O Castelo de Vidro

Jeannette Walls · Capítulo 64 de 71

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O Castelo de Vidro

Um mês depois, recebi

— É seu — falou papai. — Desde quando é errado um pai cuidar de sua garotinha?

— Mas eu não posso aceitar — falei, olhando para mamãe.

Ela se sentou ao meu lado e deu um tapinha na minha perna.

— Eu sempre acreditei no valor de uma boa educação — disse.

Quando me matriculei para o último ano na Barnard, paguei o que devia em minha anuidade com as notas amassadas de papai.

UM MÊS DEPOIS, RECEBI um telefonema de mamãe. Estava tão excitada que tropeçava nas palavras.

Ela e papai haviam encontrado um lugar para morar. Disse que sua nova casa ficava em um prédio abandonado em Lower East Side.

— É um pouco decrépito — reconheceu. — Mas só precisa de um pouco de amor e carinho. E o melhor de tudo, é de graça.

Outras pessoas estavam se mudando para prédios abandonados, disse. Eram chamados de ocupantes, e os prédios eram chamados de ocupações.

— Seu pai e eu somos pioneiros. Assim como meu trisavô, que ajudou a domesticar o oeste selvagem.

Mamãe ligou algumas semanas depois e disse que, embora a ocupação ainda precisasse de alguns toques finais — uma porta da frente, por exemplo —, ela e papai estavam oficialmente aceitando visitas.

Peguei o metrô para Astor Place em um final de tarde de primavera e segui para leste. O apartamento de mamãe e papai ficava em um prédio de seis andares sem elevador. A argamassa estava caindo, e tijolos haviam se soltado. Todas as janelas do primeiro andar haviam sido fechadas com madeira. Tentei abrir a porta da frente do prédio, mas onde deveriam estar cadeado e maçaneta havia apenas um buraco. Do lado de dentro, uma única lâmpada pendia de um fio no corredor. Em uma das paredes, pedaços de reboco haviam caído, revelando a estrutura de madeira, canos e fios. No terceiro andar, eu bati à porta do apartamento de mamãe e papai e ouvi a voz abafada de papai. Em vez de a porta se abrir para dentro, surgiram dedos dos dois lados, e ela foi erguida do batente. Lá estava papai, radiante e me abraçando enquanto dizia que ainda tinha de instalar dobradiças. Ele acabara de conseguir a porta, que encontrara no porão de outro prédio abandonado.

Mamãe veio correndo atrás dele, um sorriso tão largo que era possível ver seus molares, e me deu um grande abraço. Papai expulsou um gato de uma cadeira — já tinham colocado alguns móveis ali — e me convidou a sentar. A sala estava lotada de móveis quebrados, fardos de roupas, pilhas de livros e o material artístico de mamãe. Quatro ou cinco aquecedores elétricos funcionavam. Mamãe explicou que papai ligara cada ocupação do prédio a um cabo isolado, puxado de um poste mais abaixo do quarteirão.

— Estamos com luz gratuita graças ao seu pai — falou mamãe. — Ninguém no prédio conseguiria sobreviver sem ele.

Papai deu um risinho modesto. Disse como o processo havia sido complicado pelo fato de a instalação do prédio ser tão antiga.

— A mais infernal instalação elétrica que já vi — explicou. — O manual deve ter sido escrito em hieróglifos.

Olhei ao redor e percebi que substituindo os aquecedores elétricos por um fogareiro a carvão, aquela ocupação em Lower East Side parecia muito com a casa de Lit le Hobart. Eu escapara de Welch uma vez, e naquele momento, respirando os mesmos velhos aromas de terebintina, pelos de cachorro e roupas sujas, de cerveja azeda, fumaça de cigarro e comida sem refrigeração estragando lentamente, senti necessidade de fugir. Mas mamãe e papai estavam orgulhosos, e enquanto eu os escutava falar — um interrompendo o outro em sua excitação para corrigir pontos e preencher lacunas — sobre seus colegas ocupantes, os amigos que haviam feito no bairro e a luta comum contra a Secretaria de Habitação da cidade, ficou claro que eles haviam encontrado toda uma comunidade de pessoas como eles mesmos, pessoas que levavam vidas selvagens lutando contra a autoridade. E gostavam disso. Depois de tantos anos vagueando, eles haviam encontrado um lar.

EU ME FORMEI na Barnard naquela primavera. Brian foi à cerimônia, mas Lori e Maureen tinham de trabalhar, e mamãe disse que haveria apenas um monte de discursos tediosos sobre a longa e sinuosa estrada da vida. Eu queria que papai fosse, porém as chances eram de que ele aparecesse bêbado e tentasse debater com o orador.

— Não posso correr esse risco, papai — disse a ele.

— Que diabos, não preciso ver minha Cabra-Montesa agarrando um canudo para saber que se formou na faculdade.

A revista para a qual estivera trabalhando dois dias por semana me oferecera um emprego em período integral. Eu precisava de um lugar para morar. Havia anos, eu namorava um homem chamado Eric, amigo de um dos gênios excêntricos amigos de Lori, que vinha de família rica, dirigia uma pequena empresa e morava sozinho no apartamento da Park Avenue, onde fora criado. Era um cara desapegado, quase enlouquecidamente organizado, que mantinha registros detalhados de administração de tempo, e era capaz de recitar intermináveis estatísticas de beisebol. Mas era decente e responsável, nunca apostava nem perdia o controle, e sempre pagava as contas em dia. Quando soube que eu estava procurando alguém para dividir um apartamento, sugeriu que fosse morar com ele. Falei que não podia pagar metade do aluguel e não moraria ali a não ser pagando. Ele sugeriu que começasse pagando o que pudesse, e à medida que meu salário subisse, eu aumentaria o valor. Fez com que soasse uma boa proposta comercial, e, depois de pensar bastante, eu concordei.