O Castelo de Vidro
Capítulo IV
— Se as coisas não derem certo, você sempre pode voltar para casa — falou. — Estarei aqui esperando você. Sabe disso, não sabe?
— Eu sei.
Eu sabia que, do jeito dele, estaria. Também sabia que nunca iria voltar.
Havia poucos passageiros no ônibus, então peguei uma boa poltrona na janela. O motorista fechou a porta, e partimos. No início, resolvi não me virar. Queria olhar para a frente, para onde estava indo, não para trás, para o que estava deixando, mas acabei me virando.
Papai acendia um cigarro. Eu acenei, e ele acenou de volta. Depois enfiou as mãos nos bolsos, o cigarro pendurado na boca, e ficou em pé ali, ombros levemente caídos e olhar distraído. Fiquei pensando se estaria lembrando como também ele deixara Welch cheio de empolgação aos dezessete anos e tão convencido quanto eu estava de que nunca voltaria. Fiquei pensando se ele estaria esperando que sua garota preferida voltasse, ou esperava que, ao contrário dele, fosse embora para sempre.
Enfiei a mão no bolso e toquei o canivete de cabo de osso, depois acenei de novo. Papai só ficou ali em pé. Ficou cada vez menor, fizemos uma curva, e ele desapareceu.
IV
Nova York
ERA CREPÚSCULO QUANDO tive meu vislumbre dela à distância, atrás de um pico. Tudo o que podia ver eram as espirais e os pesados topos dos prédios. E chegamos ao alto do pico, e lá, do outro lado de um rio largo, estava uma ilha enorme abarrotada de ponta a ponta com arranha-céus, o vidro brilhando como fogo ao pôr do sol.
Meu coração acelerou, e as palmas de minhas mãos ficaram úmidas. Segui pelo corredor do ônibus até o pequeno banheiro nos fundos e me lavei na pia de metal. Estudei meu rosto no espelho e fiquei pensando o que os nova-iorquinos achariam quando me vissem. Veriam uma caipira dos Apalaches, uma garota alta e desajeitada, com cotovelos, joelhos e dentes projetados? Durante anos, papai me dissera que eu tinha beleza interior. A maioria das pessoas não a via. Eu mesma tinha dificuldade em vê-la, mas papai sempre me dizia que conseguia ver muito bem, e era isso o que importava. Esperava que assim que os nova-iorquinos olhassem para mim, vissem seja lá o que for que papai via.
QUANDO O ÔNIBUS parou na rodoviária, peguei minha mala e andei até o meio da estação. Um borrão de corpos apressados passou por mim, deixando-me como uma pedra em um riacho, e ouvi alguém chamar meu nome. Era um cara pálido com óculos grossos de armação escura, que faziam seus olhos parecer pequenos. Seu nome era Evan, amigo de Lori. Ela estava trabalhando, e pedira que fosse me receber. Evan se ofereceu para levar minha mala e me conduziu até a rua, um lugar barulhento com multidões esperando para atravessar o cruzamento, carros presos no engarrafamento e papéis voando para todos os lados. Eu o segui para o meio daquilo.
Depois de um quarteirão, Evan pôs minha mala no chão.
— Isso é pesado — falou. — O que tem aqui dentro?
— Minha coleção de carvão.
Ele olhou para mim sem entender.
— Só estou brincando com você — eu disse, dando um soquinho no ombro dele.
Evan não era rápido demais para entender, mas considerei isso um bom sinal. Não havia motivo para que eu ficasse automaticamente assombrada com a esperteza e o intelecto daqueles nova-iorquinos. Peguei a mala. Evan não insistiu que a devolvesse. Pareceu meio que aliviado por eu a estar levando.
Continuamos a descer aquele quarteirão, e ele me olhava de lado.
— Vocês, garotas da Virgínia Ocidental, são uma raça durona — falou.
— Você entendeu tudo — respondi.
EVAN ME DEIXOU em um restaurante alemão chamado Zum Zum. Lori estava atrás do balcão, carregando quatro canecas de cerveja em cada mão, os cabelos presos em tranças enroladas e falando com um forte sotaque alemão, porque, como explicou depois, isso aumentava as gorjetas.
— Êsta é mein irmã! — anunciou aos homens em uma de suas mesas.
Eles ergueram as canecas de cerveja e gritaram:
— Velkomen a New Yorken!
