O Castelo de Vidro
Havia sido um inverno
— Mesmo que o faça, eu terei partido. Partirei para Nova York em menos de três meses.
— O que eu estava pensando era que você não precisa ir imediatamente — papai falou. Eu poderia ficar, me formar na escola secundária Welch e ir para a faculdade estadual de Bluefield, como a srta.
Katona sugerira, depois arrumar um emprego em The Welch Daily News. Ele me ajudaria com as matérias, como me ajudara com aquela sobre Chuck Yeager. — E vou construir o Castelo de Vidro, juro. Todos vamos morar juntos nele. É muito melhor que qualquer apartamento que possa encontrar em Nova York, posso garantir, diabos.
— Papai, assim que as aulas terminarem, eu pegarei o primeiro ônibus para fora daqui. Se os ônibus pararem de circular, pegarei carona. Andarei se for preciso. Vá em frente e construa o Castelo de Vidro, mas não faça isso por mim.
Papai enrolou as plantas e saiu da sala. Um minuto depois, eu o ouvi descendo a encosta.
HAVIA SIDO UM INVERNO ameno, e o verão chegou cedo às montanhas. No final de maio, os corações-sangrentos e os rododendros haviam florescido, e a fragrância de madressilva descia pela encosta e penetrava na casa. Tivemos os primeiros dias quentes antes que as aulas terminassem.
Naquelas duas semanas, eu passava de excitada para nervosa, depois em pânico e de volta a excitada em minutos. No último dia de aula, limpei meu armário e fui me despedir da srta. Bivens.
— Tenho um pressentimento sobre você — disse ela. — Acho que vai se sair bem lá. Mas você me deixou com um problema. Quem vai editar o Wave no ano que vem?
— Tenho certeza de que encontrará alguém.
— Estive pensando em chamar seu irmão.
— As pessoas poderão achar que os Wal s estão se tornando uma dinastia.
A srta. Bivens sorriu.
— Talvez estejam.
EM CASA NAQUELA NOITE, mamãe limpou uma mala que usara para sua coleção de sapatos de dança, e eu a enchi com minhas roupas e meus exemplares encadernados de The Maroon Wave. Queria deixar para trás tudo do passado, mesmo as coisas boas, e dei meu geodo a Maureen. Estava empoeirado e fosco, mas disse a ela que, se esfregasse bem, iria cintilar como um diamante. Enquanto eu limpava a caixa na parede junto à cama, Brian falou:
— Adivinhe? Mais um dia e você estará em Nova York. — E depois começou a imitar Frank Sinatra cantando “New York, New York” desafinado e fazendo sua dança de parasita social.
— Cale a boca, seu grande idiota! — falei e o soquei forte no ombro.
— Você é a idiota! — retrucou e me acertou de volta. Trocamos mais alguns socos, depois nos olhamos sem jeito.
O único ônibus para fora de Welch saía às sete e dez da manhã. Eu precisava estar na rodoviária antes das sete. Mamãe anunciou que, como eu era madrugadora por natureza, não iria se levantar para me ver partir.
— Sei como você é e sei como a rodoviária é. E essas grandes despedidas são sentimentais demais.
MAL CONSEGUI DORMIR naquela noite. Como Brian. De tempos em tempos, ele rompia o silêncio anunciando que em sete horas eu iria deixar Welch, em seis horas eu iria deixar Welch, e começávamos a gargalhar. Adormeci apenas para ser acordada à primeira luz por Brian, que, como mamãe, não era madrugador. Estava puxando meu braço.
— Não é mais brincadeira — disse ele. — Em duas horas você terá partido.
Papai não voltara para casa naquela noite, mas quando passei pela janela dos fundos com minha mala, o vi sentado na base dos degraus de pedra, fumando um cigarro. Insistiu em carregar a mala para mim, descemos a Lit le Hobart e seguimos pela estrada velha.
As ruas vazias estavam úmidas. De vez em quando, papai olhava para mim e piscava, ou fazia um barulho com a língua como se eu fosse um cavalo e ele estivesse me estimulando. Isso parecia fazê-lo sentir-se como um pai deveria ser, estimulando a coragem da filha, ajudando-a a enfrentar os terrores do desconhecido.
Quando chegamos à rodoviária, papai se virou para mim.
— Querida, a vida em Nova York pode não ser tão fácil quanto você acha que será.
— Posso dar conta — respondi.
Papai enfiou a mão no bolso e pegou o canivete preferido, aquele com cabo de chifre e a lâmina de aço azul alemão que havíamos usado na Caça ao Demônio.
— Vou me sentir melhor se você estiver com isto — disse, e colocou o canivete em minha mão.
O ônibus entrou na rua e parou com um sibilo de ar comprimido em frente à rodoviária Trailways.
O motorista abriu o bagageiro e colocou minha mala com as outras. Abracei papai. Quando nossas faces se tocaram e senti o cheiro de fumo, loção e uísque, notei que ele se barbeara por mim.