LEVAMOS UM MÊS para cruzar o país. Poderíamos muito bem viajar em uma carroça coberta Conestoga. Mamãe continuava insistindo para que fizéssemos desvios turísticos para ampliar nossos horizontes. Fomos ver Álamo — “Davy Crocket e James Bowie mereceram o que lhes aconteceu por roubar esta terra dos mexicanos”, disse mamãe — e Beaumont, onde as bombas de petróleo se moviam como pássaros gigantescos. Em Louisiana, mamãe nos fez subir no teto do carro e arrancar tufos de barba-de-velho pendurada dos galhos das árvores.

Depois de cruzar o Mississippi, viramos rumo ao norte para Kentucky, e depois para o leste. Em vez do deserto plano cercado por montanhas irregulares, a terra subia e descia como um lençol ao ser sacudido. Finalmente chegamos ao interior montanhoso, subindo e penetrando cada vez mais nos Apalaches, parando de tempos em tempos para deixar o velho Oldsmobile recuperar o fôlego nas estradas íngremes e sinuosas. Era novembro. As folhas haviam ficado marrons e caíam das árvores, e uma névoa fria envolvia a lateral das montanhas. Havia riachos e córregos por todo lado em vez dos canais de irrigação que se viam no oeste, e o ar parecia diferente. Era muito parado, mais pesado e denso, e de alguma forma mais escuro. Por alguma razão, fez com que todos ficássemos quietos.

Ao anoitecer, chegamos a uma curva onde placas pintadas à mão anunciando oficinas e depósitos de carvão haviam sido pregadas em árvores na lateral da estrada. Fizemos a curva e nos vimos em um vale

fundo. Casas de madeira e pequenos prédios de tijolos margeavam o rio e subiam em pilhas irregulares nas duas encostas.

— Bem-vindos a Welch! — declarou mamãe.

Seguimos por ruas escuras e estreitas e paramos diante de uma grande casa desgastada. Ficava no lado de baixo da rua, e tivemos de descer um lance de escada para chegar a ela. Quando pisamos na varanda, uma mulher abriu a porta. Era enorme, com pele pálida e três queixos. Grampos prendiam atrás os cabelos grisalhos compridos, e havia um cigarro balançando na boca.

— Bem-vindo ao lar, filho — disse, abraçando papai longamente. Depois se virou para mamãe, dizendo sem sorrir: — Gentil de sua parte me deixar ver meus netos antes de morrer.

Sem tirar o cigarro da boca, ela deu um rápido e rígido abraço em cada um de nós. Sua bochecha estava grudenta de suor.

— Prazer em conhecê-la, vovó — eu disse.

— Não me chame de vovó — cortou ela. — Meu nome é Erma.

— Ela não gosta disso, porque a faz parecer velha — disse um homem que aparecera ao lado dela.

Parecia frágil, com cabelos brancos curtos espetados. A voz era tão murmurada que eu mal podia compreendê-lo. Não sabia se era o sotaque ou se talvez não estivesse usando as dentaduras. — Meu nome é Ted, mas você pode me chamar de vovô — prosseguiu ele. — Não me incomoda nada ser um avô.

Atrás de vovô estava um homem de rosto vermelho com uma cabeleira ruiva crespa saindo de seu boné de beisebol, que tinha um logotipo da Maytag. Usava um casaco xadrez vermelho e preto, sem camisa por baixo. Não parava de anunciar que era nosso tio Stanley, e não parou de me abraçar e beijar, como se eu fosse alguém que ele realmente amava e não via fazia séculos. Era possível sentir o cheiro de uísque em seu hálito, e quando falava podiam-se ver as beiradas rosadas de suas gengivas banguelas.

Eu encarei Erma, Stanley e vovô, procurando algum traço que me lembrasse papai, mas não encontrei nenhum. Pensei que talvez aquela fosse uma das brincadeiras de papai. Papai devia ter armado para que as pessoas mais esquisitas da cidade fingissem ser sua família. Em alguns minutos, ele começaria a rir e nos diria onde seus pais de verdade moravam, iríamos até lá e uma mulher sorridente com cabelos perfumados nos receberia com tigelas fumegantes de creme de trigo. Olhei para papai. Não sorria e continuava a puxar a pele do pescoço como se estivesse com coceira.

SEGUIMOS ERMA, STANLEY e vovô para dentro da casa. Estava frio lá, e o ar cheirava a mofo, cigarro e roupa suja. Nós nos apertamos ao redor de um fogareiro de carvão arredondado de ferro fundido no meio da sala e esticamos as mãos para esquentá-las. Erma tirou uma garrafa de uísque do bolso do vestido, e papai pareceu feliz pela primeira vez desde que deixamos Phoenix.

Erma nos levou à cozinha, onde estava fazendo o jantar. Uma lâmpada nua pendia do teto, lançando uma luz dura sobre as paredes amareladas, cobertas de uma fina camada de gordura. Erma enfiou um gancho curvo em um disco de ferro no alto de um velho fogão a carvão, ergueu-o e, com a outra mão, agarrou um atiçador na parede e remexeu as brasas alaranjadas quentes do lado de dentro. Mexeu uma panela de favas refogando em banha e botou um grande bocado de sal. Depois colocou uma travessa de biscoitos Pil sbury na mesa da cozinha e serviu um prato de favas para cada um.

As favas estavam tão cozidas que se abriram quando enfiei o garfo nelas, e eram tão salgadas que mal consegui me obrigar a engolir. Tampei o nariz, que era como mamãe nos ensinara a engolir coisas que haviam ficado meio podres. Erma viu e deu um tapa em minha mão.

— Pedintes não podem escolher — disse.

Erma disse que havia três quartos em cima, mas ninguém estivera no segundo andar em quase dez

anos, porque as tábuas corridas estavam totalmente podres. Tio Stanley se ofereceu para nos dar seu quarto no porão e dormir em um catre na entrada, enquanto estivéssemos ali.

— Só ficaremos alguns dias até que encontremos um lugar para nós — disse papai.

Depois do jantar, mamãe e nós, crianças, descemos para o porão. Era uma grande sala úmida com paredes de blocos de cimento e um piso de linóleo verde. Havia outro fogareiro a carvão, uma cama, um sofá-cama, onde mamãe e papai podiam dormir, e um gaveteiro pintado de vermelho-bombeiro.

Continha centenas de revistas em quadrinhos gastas — Luluzinha, Riquinho, Recruta Zero, Arquibaldo e sua turma — que tio Stanley colecionara ao longo dos anos. Sob o gaveteiro, havia jarros de genuíno uísque ilegal.Subimos na cama de Stanley. Para deixá-la menos apertada, Lori e eu nos deitamos com a cabeça para uma ponta, e Brian e Maureen com a deles para a outra. Os pés de Brian estavam no meu rosto, eu o agarrei pelo calcanhar e comecei a mastigar seus dedos. Ele riu, chutou, e em retaliação começou a mastigar meus dedos, e isso me fez rir. Ouvimos um tuc, tuc, tuc alto vindo de cima.