Eu não sabia nada de alemão, então disse:
— Grazi!
Todos deram risada com isso. Lori estava no meio do turno, por isso saí para vagar pelas ruas. Eu me perdi duas vezes e tive de pedir informações. As pessoas haviam passado meses me avisando que os
nova-iorquinos eram grosseiros. Naquela noite, aprendi que era verdade, que se tentasse pará-los na rua, muitos continuariam andando, balançando a cabeça; os que paravam inicialmente não me olhavam.
Desviavam o olhar para o quarteirão, com o rosto fechado. Mas assim que percebiam que não estava tentando roubar ou pedir algo, tornavam-se calorosos. Olhavam nos meus olhos e davam instruções detalhadas, como seguir nove quarteirões, virar à direita e andar mais dois quarteirões para chegar ao Empire State Building, e assim por diante. Até desenhavam mapas. Percebi que os nova-iorquinos fingiam ser inamistosos.
MAIS TARDE, LORI e eu pegamos um metrô para Greenwich Vil age e caminhamos até Evangeline, uma pensão feminina onde ela morava. Na primeira noite, acordei às três da manhã e vi o céu aceso em um laranja brilhante. Fiquei pensando se haveria algum grande incêndio em algum lugar, mas de manhã Lori me contou que o brilho laranja era causado pela poluição do ar refratando a luz das ruas e dos prédios. Explicou que o céu noturno ali sempre tinha aquela cor. O que significava que em Nova York nunca se podiam ver as estrelas. Mas Vênus não era uma estrela. Fiquei pensando se conseguiria vê-lo.
Já no dia seguinte eu consegui um emprego em uma hamburgueria na rua 14. Descontando impostos e seguridade social, eu levaria para casa mais de oitenta dólares por semana. Passara muito tempo imaginando como Nova York seria, mas uma coisa que nunca me ocorrera era que as oportunidades surgiriam tão facilmente. Afora ter de vestir aqueles constrangedores uniformes vermelho e amarelo com chapéu caído combinando, eu adorava o trabalho. A agitação do almoço e do jantar era sempre excitante, com as filas se formando no balcão, os caixas gritando pedidos ao microfone, os chapeiros jogando hambúrgueres na grelha, todos correndo do balcão de acompanhamentos para o posto de bebidas e de lá para o aquecedor infravermelho de batatas fritas, preparando os pedidos, o gerente ajudando sempre que surgia a ameaça de uma crise. Tínhamos desconto de vinte por cento nas refeições, e nas primeiras semanas comi um hambúrguer e tomei um milk-shake de chocolate todos os dias na hora do almoço.
NO MEIO DO VERÃO, Lori encontrou um apartamento em um bairro que poderíamos pagar — South Bronx. O prédio art déco amarelo deveria ter sido bastante elegante ao ser inaugurado, mas, no momento, grafites cobriam as paredes externas, e os espelhos rachados no saguão eram sustentados por fita adesiva.
Ainda assim era o que mamãe chamava de boa estrutura.
Nosso apartamento era maior que a casa inteira da Lit le Hobart, e mais elegante. Tinha pisos de tacos de carvalho reluzentes, um hal com dois degraus que levava à sala de estar abaixo — onde eu dormia — e, ao lado, um quarto que se tornou o de Lori. Também tínhamos cozinha com geladeira funcionando e um fogão a gás, não precisávamos de fósforos; bastava virar o registro, ouvir o estalo e ver o círculo de chama azul subir pelos furinhos do queimador. Meu aposento preferido era o banheiro.
Tinha piso de ladrilhos preto e branco, um vaso sanitário que dava uma descarga poderosa, uma banheira tão funda que se podia submergir inteiramente, e água quente que não acabava nunca.
Não me incomodava que o apartamento ficasse em um bairro ruim; sempre havíamos morado em bairros ruins. Garotos porto-riquenhos passavam horas no quarteirão, tocando música, dançando, sentados em carros abandonados, agrupados na entrada da estação elevada do metrô e em frente ao bar que vendia cigarros por unidade, chamados de soltos. Fui atacada algumas vezes. As pessoas sempre me
diziam que se fosse assaltada deveria dar meu dinheiro em vez de correr o risco de morrer. Mas de jeito nenhum ia dar a um estranho meu dinheiro suado, e não queria ser conhecida no bairro como um alvo fácil, sempre lutava. Às vezes ganhava, outras perdia. O que funcionava melhor era ficar atenta. Uma vez, quando estava entrando no trem, um cara tentou agarrar minha bolsa, mas puxei-a de volta, e a alça arrebentou. Ele caiu de mãos vazias no chão da plataforma, e enquanto o trem partia, olhei pela janela e dei um grande aceno sarcástico.
NAQUELE OUTONO, Lori me ajudou a encontrar uma escola pública em que, em vez de assistir às aulas, os alunos faziam estágios por toda a cidade. Um dos meus estágios foi em The Phoenix, um jornal semanal produzido em uma loja decadente na Atlantic Avenue, centro do Brooklyn, perto da velha fábrica do chocolate laxante Ex-Lax. O dono, editor e diretor era Mike Armstrong. Ele se via como um caçador de escândalos e empenhara sua casa cinco vezes para sustentar The Phoenix. A equipe inteira usava máquinas de escrever manuais Underwood com fitas gastas e teclas amareladas. O “e” da minha estava quebrado, e no lugar eu usava o @. Nunca tínhamos papel, e escrevíamos em pres releases descartados que catávamos no lixo. Pelo menos uma vez por mês, o cheque de pagamento de alguém era devolvido pelo banco. Os repórteres estavam sempre indo embora, insatisfeitos. Na primavera, enquanto o sr.
Armstrong entrevistava uma jornalista formada para uma vaga, um rato passou correndo sobre o pé dela, e ela gritou. Depois que a garota saiu, o sr. Armstrong olhou para mim. A comissão de zoneamento urbano do Brooklyn ia se reunir naquela tarde, e ele não tinha ninguém para cobrir o evento.
— Se você começar a me chamar de Mike em vez de sr. Armstrong, o emprego é seu — falou.
Eu acabara de fazer dezoito anos. Larguei meu emprego na lanchonete no dia seguinte e me tornei repórter de The Phoenix em tempo integral. Nunca fora mais feliz na vida. Trabalhava noventa e quatro horas por semana, meu telefone tocava sem parar, eu vivia correndo para entrevistas e conferindo o Rolex de dez dólares que comprara na rua para ter certeza de que não atrasaria, correndo de volta para escrever a matéria e ficando ali até quatro da manhã para compor o texto, quando o tipógrafo se demitiu.
E levando para casa cento e vinte e cinco dólares por semana. Se o cheque fosse compensado.
EU ESCREVIA A BRIAN longas cartas descrevendo a doce vida em Nova York. Ele escrevia de volta dizendo que as coisas em Welch continuavam a piorar. Papai vivia bêbado o tempo todo, a não ser quando estava na prisão; mamãe se recolhera totalmente a seu próprio mundo; e Maureen meio que morava com vizinhos. O teto no quarto desabara, e Brian transferira sua cama para a varanda. Fizera paredes pregando tábuas na balaustrada, mas também chovia muito ali, e ele dormia sob o bote inflável.
Eu disse a Lori que Brian deveria vir morar conosco em Nova York, e ela concordou. Mas eu temia que Brian quisesse ficar em Welch. Ele parecia mais um garoto do interior que da cidade. Estava sempre vagando pela floresta, mexendo com um motor dois tempos que havia sido descartado, cortava madeira ou esculpia uma cabeça de animal em um bloco de madeira. Nunca se queixou de Welch e, diferentemente de Lori e de mim, tinha muitos amigos lá. Mas eu achava que, no longo prazo, seria bom para Brian sair da cidade. Fiz uma lista de motivos pelos quais ele deveria se mudar para Nova York, para poder argumentar com Brian.
Liguei para ele na casa de vovô e fiz minha proposta. Ele teria de arrumar um emprego para pagar sua parte do aluguel e da comida, expliquei, mas sobravam empregos na cidade. Poderia dividir a sala de
estar comigo — havia muito espaço para uma segunda cama —, o vaso sanitário tinha descarga, e o teto nunca pingava.
Quando terminei, Brian ficou em silêncio por um instante. Depois perguntou:
— Quando posso ir?
ASSIM COMO EU, Brian pegou o ônibus na Trailways na manhã seguinte depois de concluir a penúltima série. Com um dia em Nova York, ele conseguiu um emprego em uma sorveteria do Brooklyn, não longe de The Phoenix. Dizia gostar mais do Brooklyn que de Manhat an ou do Bronx, mas criou o hábito de passar em The Phoenix ao sair do trabalho e esperar por mim até três ou quatro da manhã, para podermos pegar o metrô juntos para South Bronx. Nunca dizia nada, mas acho que pensava que, como quando éramos crianças, tínhamos mais chances se enfrentássemos o mundo juntos.
Eu não via sentido em ir para a faculdade. Era caro, e meu objetivo de estudar seria conseguir um diploma para trabalhar como jornalista. Mas eu tinha um emprego em The Phoenix. Quanto ao aprendizado, imaginei que não era necessário um diploma universitário para me tornar uma das pessoas que sabiam o que realmente estava acontecendo. Se prestasse atenção, captaria as coisas sozinha. Quando ouvia uma menção a algo que ignorava — hábitos kosher, Tammany Hal , alta-costura —, pesquisava depois. Certo dia, entrevistei um ativista comunitário que descreveu determinado programa de empregos como um retorno à era progressista. Eu não tinha ideia do que seria a era progressista e, de volta à redação, peguei a World Book Encyclopedia. Mike Armstrong quis saber o que estava fazendo, e quando expliquei, ele perguntou se já havia pensado em ir para a universidade.
— Por que deveria abrir mão deste emprego para fazer faculdade? Você tem aqui jornalistas formados que fazem o que estou fazendo.
— Talvez você não acredite, mas há empregos melhores do que o que você tem agora. Talvez queira um desses um dia. Mas não sem um diploma universitário.
Mike me prometeu que, se eu fosse para a universidade, poderia voltar a The Phoenix quando quisesse. Porém, acrescentou, achava que eu não iria querer.
AMIGOS DE LORI me disseram que a Columbia University era a melhor de Nova York. Como na época aceitava somente homens, eu me candidatei à sua instituição irmã, a Barnard, e fui aceita. Recebi bolsas e empréstimos para cobrir a maior parte da anuidade, que era alta, e havia poupado algum dinheiro trabalhando em The Phoenix. Mas para pagar o restante, tive de passar um ano atendendo telefonemas em uma empresa de Wal Street.
Mal comecei a faculdade e não pude mais pagar minha parte no aluguel, mas uma psicóloga me deixou ocupar um quarto em seu apartamento no Upper West Side em troca de cuidar de seus dois filhos pequenos. Consegui um emprego durante o fim de semana em uma galeria de arte, concentrei todas as minhas disciplinas em dois dias e me tornei editora de notícias do Barnard Bul etin. Mas desisti disso ao ser contratada como assistente editorial três dias por semana em uma das maiores revistas da cidade.
Colunistas de lá haviam publicado livros, coberto guerras e entrevistado presidentes. Eu cuidava da correspondência deles, verificava suas despesas e contava palavras de seus originais. Senti que começava a acontecer.
MAMÃE E PAPAI nos telefonavam de tempos em tempos da casa de vovô para dar notícias da vida em Welch. Comecei a temer esses telefonemas, já que sempre que os recebíamos era um problema novo: uma avalanche levara o que restara da escada; nossos vizinhos, os Freeman, estavam tentando condenar a casa; Maureen caíra da varanda e abrira a cabeça.
Quando Lori ouviu isso, declarou que era hora de Maureen também se mudar para Nova York.
Mas Maureen tinha apenas doze anos, e eu temia que fosse jovem demais para sair de casa. Tinha quatro anos quando nos mudamos para a Virgínia Ocidental, e ali era tudo o que ela realmente conhecia.
— Quem vai cuidar dela? — perguntei.
— Eu cuido — disse Lori. — Ela pode ficar aqui comigo.
Lori ligou para Maureen, que gritou de animação com a ideia, e depois Lori falou com mamãe e papai. Mamãe achou um ótimo plano, mas papai acusou Lori de roubar seus filhos e declarou que estava rompendo relações. Maureen chegou no começo do inverno. Nessa época, Brian havia se mudado para um apartamento em um prédio sem elevador perto do terminal rodoviário da Autoridade Portuária, e, usando o endereço dele, matriculamos Maureen em uma boa escola pública de Manhat an. Nos fins de semana nos reuníamos no apartamento de Lori. Fazíamos costeletas de porco fritas ou pratos enormes de espaguete com almôndegas e conversávamos sobre Welch. Ríamos tanto de toda aquela loucura que chegávamos a chorar.